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domingo, 12 de agosto de 2012

Dia dos pais

Coisa boa é acordar de manhã, ir até o berço no quarto ao lado e dar de cara com um baita sorriso, o mais sedutor e cativante que eu já vi. Daniel é meu melhor presente, sempre foi – e deixa o clichê cumprir seu papel. Experiência bacana essa de ser pai no dia dos pais. Que seja o primeiro de muitos. 


Essa eu fiz em fevereiro. Mas me peguei cantarolando desde cedo:

Come e dorme

Baba
Desaba 
Balbucia
Toma banho na bacia
Faz xixi e faz cocô.
Mama 
Reclama
Se agita
Soluça, regorgita
Arrota e solta pum.

Gosta de botar a mão na boca
Gosta de ir no colo da vovó (do vovô)
Dá risada à beça
Balança a cabeça
Queria era morder esse bumbum.


quinta-feira, 14 de junho de 2012

Concerto na Sala São Paulo exibe peça inédita de Paulo Bellinati

Quem for à Sala São Paulo entre hoje e sábado (qui. a sex. 21h; sáb. 16h30), vai ter a chance de conferir a estreia mundial de uma belíssima peça de Paulo Bellinati, executada pelo Brasil Guitar Duo (João Luiz e Douglas Lora) com regência de Giancarlo Guerrero. Estreia mundial de uma peça sinfônica, aqui em São Paulo, não é coisa que acontece todo dia. Menos ainda uma peça para violões e orquestra, composta por Paulo Bellinati. Tive a oportunidade de assistir ao ensaio aberto e o que ouvi foi de arrebentar. O compositor paulistano, dos melhores violonistas do Brasil e, principalmente, dos mais prolíficos e sensíveis compositores para o instrumento, foi buscar na roça a inspiração para este inédito Concerto para Dois Violões e Orquestra. São três movimentos, que desde os títulos evocam a música do interior, sua linguagem e sua cultura: Toada, Moda de Viola e Ponteado. Quem conhece um pouquinho de música caipira vai notar a genialidade do arranjo, com dois violões que dialogam entre si numa estrutura que faz lembrar o canto terçado das duplas e, ao mesmo tempo, que duelam e se sucedem em frases-mosaico, como as brincadeiras de improviso do cururu e do desafio caipira. A conversa entre os violões e a orquestra segue o mesmo bailado: primeiro eles, impondo o tema, depois ela, glosando o mote da dupla de maneira intensa e vibrante.

João Luiz e Douglas Lora, do Brasil Guitar Duo, 
se apresentam com a Osesp e interpretam peça
inédita de Paulo Bellinati
. Apenas até este sábado

A peça não é caipira. Muito menos sertaneja. É, antes de tudo, brasileira. Brasileira com sotaque, é verdade, daquela que convida a prosear demorado, com mesa posta de broa de milho, café de coador, romeu e julieta (com queijo da Canastra e goiabada cascão). Se puxar pela memória afetiva (provavelmente a única memória que existe), dá para encontrar ali alguma coisa de Elpídio dos Santos, e talvez um resquício de Francisco Mário, principalmente na primeira parte. Mas, o que de fato se percebe na obra, é Paulo Bellinati de sobra. Já faz um bom tempo, Bellinati coloca viola de dez cordas em seus trabalhos. Da mesma forma que a música do conjunto Pau Brasil, do qual participa, é sempre repleta de referências desse universo rústico, regional, de raiz.

O compositor e violonista Paulo Bellinati é o autor
de Concerto para Dois Violões e Orquestra. A peça  
já nasce como um marco na música brasileira

Conheci Bellinati numa dessas incursões pelo mundo da viola. Faz tempo, já, coisa de oito anos. Ele era um dos jurados no 2º Prêmio Syngenta de Música Instrumental de Viola, que girou o país para prestigiar as composições inscritas por violeiros de tudo que é Estado, de tudo que é ritmo, do pagode paulista ao siriri cuiabano, do armorial de Pernambuco ao fandango do Paraná. Eu estive na maioria das eliminatórias, como jornalista, documentando aquele concurso inédito, entusiasta que era e ainda sou do mais brasileiro dos instrumentos (embora a viola tenha surgido em Portugal, é fato que ela se naturalizou por aqui já no século XVI). Se eu já o admirava pela gravação que fizera com Mônica Salmaso dos indispensáveis Afro-sambas de Baden e Vinícius, e também pelo resgate da obra de Garoto e pelo multifacetado CD Lira Brasileira, de composições próprias, criei por ele a maior simpatia após meia dúzia de pequenas viagens, nas quais tomávamos o mesmo avião, nos hospedávamos no mesmo hotel e partilhávamos as mesmas refeições. Aprendi com ele que a viola é instrumento riquíssimo, com a sonoridade cheia que lhe é característica, e que tem uma característica que, por mais que alguns músicos tentem, jamais se conseguirá tirar dela: o DNA de brasilidade rural, simples, campestre. Penso que Paulo Bellinati é um pouco parecido com a viola. Na sua obra, seja qual for o estilo que ele toque, a gente sempre percebe a poesia da música popular brasileira, mesmo que residual, prosaica e singela. Ouvi-lo traz a sensação reconfortante de lembrar de casa, onde quer que a gente esteja. Êta, trem bão! Tomara que esses rapazes do Brasil Guitar Duo, exímios violonistas de dreads no cabelo e sorriso cativante, gravem logo esse concerto. Pra gente poder ouvir no carro, baixar no iPad. O sertão, afinal, está em toda parte, até mesmo nas traquitanas do Steve Jobs, por que não?

sábado, 22 de outubro de 2011

Quando ele me chamar de pai

Vou virar a noite
Preparar seu leite
Quando ele me chamar de pai
Vigiar seu sono
Espantar seus medos
Quando ele me chamar de pai


Vou sair de bike
Vou gostar de Mickey
Quando ele me chamar de pai
Acordar bem cedo
Levantar sorrindo
Quando ele me chamar de pai


Quando ele me chamar de pai
Serei refém da sua voz
Meus braços terão seus cheiros
Meus versos dirão por nós
Histórias de cavaleiros
Piratas e samurais
Amigos pra toda a vida
Quando ele disser "papai"


Vou comprar chicletes
Vou tomar sorvetes
Quando ele me chamar de pai
Vou buscar na escola
Carregar no colo
Quando ele me chamar de pai


Caminhar na praia
Ajustar as boias
Quando ele me chamar de pai
Imitar os bichos
Espalhar meus beijos.
Quando ele me chamar de pai


Quando ele me chamar de pai
Serei refém da sua voz
Meus braço terão seu cheiro
Meus versos dirão por nós
Histórias de cavaleiros
Piratas e Samurais
Amigos pra toda a vida
Quando ele disser "papai".



domingo, 9 de outubro de 2011

Tempo de espanar as prateleiras

Esse é o nome do show a que assisti ontem, na Casa de Francisca.
É também um verso de uma das canções incluídas no repertório, composta com o parceiro Vicente Falek e cantada por Ilana Volcov.

"(...) Tempo de espanar as prateleiras
Tempo de trocar as fechaduras
Tempo de podar as trepadeiras
Tempo de dobrar as partituras (...)" 

Letrista bissexto, tive pela primeira vez a deliciosa sensação de ouvir minhas próprias composições interpretadas num palco. E não em qualquer palco, mas no charmoso (embora apertado) palco da Casa de Francisca, um dos melhores endereços de música ao vivo de São Paulo.

"Tempo de espanar as prateleiras", na Casa de Francisca

Foram 12 canções, em pouco mais de uma hora. Doze canções compostas nos últimos três anos com o amigo Vicente. Foi em abril de 2008 que nos reencontramos, após mais de dez anos, num improvável karaokê na Liberdade. Um grupo de amigos seguira para lá após a festa de lançamento da revista em que trabalho - e Vicente sentou à mesa ao lado. Treze anos antes, em 1995, tocávamos juntos em uma banda chamada Raiz Forte. Chico, Karina, Vicente e eu, tínhamos todos entre 15 e 17 anos de idade na ocasião, e fizemos não mais do que três ou quatro apresentações, em locais como o extinto Vou Vivendo, na Avenida Pedroso de Morais, e a Cultura Inglesa de Pinheiros, onde foi (mal) feita a foto abaixo, um dos raros registros que tenho daqueles tempos. Vicente é o cara com o baixo, junto ao microfone. Eu estou escondido na bateria.

Chico, Karina, Vicente e eu em show na Cultura Inglesa (1995)

Nossa primeira composição foi feita naquela época, com os outros dois membros da banda, e versos um tanto constrangedores:

"(...) Em cada esquina 
uma menina 
vendendo a flor da juventude 
vendendo o corpo sem saúde (...)". 

De lá para cá, graças ao bom Deus, minhas letras melhoraram um pouquinho. E a música do Vicente também. Nós também nos tornamos pessoas melhores, acredito. E, esteticamente, uma mudança fundamental aconteceu: as barbas cresceram e os cabelos encolheram.

Vicente em 1995 

Eu em 1995

Quando nos encontramos, em 2008, no tal karaokê, Vicente me contou que havia se profissionalizado. Agora, fazia trilhas e arranjos instrumentais, trabalhava como produtor, e, multinstrumentista, tocava piano, acordeão e baixo em grupos de jazz (e tango!) ou como frila, em gravações de álbuns de diferentes estilos. Também dava aula de piano e musicalização. E tinha interesse em começar a experimentar um repertório de canções. Alguns meses depois, lhe enviei por e-mail uma letra. Semanas depois, chegou um e-mail dele com um arquivo em mp3. "Delicadeza" estava quase pronta, já arranjada, faltando apenas os versos para preencher o refrão que ele havia criado:

"(...) De que é feito o amor?
De onde vem, e quando?
Como nasce? Quem o faz vingar?
Pra que serve? Onde vai parar?
Vem do gesto de quem ama.
Vem, o amor, do afã de quem se dá.
Desarruma nossa cama,
Põe a vida de pernas pro ar (...)"

Inaugurávamos, assim, a segunda fase da nossa parceria.

Para o show de ontem, Vicente montou a banda meio às pressas, daí a presença inevitável de partituras pelo palco. Tarefa difícil é decorar tanta música em menos de um mês. "Ela roi as unhas", "Pas de deux", "Ausência", "Quando ele me chamar de pai", "Pode entrar"... A mim, sabidamente uma pessoa ranzinza e metódica, caxias em quase tudo que faço, o resultado foi além do esperado. É claro que saí com ideias para um e outro reparos: ajustar a letra de "Nas mãos da malabarista", sugerir modificações no arranjo de "32". Fora isso, meu maior desejo é de que Vicente convença os músicos a registrar esse repertório em estúdio.

A Fábio Barros, Igor Pimenta, Ilana Volcov e Sonia Goussinski, meu mais profundo agradecimento. E, precisando de uma letra, estamos aí!

domingo, 10 de abril de 2011

Cabeças dançantes

Puta que o pariu. E saber que lá se vão 35 anos... Acabo de voltar do Sesc Belenzinho, um lugar fantástico, onde tive a sorte de assistir a um show ainda mais fantástico. Por mais de uma hora, Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos, juntos, tocaram todo o repertório do disco Dança das Cabeças, um álbum antológico (e ontológico) gravado em 1976.


Enquanto a dupla exibia seu talento e sua irreverência para uma platéia de 400 privilegiados, uma fatia considerável de São Paulo preferia confluir para o estádio do Morumbi, na ânsia de rever o messias Bono Vox e seus correligionários. Fiz melhor negócio, acredito. Apesar do aspecto de messias, com o indefectível lenço na cabeça, Egberto é mago sem pompa, menestrel de prosaica sabedoria, com mais de 60 álbuns lançados e um repertório repleto de belas mensagens, sempre transmitidas por meio das teclas do piano e de seus incríveis violões de dez ou 12 cordas. Hoje, pela primeira vez, o vi tocar flauta também.


Naná é bruxo das selvas, mistura de saci e curupira que habita dentro da gente, trançando as crinas dos nossos pensamentos com assovios e batuques. Se você ainda não viu Naná dentro de você, pode ficar de tocaia e pôr reparo: mais cedo ou mais tarde ele há de aparecer.


Juntos, com a alegria e a experiência que 35 anos oferecem a quem sabe aproveitar os benefícios da idade, esses bravos guerreiros fizeram minha alma voltar para casa mais leve, mais doce, mais confiante na beleza do mundo. Porque, no fundo, é isso o que os bons músicos são: semeadores de beleza.


Se alguém aí tiver esse disco, Dança das Cabeças, por favor entre em contato. Tô a fim de garantir o meu. Por ora, o jeito é fuçar por aí para ver se encontro alguns recuerdos dessa linda epopeia sonora. Por enquanto, tudo o que encontrei foi um registro de 1996, quando os dois tocaram juntos no Parque do Ibirapuera. O vídeo é da faixa que dá título ao LP. Pena que a sensação não é nem de longe a fantástica alegria de vê-los ao vivo.


Tomara que eles voltem a tocar juntos por aí. Os fãs já estão à espera.

sábado, 12 de março de 2011

O CD da Rita

Fiquei feliz ao saber que a Rita Gullo havia lançado seu primeiro disco. Lá se vão uns três anos, talvez mais, desde quando a ouvi cantar pela primeira vez, em um desses bares da vida (ou da Vila). Voz afinada, timbre macio, habilidade em transitar suavemente entre os graves menos visitados da pauta - e, acima de tudo, um repertório montado para nos lembrar, hoje e sempre, o tempo em que nossas composições mereciam tanta atenção quanto as interpretações e os arranjos.


Rita estudou canto lírico. E, para nossa sorte, optou por transferir seu aprendizado à música popular. O resultado é um cancioneiro repleto de árias assinadas por gente da estirpe de Gilberto Gil, Dori Caymmi, Tavinho Moura, Milton Nascimento, Lupicínio e Caetano Veloso. Tem uma do Lenine ali no meio, para provar que também existe música de qualidade pós anos 1990, e versões para belas melodias latinas, como "Sueño con Serpientes", canção de Silvio Rodriguez também conhecida na voz da Mercedes Sosa, e "Era de Amar", do uruguaio Jorge Drexler, aquele da trilha de "Diários de Motocicleta".

Tenho lido por aí sobre a participação generosa e especialíssima de Chico Buarque na faixa "A Mulher de Cada Porto". Conversa. O trunfo de Rita não é ter Chico jogando no seu time, dividindo consigo os vocais, em dueto, de uma música que é dele. Outras cantoras receberam a mesma ajudinha em seus discos de estreia, e Marina de La Riva é apenas um exemplo. O trunfo está, mais do que isso, no belíssimo naipe de instrumentistas reunidos por ela - gente como Nailor Proveta, Toninho Ferragutti, Adriano Busko, Teco Cardoso e Fabio Tagliaferri - e na sensibilidade para revirar gavetas até encontrar partituras que clamavam havia tempos para serem gravadas.

Na minha (modesta e despreparada) opinião, a grande faixa do disco é "O Cantador", não somente pela beleza da execução, mas também pela grandeza da composição ("De que servem meu canto e eu / Se em meu peito há um amor que não morreu / Ah, se eu pudesse ao menos chorar... / Cantador, só sei cantar"). Não me atrevo a listar quantas pessoas já a gravaram, e nem sei se foram muitas. Pessoalmente, eu conhecia apenas a gravação da Elis, de meados dos anos 1960, que tenho num bolachão antigo e riscado, uma compilação dos maiores sucessos da "Era dos festivais". Os equívocos, notados após duas atenciosas audições por meus ouvidos canhestros, são três: uma nota meio fora do prumo em "Sentinela", uma canção do Everything But The Girl que parece não se encaixar no repertório, e, a única com alguma relevância real para a carreira de Rita, a ausência de composições inéditas ou boas criações feitas por artistas contemporâneos.

O que eu espero, como o fã que já me tornei, é que Rita não demore demais para começar a trabalhar no segundo disco. E que ele venha temperado com a ousadia de quem arrisca apostar em novidades, seja investindo em composições próprias (não sei se Rita compõe) ou arregimentando meia dúzia de jovens compositores que possam lhe nutrir com coisas inéditas, novas, que recendam à brisa do futuro. Assim, ela evitará repetir o mesmo tropeço de Mônica Salmaso, uma exímia cantora com estofo lírico e ótimos músicos (muitos deles também tocam com Rita), que não conseguiu evitar a pecha de "antiga" por jamais ousar uma composição recente, uma faixa que não lhe garantisse a segurança inequívoca de quem se apoia em autores clássicos. "Cantador não escolhe o seu cantar", diz a letra de Nelson Motta para a melodia de Edu Lobo em "O Cantador". Mesmo assim, estarei à espreita, ansioso para ouvir em primeira mão tudo o que essa jovem promissora, de vasto sorriso, nos oferecer a partir de agora, nesse latifúndio de notas, nesse caminho sem volta. Parabéns, Rita!
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FUI MAL: Depois de publicar o texto acima, fui informado de que uma das faixas do disco é, sim, inedita. Trata-se da canção Espelho, de Eduardo Pitta e Xande Mello: http://soundcloud.com/rita-gullo/10-espelho

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A moça do Snug Harbor

Algumas pessoas me perguntaram quem era a tal cantora que acompanhava o trio de Ellis Marsalis no show do Snug Harbor sobre o qual escrevi três posts atrás (aquela que nos brindou com Desafinado e Águas de Março). Custei a lembrar o nome da moça e acabei enviando um e-mail para a casa de shows para perguntar. Anota aí: Johnaye Kendrick. Se quiser saber mais, leia um perfil dela clicando aqui (em inglês) ou acesse o site pessoal dela clicando aqui.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Feijão com Lady Gaga


Acabo de chegar de Chicago. E já fui logo colocando um CD do Muddy Waters, adquirido uma semana atrás no Delta Blues Museum, em Clarksdale. Encravada no vale do Mississippi, a menos de uma hora de Memphis, Clarksdale é considerada o berço do blues e ficou especialmente famosa em razão de uma encruzilhada onde, supostamente, Robert Johnson teria firmado contrato com o cramulhão (o pé-preto, o sem-nome, o coisa-ruim) para se tornar o maior guitarrista do estilo nos anos 1930.


Passamos dois dias nos arredores de Memphis, onde também visitamos a mansão de Elvis, antes de pegar o trem para Chicago, a cidade do vento (segundo os americanos), dos gângsters (segundo Hollywood), dos arranha-céus (segundo os amigos da FAU) e do jazz moderno.

Estive pela primeira vez em Chicago em 2001, salvo engano, ao desdobrar uma passagem de volta de Detroit, onde cobrira uma feira de ciência e tecnologia para a revista ISTOÉ. Especialmente interessado em arquitetura na ocasião, dediquei meu único dia na cidade a percorrer os primeiros edifícios com mais de doze pavimentos do mundo, construídos nos anos 1880 e 1890 (após o grande incêndio que destruiu Chicago em 1871). Lembro de ter encerrado aquela tarde no 103- andar da Sears Tower, quando ela ainda perdia para o World Trade Center o título de maior edifício das Américas. Voltei agora, apenas para parabenizar a nova campeã.

Dessa vez, no entanto, não foi a arquitetura dos edifícios que chamou minha atenção, mas os maravilhosos monumentos e o invejável paisagismo do Grant Park, implantado à beira do Lago Michigan. Como uma espécie de Central Park, ou um Ibirapuera de Chicago, o parque reúne os principais museus da cidade, dezenas de barracas de cachorro quente e, nos fins de semana, famílias, casais de namorados e grupos de amigos ao redor de generosas cestas de piquenique. A porção mais ao norte, denominada Millennium Park, ainda não existia em 2001. Tampouco o Cloud Gate, a enorme escultura de alumínio em forma de feijão que reflete todo o skyline da Avenida Michigan e a nós mesmos em um jogo de imagens distorcidas, lúdicas e fascinantes.

O “bean” me arrebatou por quase trinta minutos e me fez ficar com raiva por estar sem a câmera. Voltei com ela à noite e ainda quis ir de novo, na manhã seguinte.

Esse turista que olha para cima no canto direito da foto abaixo sou eu, brincando de tirar fotos de mim mesmo.

Na sexta-feira, perto da hora do almoço, estranhei o intenso movimento de adolescentes nos arredores do Grant Park. Grupos enormes rumavam para lá, os rapazes de regatas e as garotas com shorts curtíssimos, quase sempre com garrafas de água nas mãos. Trânsito impedido, marronzinhos com apito na boca, cambistas vendendo ingresso, um som vindo lá do meio do gramado. Só então, tratei de me informar. Descobri que, de sexta a domingo, haveria ali um festival chamado Lollapalooza, que acontece todos os anos. O “Chicago Tribune” trazia o mapa dos oito palcos e a lista das atrações com os respectivos horários. Em um deles, a última atração da noite de sexta (começando às 20h, o que nos padrões brasileiros é quase uma temeridade) seria o fenômeno pop Lady Gaga. Simultaneamente, outro palco seria ocupado pelos Strokes. No sábado, os veteranos do Green Day. Explicava-se, assim, a profusão de camisetas regatas e shorts curtíssimos.

Como minha vibe era outra, aproveitei a mesma noite de sexta, a última das quatro que passei na cidade, para fechar com chave de ouro meu périplo pela terra do blues e do jazz. Por volta das sete, cheguei com minha irmã Maíra ao Buddy Guy’s Legends, casa de blues de propriedade do próprio Buddy Guy, onde esse monstro do blues moderno costuma dar uma canja de vez em quando. Ficamos pouco mais de uma hora ali, bebendo uma cerveja regional ao som de uma dupla de guitarra e teclado, até outra irmã, a Luanda, chegar. De lá, seguimos em direção ao Andy’s, uma casa de jazz com décadas de história, e jantamos ao som de um ótimo quinteto de fusion, formado por teclado, baixo (elétrico), bateria, trompete e trombone e liderado pelo trompetista Corey Wilkes. Finalmente, rumei sozinho para o Green Mills a uma hora da manhã, empenhando um restinho de energia em favor da obrigação de conferir de dentro a decoração da mais tradicional casa de jazz de Chicago, onde a turma de Al Capone costumava se reunir quando minha avó era uma mocinha. Piano, baixo, bateria e sax derramavam seu free jazz cheio de citações de bop e cool enquanto eu derramava uma pint de Guiness junto ao balcão.

O cenário do Green Mill não nega os filmes de gângsters: móveis de madeira de lei, fixos no chão, com estofado de veludo verde musgo, duas ou três colunas no meio do salão impedindo uma visão integral da banda e os impagáveis sofás em meia-lua junto à parede, onde se acomodam quatro ou cinco pessoas ao redor da mesa. E o balcão, um enorme aparador de madeira que se estende desde a entrada até vencer dois terços da casa, servido por um ex-hippie tatuado e uma mulher enorme, recém-saída de um western americano. Ao meu lado, quando minha pint já estava meio vazia (ou meio cheia, a contar pelo meu ótimo humor), sentou-se um deficiente visual, idoso, negro, de muleta na mão e óculos escuros, trazido até a banqueta por um funcionário da casa. Pediu birita à matrona do bar com jeito de habitué, possivelmente um velho músico de jazz que, um dia, soprou seu trompete ou dedilhou seu piano naquele mesmo palco. Só faltou levar a câmera.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Hurricane City

"I showed my tits in New Orleans". A frase, escrita em uma camiseta pendurada na vitrine de uma loja de souvenirs, não significava nada para mim. Não até eu fazer meu primeiro passeio noturno pela Bourbon Street. Da ampla sacada do hotel Sonesta, duas dezenas de rapazes debruçados sobre o beiral provocavam as garotas que passavam pela rua a exibir seus dotes. Quem topava a parada recebia como prenda um colar de contas, às vezes mais de um, atirado lá de cima pelos machos exaltados que, digamos assim, sentiam-se contemplados com o espetáculo. Logo uma cambada estrategicamente posicionada empunhava suas câmeras em direção às presas encurraladas (e invariavelmente sorridentes). I did the same.


A brincadeira ganha estímulos nos 30 graus da Lousianna, onde nem a noite arrefece o verão precaribenho. A brincadeira é democrática. Vi senhoras obesas, muito obesas, levantarem a camiseta e seguirem lépidas com seus colares. Outra passou de cadeira de rodas e precisou de ajuda para recolher os colares que cobriram o chão ao seu redor. Uma jovem beldade, de cabelos loiros e nariz arrebitado, não ficou satisfeita ao ganhar quatro colares e voltou a mostrar as "tits", dessa vez para a extremidade oposta da sacada, a fim de arrebatar mais dois ou três presentinhos. A moça na foto abaixo, a mais desenvolta de todas, custou a prender novamente o biquini, com tantos admiradores por perto.


O leitor dirá que, com essa roupa, a jovem acima só podia estar querendo ficar pelada. Eu explico: ela é hostess em um cabaré, uma das muitas casas de strip instaladas na Bourbon St. Como hostess, não tinha nada de perambular pela rua e abrir o biquini. Mas aposto uma jambalaia com quem duvidar que o gesto bastou para que ao menos um par de clientes fosse atraído para sua toca. Ah, esses inferninhos...


Contei umas dez casas do ramo em 600 metros de rua. Algumas mais clássicas, com um rapaz de terno posando de leão-de-chácara e uma ou duas garotas de corpo escultural fazendo as vezes de isca junto à entrada. Negras ou loiras, em sua maioria, para atender aos desejos mais pungentes dos turistas, sejam eles escandinavos ou sulamericanos.


Outras vezes, vale uma dancinha, um rebolado, um arremedo de poledance como canja, aperitivo.


As casas mais criativas investem em cenografia e chegam a colocar um balanço junto a uma janela, de frente para a calçada, onde a prata da casa se alterna em vai-vens convidativos. "Tá me esperando na janela, ai, ai / não sei se vou me segurar..."


As minhas preferidas, no entanto, são aquelas que anunciam "no cover", a ausência de couvert, desde o meio-fio. Melhor ainda quando uma gatinha cumpre o papel de homem-placa, distribuindo sorrisos entre cartazes luminosos de capas de revista e promessas de sexo explícito.


Esse erotismo tem tudo a ver com essa cidade portuária, de maioria negra e alto sincretismo religioso, onde a boa música popular americana se forjou e continua em construção. A mim, lembrou Salvador, com sua culinária peculiar, normalmente apimentada, sua forte tradição católica combinada à resistência do candomblé (aqui é o voodoo que sobrevive ao cristianismo batista), e a cena musical insuperável, em efervescência e em história.


A Bourbon St é o epicentro de tudo isso. Um bar colado em outro, quase todos com música ao vivo. Jazz (do dixieland ao cool), blues, country, rock e pop. Na maioria deles, basta comprar uma bebida.


Escutei muita coisa boa nos últimos dias. Um show de Jamil Sharif (acima), outro de Irving Mayfield, uma apresentação de um tradicionalíssimo conjunto de metais de New Orleans em um imperdível centro de cultura chamado Preservation Hall (abaixo).


Ali, o jazz também se espalha pelas ruas.


Nas esquinas, nos cafés e nos pontos de ônibus, varando madrugadas.


O ponto alto dessa imersão no jazz foi ter a oportunidade de conferir, na primeira mesa de uma aconchegante casa para shows intimistas chamada Snug Harbor, uma apresentação do mestre Ellis Marsalis, pianista septagenário conhecido como o primeiro patriarca do jazz por ter introduzido os quatro filhos na atividade, dos quais o mais conhecido é Wynton Marsalis. A apresentação em si, em um trio instrumental complementado por um baterista e um contrabaixista, já era de cair o queixo. Lá pelas tantas, sobe ao palco uma cantora excepcional, negra, jovem e radiante, com voz provavelmente curada em corais de igreja, e põe-se a cantar Desafinado, arriscando um português de imitação. Uma execução primorosa. Fiquei triste de as regras da casa não permitirem a produção de fotos. Terminada a canção, mundialmente conhecida na interpretação primorosa de João Gilberto, o grupo emenda um Águas de Março, dessa vez com letra em inglês. No final, mandei um "muito bom" da minha cadeira. A cantora arregalou os olhos, percebeu a presença de uma família de brasileiros a um metro de distância e sorriu encabulada. "Oh, no!" Sua benção, Tom Jobim.


New Orleans ainda se esforça para superar o baque do furacão Katrina, que inundou a cidade no início da década, e agora convive com outra calamidade, provocada por vazamentos de petróleo em sua costa. É uma cidade de gente corajosa, de fibra. Gente arretada que não se apoquenta com pouco.


Hurricane City (Cidade do Furacão) já virou apelido, visível em roupas, placas e lembrancinhas. Hurricane é também o nome de um coquetel servido em muitas casas, e até em barraquinhas nas ruas, como se fosse um capeta de Porto Seguro. Infelizmente, só agora me dou conta, deixei a cidade sem prová-lo, entusiasmado que estava com o baixo preço da Guiness e as convenientes doses de Jack Daniel's. Fica para a próxima, quando também lembrarei de montar meu estoque de colares de contas.

domingo, 25 de julho de 2010

Isso é jazz

Ontem passou na TV o filme O Terminal, aquele em que Tom Hanks interpreta um cara da Cracóvia que chega a Nova York com uma latinha de amendoim para lá de suspeita e é impedido de entrar no país. Após semanas morando no aeroporto, ele finalmente nos revela a razão da viagem e o conteúdo da latinha. Ali dentro há dezenas de autógrafos, obtidos por seu pai junto aos mais renomados músicos de jazz dos Estados Unidos. Acontece que o pai morreu sem completar sua coleção de autógrafos. Ele havia guardado uma foto, feita no Harlem e publicada na revista Esquire em 1959, na qual o fotógrafo Art Kane clicou 57 músicos de jazz juntos, entre os quais Count Basie, Dizzy Gillespie, Lester Young, Thelonious Monk, Gerry Mulligan, Sonny Rolins... Ficou faltando apenas um autógrafo, o de Benny Golson, músico-residente em um hotel de Nova York. E Viktor Navorski, o personagem de Tom Hanks, decide viajar para concluir a missão à qual o pai havia dedicado mais de 40 anos. Em determinado momento do filme, perguntam a ele o que há na latinha. A resposta é breve e verdadeira: "Isso é jazz", ele diz.

Art Kane juntou 57 astros do jazz em 1959.
A foto foi publicada na Esquire


Sempre gostei desse filme. Ontem, o assisti pela quarta vez. Seu significado foi mais intenso agora porque amanhã, veja você, embarco para os Estados Unidos a fim de cumprir a rota do jazz. Vou passar quatro dias em New Orleans, dois dias em Memphis e outros quatro em Chicago, disposto a ouvir o máximo de trompetes, saxofones e pianos que conseguir. Quarta-feira à tarde, estarei caminhando pela Bourbon Street. Conhecerei o French Market, provarei do autêntico tempero cajun. Ouvi dizer que Ellis Marsalis toca toda quinta em um espaço para 90 pessoas e já fiquei com os dedos coçando (essa costuma ser minha reação psico-somática em momentos de ansiedade ou entusiasmo).

A Bourbon Street faz meus dedos coçarem
(foto: Cosmo Condina/NewOrleansOnline.com)

Farei uma viagem em família. Meu pai completou 60 anos há pouco tempo e, entre promover uma festa para 300 pessoas e investir uma grana preta em um porsche, uma harley ou qualquer outro desses brinquedinhos que costumam seduzir homens de meia idade, optou por convidar a mulher e os quatro filhos para dar um passeio. Fiz as contas e percebi que a última vez que viajei com meu pai e minhas irmãs foi há 13 anos. Ainda tenho as fotos daquele janeiro, no qual minha cabeça estava careca por conta do vestibular. Definitivamente, esta será uma experiência e tanto.

Que segredos guarda o Frech Quarter?
(foto: GNOTCC, Ron Calamia/NewOrleans.com)


É provável que eu deixe de lado a blogosfera durante a jornada. Será algo inevitável. Estarei certamente muito ocupado entre a música e o Mississippi. "The moonlight on the bayou, a creole tune that fills the air...", como na letra da belíssima Do you know what it means to miss New Orleans.



All I ask you in this moment is... torça por mim! A gente se fala na minha volta, daqui a duas semanas. Oh, yeah!

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Demônios!

Um mês atrás, publiquei na Época São Paulo uma reportagem sobre a música "Trem das Onze", composta por Adoniran Barbosa e gravada pela primeira vez, em 1964, pelos Demônios da Garoa. Duas semanas depois, a DPZ, agência de publicidade que cuida da conta da revista, procurou o grupo com a proposta de contratá-los para gravar a música da nova campanha da revista. O resultado já está no ar, num vídeo divertidíssimo que percorre alguns dos cartões postais da cidade com irreverência e inteligência. Confiram:


domingo, 18 de abril de 2010

A viola do Ivan

São dez cordas, apenas. Dez cordas que entrelaçam o mundo. Da mesma forma que aprendemos a contar e a escrever qualquer número com apenas dez algarismos, bastam dez cordas para se arrancar de dentro de um bojo o vasto universo de sons e sentidos que habita a bela viola. Cinco pares, somente. Cinco duplas caipiras, emparelhadas lado a lado, que se completam e ampliam feito vozes terçadas. Primas, requintas, turina e contraturina, toeira e contratoeira, canotilho e contracanotilho. Violeiro é regente de coro, maestro a conduzir dez cordas canoras e a distribui-las em naipes como melhor lhe condiz. Por vezes, são dez solistas a esbanjar disciplina e audácia. Contraltos. Sopranos. Tenores. Barítonos. Ivan Vilela é um desses regentes: artesão a manipular fios de aço em melódica alquimia.


Enquanto escrevo, ouço seu mais novo CD, Do Corpo à Raiz, lançado há pouco pelo selo Kalamata: admirável iniciativa do amigo Antoine, que assumiu para si a missão de polvilhar o mercado fonográfico com ótimos registros de música instrumental brasileira. Em 13 faixas, Ivan apresenta músicas compostas por ele para um balé da Cia. Experimental Dança Vida, coordenada por Paula Vital. Sua viola é aqui acompanhada pela viola de arco de Paula Ferrão - que também adiciona violino e rabeca à confort food do álbum -, pela percussão de Cleber Almeida, o contrabaixo de Gilberto Syllos, o violão e a voz de Zé Esmerindo, o coral Madrigal in Casa e a outra viola caipira de Anderson Baptista, aluno de Ivan.


Desde 1998, Ivan não lançava um disco com composições próprias e inéditas. Seu álbum anterior havia sido o Dez Cordas (2007), inteiramente dedicado a arranjos feitos por ele para músicas de Chico Buarque, Tião Carreiro e até George Harrison, entre outros. Antes de Dez Cordas vieram Caipira (2005), um disco de clássicos da música sertaneja no qual sua viola se soma às vozes de Suzana Salles e Lenine Santos, e Quatro Estórias (2002), um "áudio-livro" com textos para crianças de autoria de Rubem Alves. Apesar da intensa produção, eu estava com saudade das peças instrumentais de sua autoria. Do Corpo à Raiz me deixou mais calmo, espécie de ansiolítico consumido com voracidade.
Em comparação com Paisagens (o disco de 1998), este me parece um pouco mais intimista, talvez meditativo. Se as composições de Paisagens nos remetiam facilmente à janela do carro, a maioria das faixas de Do Corpo... nos faz olhar para dentro. De certa maneira, é como se Ivan acertasse duas vezes nos títulos escolhidos. De resto, a novidade dialoga com o primeiro CD. Se, em Paisagens, Ivan arremedou um cururu, mostrou uma catira e apresentou o pagode-de-viola ao leigo, agora ele ataca de festa junina e arremata o trabalho com uma bandeira do divino. Há também um acalanto na música "Menino". Ivan ainda ousa citar a si mesmo, introduzindo na faixa "Catiras" uma sequência harmônica que me parece emprestada de "Pra Matar a Saudade de Minas", composição que abria, em 1998, seu disco de estreia. Em "Fogo" e em "Mistério", provavelmente as faixas de que mais gosto, o que ouvimos é a epifania resultante de um sertão a um só tempo rude e sensível. Como num verso de Rosa ou num compasso armorial, é possível escutar a seca, perceber o cheiro de feijão que emana do fogão a lenha, vislumbrar bezerros esquálidos a caminho do "córgo" (mera hipótese de riacho). Ou, simplesmente, sentar num degrau do alpendre para esperar, enternecido, o próximo disco de Ivan. Que ele venha sem pressa.

domingo, 4 de abril de 2010

Próxima parada: Jaçanã

Adoniran Barbosa completaria 100 anos daqui a quatro meses. Inspirados pela efeméride, nós da Época São Paulo decidimos homenageá-lo com uma dessas reportagens de memória que, de uns tempos para cá, tenho adorado fazer. Primeiro, escrevi sobre os tempos áureos da Cinelândia Paulistana, quando o pessoal tinha de vestir terno e gravata (ou vestidos longos) para entrar no Cine Marrocos, no Art-Palácio, no Ipiranga e no Marabá, entre outras mais de vinte salas instaladas no centro da cidade entre os anos 1940 e 1950. Em janeiro, emplaquei uma grande matéria sobre a prisão do Lula, em 1980, reconstituindo a greve dos metalúrgicos do ABC e os 30 dias em que o atual Presidente permaneceu encarcerado no Dops. Desta vez, o recorte escolhido foi narrar os bastidores da composição e da primeira gravação, em 1964, do samba "Trem das Onze", a mais conhecida música de Adoniran e, provavelmente, a que melhor representa São Paulo.


Escrita por um paulista de Valinhos e impressa pelo conjunto vocal Demônios da Garoa em um LP da Chantecler, "Trem das Onze" estourou no Rio de Janeiro em fevereiro de 1965, arrebatando o troféu de música mais executada do Carnaval daquele ano, quando a capital fluminense comemorava 400 anos. De lá, alcançou projeção nacional e serviu para enterrar, com o perdão do trocadilho, a pecha de "túmulo do samba" atribuída a São Paulo por Vinícius de Moraes. Os dois primeiros parágrafos estão reproduzidos a seguir. Clique aqui para ler o texto na íntegra, que se estende por três páginas (observe a navegação no pé da página inicial), conferir uma entrevista em vídeo com os Demônios e ouvir trechos de dez sambas nos quais Adoniran faz referência a ruas e bairros da capital.


"Caixinha de fósforos nas mãos, Adoniran aproveitava a viagem para compor. Os versos surgiam entre uma estação e outra, ritmados pela cadência do vagão. Especialista em criar tipos urbanos, o artista, nascido em Valinhos em 6 de agosto de 1910, tirava samba dos trilhos. E traduzia, na nova música, a história de um rapaz que tinha de deixar a namorada sozinha para voltar para casa e cuidar de sua mãe. “Se eu perder esse trem, que sai agora às 11 horas, só amanhã de manhã.” Um dos bairros atravessados pela ferrovia acabou entrando na letra por acaso. Era preciso encontrar uma rima. “Manhã... manhã... Jaçanã! Achei bonito o nome”, confessou Adoniran em uma entrevista de 1974, dez anos depois do lançamento da canção que é a cara de São Paulo.
Adoniran barbosa faria 100 anos em agosto. E ficaria todo prosa ao saber que “Trem das Onze” ainda ocupa lugar de destaque na predileção dos paulistanos. Toda terça-feira, uma centena de pessoas vai ao Bar Brahma assistir aos Demônios da Garoa, que sempre encerram o show com seu samba mais famoso. Sentado em uma das mesas, Adoniran abriria um sorriso, pediria um cigarro “emprestado” (para fumar na calçada, é claro), ajeitaria a gravata-borboleta e, no repique da inseparável caixinha de fósforos, cantaria com a plateia. Em tempos de Beyoncé e “Rebolation”, ele descobriria que seus versos continuam reverenciados como um hino. Seis anos atrás, por exemplo, os 450 anos de São Paulo inspiraram uma campanha da TV Globo para eleger a música “com a cara da cidade”. O povo escolheu “Trem das Onze”, uma senhora de 40 anos que, até então, já tinha sido gravada em francês, espanhol, italiano e hebraico."

sábado, 6 de março de 2010

Johnny e a brisa

Não frequentei a boate do Hotel Plaza, em Copacabana. Tampouco conheci a Baiúca, nem a casa da Major Sertório nem o segundo endereço, na Praça Roosevelt. O piano de Johnny mesmo, eu só o conheci pelos discos. E nem faz tanto tempo assim.


Foi em 1994, um janeiro preguiçoso na Bahia, que eu ouvi falar de Johnny pela primeira vez. Tinha 14 anos na ocasião e, estendido numa rede após o almoço, empenhava os finais de tarde a decifrar a bossa-nova de dentro das páginas de Chega de saudade.
Foi Ruy Castro quem primeiro me sussurrou seu nome, estranho nome para um carioca de Vila Isabel. Mas, àquela altura, eu já havia sido apresentado a Dick Farney e Billy Blanco, brasileiros como Dorival e Ary, e não me espantaria se me dissessem que o negro Johnny nasceu Alfredo José da Silva.
Apaixonado que sou pela bossa-nova, do violão revolucionário de João Gilberto ao tac-tum-tac da bateria de Milton Banana, tive enorme satisfação em me enveredar por seus primórdios e conhecer seus precursores durante aquelas férias. E, instigado pelo livro, passei a procurar gravações de época e a me interessar pelos samba-canções dos anos 1950, com a reverência que os mestres merecem.
Senti um baque ao topar com a faixa Eu e a brisa na gravação de Márcia classificada para o festival da Record de 1967 (o mesmo festival em que Elis defendeu O cantador, Chico e MPB4 emplacaram Roda viva, Gil cantou Domingo no parque, Caetano foi de Alegria, alegria, Sérgio Ricardo quebrou seu violão ao ser vaiado por Beto bom de bola e Marília Medalha ajudou Edu Lobo a sagrar-se campeão com Ponteio).
Se a juventude que essa brisa canta
ficasse aqui comigo mais um pouco
eu poderia esquecer a dor
de ser tão só
pra ser um sonho.
Que coisa linda essa Eu e a brisa! Arrisco dizer que, na mesma tarde em que a conheci, devo ter retornado a agulha ao início da faixa umas dez vezes seguidas. Já em 1994, a música soava antiga, cafona, triste. Mas, aos meus ouvidos, era ouro sobre azul. E me dava certa nostalgia de coisas que não vivi, como se os versos fossem soprados pela própria Música, com "eme" maiúsculo: a bossa-nova em pessoa a clamar por uma segunda chance de ser ainda jovem, a pedir um pouco mais de atenção, um pouco mais de paciência.
Oh, brisa, fica, pois talvez, quem sabe,
O inesperado faça uma surpresa
e traga alguém que queira te escutar
e junto a mim
queira ficar
Johnny morreu na quinta-feira passada, dia 4, em decorrência de um câncer de próstata. Tinha 80 anos.
E eu corri para ouvir Eu e a brisa de novo.
Continua cafona. E linda. Imensamente linda.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Intermezzo polifônico

Com fotos de Alex Almeida

Um clarinetista cruza, apressado, o pórtico da antiga estação Júlio Prestes. Traz à mão o estojo, negro e rijo, como porta-jóias avantajado, proporcional ao tamanho do instrumento. Prestíssimo. Um trombonista percorre o saguão, pisando o ladrilho hidráulico como quem marca o ritmo de uma ária. Traz o metal engatilhado, pronto para o combate. Agitato.


Um violoncelista arrasta um armário colossal, sobre rodas, e busca espaço entre cadeiras e estantes até se acomodar no canto direito do palco. Allegro con brio. Uma contrabaixista, de calça jeans e cabelo em rabo, larga a sombrinha à sombra do instrumento, onde seus pés quase tocam o chão. Andante grazioso.


Faltam quinze minutos para o início do ensaio. É hora de desvelar violas e violinos, trazer à tona tubas e trompetes, submergir em um oceano sinestésico forjado em escalas e arpejos. Na intimidade, a música se agasalha em simbolismos: um santo salta do pau oco, uma harpista bate na madeira, um luthier estala os dedos antes de ajustar a palheta de um clarone para que o sopro se transforme em vida.


Vida sustenida, composta em breves e semibreves, mínimas e semínimas, colcheias e semicolcheias, fusas e semifusas.


À guisa de aquecimento, cada músico aninha-se em um canto (da platéia, do palco ou da coxia) e retoma o aprendizado da véspera. É evidente a predileção por frases ainda obscuras, compassos de sustentação precária e digitação imprecisa. Como atleta de quadra ou piscina, o músico em treinamento concentra-se nos pontos fracos e repete a mesma melodia duas, três, doze vezes, até dirimir falhas e fraquezas.


Em instantes, a Sala São Paulo veste-se de sons aleatórios: timbres dispersos e cadências urgentes, que se medem e se entrelaçam, feito pulseira de miçangas.


A polifonia se dissolve no momento em que o regente pisa o tablado. O caos exige reparos. Conserto para haver concerto. Agora, apenas o silêncio ecoa: um silêncio pleno, absoluto, instrumento primordial sem o qual não existe música. Nem ensaio.


À noite, os feiticeiros voltam transfigurados, trajando longos e fraques.

Casais sexagenários vestem óculos de leitura para conferir o programa. Executivos engolem um crepe de queijo e uma taça de cabernet sauvignon e correm ara ocupar seus lugares. Grupos de senhoras ajustam o penteado, indiferentes ao perfume de laquê, e cumprem, sempre juntas, a rotina ancestral de conferir as récitas da Osesp toda quinta-feira. Jovens músicos observam da plateia e sonham com a possibilidade de, um dia, transpor a ribalta e tocar no mesmo palco.


O terceiro sinal ressoa. Músicos se preparam. Uma batuta ergue-se para além do silêncio e desce tenaz. Começa o espetáculo.


//As fotografias que tecem esta crônica foram feitas por Alex Almeida nos dias 4 e 9 de setembro e compõem o ensaio Primeiros Movimentos, publicado na edição de outubro da Revista Época São Paulo.//