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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Esse ano foi "treze"


Seguem treze indícios:

1) Abandonei uma carreira de mais de uma década fazendo revistas (2000-2012) para ir trabalhar numa produtora, a Busca Vida, e ajudei a lançar um filme: "Elena".


2) Comecei um mestrado em ciências da comunicação (sim, isso existe) com a promessa de escrever uma dissertação sobre um produto em extinção: revistas de cidade. Aprendi pra cacete nas cinco disciplinas que cursei — e meu orientador me convenceu a não mudar de tema.

3) Fui chamado de "papai" pela primeira vez (hoje a média é de 30 vezes por dia).

4) Abri uma empresa: a Discurso Direto Ensino e Comunicação.

5) Pedi demissão novamente e virei autônomo (aliás, continuo desempregado e só tenho "projetos" até fevereiro; portanto, queridos colegas, diretores, gestores e empresários, lembrem-se de mim em 2014: estou facinho e cheio de amor pra dar).

6) Um fotógrafo me convidou para editar seu primeiro livro, "Retratos do Teatro". Ganhei um belíssimo exemplar e meia dúzia de novos amigos.

7) Ainda não consegui concluir uma biografia (autorizada, diga-se de passagem) que escrevo há quase dois anos e meio. E olha que o plano era terminar em um ano. Pelo menos entreguei a primeira versão em novembro. Tenho fé de que em janeiro acaba.

8) Fiz a primeira promessa da minha vida e, apesar de ser este católico bissexto e inconstante, minha graça foi alcançada em poucos dias. Aleluia. Resultado: já se vão cinco meses sem consumir álcool. E ainda me manterei abstêmio até março. Ou seja: não passava um Natal e um Ano Novo tão sóbrio desde os 15 anos.

9) Vou ser papai de novo! Em resumo, virei o estereótipo do brasileiro típico: duro, desempregado, sem casa própria — e fazendo filho.

10) Deus, que é brasileiro como todos sabem, anos depois de dar uma mãozinha para o Maradona, resolveu fazer um Papa argentino. Depois disso, tudo desandou: um pastor homofóbico foi presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara; manifestante virou vândalo e Mandela virou símbolo de pacifista até entre os liberais e reacionários convictos; Chico Buarque desatinou; o prefeito de São Paulo foi achincalhado por implementar faixas exclusivas de ônibus; o herói mitológico do STF desrespeitou colegas ("chicanas"), cometeu abusos e é suspeito de irregularidades; o governo federal esperou a última semana de dezembro para anunciar de surpresa um reajuste enorme no IOF quando um monte de gente já estava de férias no exterior (buuu!); o Spider abusou e deu no que deu; o maior piloto da história recente do automobilismo agoniza após um acidente praticando esqui...

11) Tornei-me co-autor de um livro infantil. Em processo de edição, mas já entregue à editora. Ainda é sigilo (eu acho). Que ele seja o primeiro de muitos!

12) Meu neném vai ser uma menina: Bruna.

13) A revista que eu ajudei a criar, na qual trabalhei durante cinco anos e sobre a qual devo basear grande parte do que escreverei na minha dissertação de mestrado foi "descontinuada" nos estertores do ano. 

Depois de tudo isso, imagina na Copa.
Que venha 2014!
Um próspero ano novo para vocês (porque eu não via a hora de poder usar a palavra próspero, juro).

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Mestre Pedro

Hoje tem missa de sétimo dia em homenagem a Pedro Bilatto, meu professor de literatura do terceiro ano. O que se segue é um pequeno texto que escrevi ao saber de sua morte. Fica como um rápido registro da minha admiração e do meu agradecimento.

     Quando o conheci, logo reparei que havia um curativo branco, um esparadrapo infalível a espiar por entre os últimos botões da camisa. Em si, aquele último resquício de infarto significava muito pouco – mas ganhava outra dimensão a cada cigarro acendido, entre uma aula e outra. Para mim, um moleque de 16 anos, o gesto de ainda fumar assumia menos o caráter displicente de quem desobedece o médico e mais a opção pelo prazer comezinho, pela liberdade cotidiana, pela sabedoria imensa de quem descobre o direito de não precisar dar o exemplo sempre – nem ser referência em tudo. Pedro era assim nas aulas, nas conversas de corredor, no trajeto de ônibus de volta para casa. Respostas lacônicas para perguntas insolentes. Ironia e sagacidade. Habilidade ímpar na arte de mostrar aos alunos que, seja qual for o perrengue da vez, há coisas mais importantes na vida com as quais se preocupar.

     Lembro que Pedro havia voltado à universidade e se formado em Direito pouco antes, naquele início dos anos 1990. Em vão: ensinar literatura era mais forte do que qualquer pretensão de advogar. Literatura, quando agarra na gente, é crime que não prescreve. E foi assim, nessa fase pós-Direito e pós-infarto, que tive a oportunidade de conhecê-lo. A mim, ensinou-me a gostar de Machado – o Bruxo do Cosme Velho, como gostava de repetir, adotando o apelido consagrado por Drummond. A mesma ironia, o mesmo ar lacônico e o mesmo olhar de cronista empunhados pelo autor de Dom Casmurro, pronto a esculhambar ritos e convenções, eu encontrava na prosa encantada (e encantadora) do mestre. Provavelmente pela semelhança de estilos, era Machado seu autor preferido, quando o meu continuava a ser Guimarães Rosa.

     Ensinou-me, também, que uma aula dedicada à troca de reminiscências e impressões, à conversa descompromissada, ao papo fugidio, pode ser muito mais educativa do que uma aula repleta de conteúdo, daquela espécie exigida nos vestibulares e prevista nos parâmetros curriculares cimentados em Brasília. Agradeço por ter aprendido isso no momento certo. Pedro, à sua maneira, contribuiu para que eu me tornasse um aluno – e, mais tarde, um jornalista – menos chato. Sem a experiência de ouvi-lo, e de aprender com ele, eu provavelmente não teria, hoje, o mesmo prazer pela escrita e pela leitura. Outros usufruíram da mesma herança. Órfão de filhos, como Brás Cubas, foi a muitos que Pedro transmitiu seu legado – o que só faz aumentar seu saldo ao chegar, sem a celebridade de nenhum emplastro, a “este outro lado do mistério”.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Coisas de amigo

Estou há trinta e poucos minutos chorando. Comecei a chorar na página 274, acho, e continuei assim até a página 301, a última. Tive de interromper a leitura umas três vezes, incapaz de decifrar palavra com a vista turva, embrumada. Histórias de amigos fazem isso comigo.


Amizade, para mim, é alumbramento dos mais assustadores. Magia pungente que desafia razão e senso. Cumplicidade e afeto de irmãos. As amizades púberes, ou adolescentes, são ainda mais surpreendentes pela permanência e pelo alcance. Envergadura e autonomia de vôo. Sinto e ajo em coro com Caetano: "a poesia está para a prosa assim como o amor está para a amizade - e quem há de negar que esta me é superior?"

Edney Silvestre foi uma grata surpresa. Se eu fechar os olhos agora não é um romance sobre um assassinato, nem sobre uma investigação, como fazem supor os primeiros capítulos. Trata-se de um tratado eloquente e catártico sobre esse troço esquisito chamado amizade. Troço emocionante. Troço que ensina e seduz.
Concluir o livro, a galope, me fez olhar com saudade - mas também com orgulho - para o tanto de coisa que aprendi com meus amigos. Contam-se nos dedos, aliás. Os amigos. Aqueles da adolescência, estruturais e fundantes, em apenas uma mão. Amigo de consonância e parceria permanente, companheiro e camarada, a despeito do tempo e do espaço, como Eduardo para Paulo e Paulo para Eduardo, guardo apenas um. E basta. Sempre bastou.


"Eduardo correu para alcançá-lo. 
- Para onde você está indo, com tanta pressa?
- À merda.
- Calma, Paulo!
- Vou à merda porque eu sou um merda! Todo mundo ri de mim! Todo mundo debocha de mim! Ninguém me respeita! Meu pai não me respeita, meu irmão não me respeita, nenhum professor me respeita, nenhum colega me respeita, ninguém na escola me respeita. Ninguém na minha casa me respeita. Ninguém. Em lugar nenhum. (...)
- Calma, Paulo, calma!
- (...) Eu sou um merda. E eu não gosto de ser um merda! Eu não quero ser um merda na vida.
- Você não é. E eu te respeito. Eu sou teu amigo.
- E o que que isso adianta?
- Muita coisa.
- Que coisas?
- Coisas de amigo.
- Que coisas? Hein? Hein? Que coisas, Eduardo?
- Coisas. Como agora.
- Agora o quê?
- Agora para te dizer que você não é um merda.
- Hein? O quê?
- Você não é um merda.
- E por que eu não sou?
- Porque você é meu amigo.
- E daí?
- Se eu tivesse um irmão, eu queria que fosse você.
Paulo calou-se. Abaixou a cabeça. Sentiu vergonha. Quis se desculpar e apertar a mão de Eduardo, mas não fez nem uma coisa nem outra."

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Dentro.


Contribuição de Edney Silvestre ao Tudo Cabe:
"Achou que já tinha passado por aquela situação, a mesma, igualzinha, alguma vez no passado ou agorinha mesmo, e não entendeu o que era nem por que seus olhos tinham se enchido de lágrimas. Outra vez isso, pensou, outra vez essa... essa... o quê?, tomava conta dele como um aperto no corpo inteiro, como se algo estivesse machucado, ralado, ardendo. Mas lá. Dentro. Uma pontada. Não uma dor: pontada. Fina, fina, fininha. Doía fino. E levava tempo para passar. Ou, ao menos, amainar."
O trecho está no livro Se eu fechar os olhos agora, de 2009.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O resultado do Jabuti segundo o Estadão

É tipo um jogo dos sete erros. Logo cedo, em casa, li a matéria publicada no Estadão sobre a cerimônia de entrega do Prêmio Jabuti de literatura, realizada na véspera, na Sala São Paulo. Estive lá, e acordei curioso para saber o que escreveriam. Fiquei surpreso ao perceber que o veículo simplesmente omitira o nome da grande vencedora da noite na categoria não-ficção. A psicanalista Maria Rita Kehl, autora de O Tempo e o Cão (Boitempo), fora sumariamente alijada da reportagem. Por quê? Em poucos segundo, concluí que a supressão de seu nome teria decorrido do fato de o mesmo jornal ter dispensado a autora, ex-colunista de suas páginas, após a publicação de um artigo no qual Maria Rita defendia o respeito à população menos instruída, constantemente ridicularizada pelos mais "estudados" por votar em Dilma. A coluna teria sido considerada afronta grave ao jornal dos Mesquita, que declarara apoio a Serra meses antes, e a autora não apenas foi dispensada como, ao conquistar o Jabuti, teve seu nome vetado na referida matéria.

Indignado, corri para o Twitter e compartilhei minha indignação. Ao chegar ao trabalho, um amigo veio puxar minha orelha. Deixou sobre minha mesa o mesmo recorte, com quatro linhas grifadas, exatamente para mostrar que eu estava louco: Maria Rita Kehl havia sido, sim, mencionada na reportagem.

Assim é o cotidiano no jornalismo diário. Há a primeira tiragem, a segunda tiragem... Minha indignação permanece. Por algum motivo, o redator optara por escrever sua matéria sem citar Maria Rita, muito embora já soubesse de sua conquista ao fechar a matéria publicada no jornal que recebi em casa, fechado às 23h45 segundo inscrição impressa na primeira página. Mais tarde, por ter sido advertido ou simplesmente por ter se dado conta do absurdo do deslize, fez a alteração e incluiu Maria Rita na edição que chegou às mãos do meu amigo, impressa às 0h30 conforme registro. Menos mal. Pior seria se a primeira versão tivesse vindo com a menção à autora e a segunda, sem. De uma forma ou de outra, parabéns a Maria Rita Kehl pela coerência, pela ousadia, pela qualidade do trabalho que desempenha e pelo livro, que eu ainda não li, mas já aprovei.

domingo, 12 de setembro de 2010

O Tempo

"Alice suspirou enfastiada.
- Acho que você devia ter mais o que fazer - comentou - ao invés de gastar o tempo com adivinhas sem respostas.
- Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu conheço - disse o Chapeleiro - não falaria em gastá-lo como se ele fosse uma coisa. Ele é alguém.
- Não sei o que você quer dizer - respondeu Alice.
- Claro que não sabe! - disse o Chapeleiro, inclinando a cabeça para trás com desdém. - Diria mesmo que você jamais falou com o Tempo!
- Talvez não - replicou Alice cautelosamente - mas sei que tenho de marcar o tempo quando estudo música.
- Ah! Olhe aí o motivo! - disse o Chapeleiro. - O Tempo não suporta ser marcado como se fosse gado. Mas, se você vivesse com ele em boas pazes, ele faria qualquer coisa que você quisesse com o relógio. Por exemplo: vamos dizer que fossem nove horas da manhã, que é hora de estudar. Você teria apenas que insinuar alguma coisa no ouvido do Tempo, e o ponteiro correria num piscar de olhos: uma e meia, hora do almoço.
("Gostaria que fosse mesmo" - disse para si mesma, num sussurro, a Lebre de Março.)
- Isso seria formidável, com certeza - disse Alice, pensativamente. - Mas então... talvez eu não tivesse fome ainda, entende?
- A princípio não, talvez - disse o Chapeleiro - mas você poderia ficar em uma e meia o tempo que quisesse.
- É assim que você faz? - perguntou Alice.
O Chapeleiro balançou a cabeça negativamente, com tristeza.
- Não, eu não - replicou. - Eu e o Tempo tivemos uma briga em março passado."
(Lewis Carroll, Aventuras de Alice no País das Maravilhas, traduzido por Sebastião Uchoa Leite)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

N.D.A.

Excerto de texto de Fabrício Carpinejar, publicado no jornal Zero Hora e no blog dele (clique aqui para ler a crônica na íntegra):

"Toda mulher é experiente em testes. Atravessou a adolescência preenchendo questionários de revistas femininas, definindo pela pontuação se é sensual, se terá sucesso financeiro, se ele a ama. (...) O homem deve ficar atento quando se apaixona. Para desvendar qual é o exame decisivo da convivência. Cada mulher elabora o seu enigma, particular e intransferível. Pode ser um convite para visitar a família no interior ou quando apresenta seu bichinho de estimação. É um questionário à paisana. Muitos marmanjos são descartados e não compreendem o motivo. O pé-na-bunda foi uma avaliação secreta em que ele deu a solução errada."

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A humildade é imbatível

Contribuição de Luiz Felipe Pondé ao Tudo Cabe.
O parágrafo faz parte do artigo Mrs. Dalloway, publicado por ele na Folha de S. Paulo de hoje (12 de abril).


"A possibilidade de caminhar pelo deserto, como me disse certa feita o escritor israelense Amós Oz, refaz a alma porque vemos nosso rosto refletido na poeira. O deserto nos ensina a humildade, e a humildade é sempre imbatível. Humildade nada tem a ver com humilhação, mas, ao contrário, humildade fala da consciência de que somos efêmeros como o vento. E só como efêmeros que podemos perceber a dádiva que é respirar."

domingo, 14 de março de 2010

Sabático

Sou um cara meio antiquado. Careta, talvez. Um homem de trinta anos que dorme de pijama, curte João Gilberto, chama milkybar de "lolo" e nunca tomou energético. Os tons grisalhos se estendem também a meus livros e autores preferidos, irremediavelmente imersos em uma fina camada de poeira (como eu).


Embora recorra com certa frequência a best-sellers contemporâneos - e minha biblioteca esteja cheia de anjos, demônios e caçadores de pipas - não há labradores nem vampiros capazes de superar, na minha retrógrada predileção, os desajustados de Rosa, os funcionários públicos de Machado e as deliciosas amantes de Jorge Amado.
Sou um conservador apaixonado por livros, daqueles que têm "o olho maior que a barriga", adquirem mais do que conseguirão consumir pelo resto da vida e têm enorme dificuldade em se desfazer deles. Minha casa, aliás, está cada vez menor por conta disso. Gosto, também, de vasculhar o íntimo desses livros e autores, entender o contexto em que as obras foram escritas, verificar o que a crítica publicou na época da primeira edição, saber quem era casado, quem era homossexual, quem flertava com os russos, quem mantinha relações espúrias com a ditadura de Getúlio. Escritores são, direta ou indiretamente, cronistas por excelência de seu tempo. Há os jornalistas, é claro. Mas nenhum de nós tem o hábito de folhear, numa manhã qualquer de quinta-feira, um exemplar da Folha da Manhã ou da Província de São Paulo prensado em 1914, embora qualquer um possa esticar o braço e alcançar, na prateleira, um exemplar de Quincas Borba, lançado de 1891.
Antiquado que sou, tenho alguma reserva ao pensar em livros digitais. Nem o nome desses aparelhinhos eu guardo. Foi a Amazon que lançou, recentemente, como chama mesmo? A Apple respondeu em seguida com uma plataforma semelhante, deus do céu, qual o nome? Você, leitor, deve saber melhor do que eu. O fato é que ainda não peguei nenhum deles na mão. Curiosidade não me falta. Uma curiosidade descrente, é claro, como quem admira um quadro que jamais colocaria na própria sala. Posso estar errado. Normalmente estou. Mas, por enquanto, acho divertidíssima a ideia de levar ao banheiro uma tela dessas - para, quem sabe, ler ali um texto escrito há mais de cem anos. Ou mil.


O Estadão deste sábado trouxe um novo caderno de literatura. Na primeira edição do Sabático, o mesmo assunto foi abordado em uma entrevista com Umberto Eco, autor de um livro sobre o fim do livro. Para ele, essa fixação é conversa-mole, papo-furado de jornalista. ""O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais", disse o autor de Nome da Rosa. Da mesma forma que a serra elétrica não acabou com o machado e a televisão não liquidou o cinema, as novas tecnologias não substituirão o livro convencional na concepção de Eco. Gosto de pensar assim, com a mesma intensidade que gosto de dobrar a pontinha da folha, de grifar uma frase que me chama atenção, de ouvir João Gilberto e dormir de pijama.
O Sabático dialoga muito bem com esse público ultrapassado do qual faço parte. Gostei especialmente de uma seção publicada na página 3, que trouxe fragmentos de uma resenha publicada no mesmo Estadão em 1956. Assinada pelo mestre Antonio Candido, discorre sobre a primeira edição de Grande Sertão: Veredas, o romance corajoso e insuperável de Guimarães Rosa. "Estupenda visão do mundo e a inquietude interior elaboradas ao longo do seu fluxo de aloquencia e poesia", assinala o crítico. "(No livro) o aproveitamento literário do material observado na vida sertaneja se dá 'de dentro pra fora', no espírito, mais que na forma", acrescenta. Tomara que essa seção, "Do Suplemento Literário", seja preservada nas próximas semanas.
O escorregão do caderno, penso eu, foi manter quase inalteradas a sisudez e o marasmo do Cultura. A seção "Estante", com dicas de lançamentos, continua presa ao academicismo (e ao pedantismo) de publicações pouco palatáveis ao brasileiro comum. As duas matérias principais da edição são dedicadas a Umberto Eco, 78 anos, e ao poeta Manoel de Barros, 93, ambos entrevistados pelos jornalistas da publicação. Entre as resenhas, a maior delas é dedicada ao relançamento de um romance de Liev Tolstói concluído em 1905, quando o russo tinha 82 anos.
O que eu questiono aqui não é, evidentemente, o valor desses livros e autores, mas a opção do jornal em valorizar demasiadamente autores octagenários, já tão conhecidos, num país que carece de incentivos à nova geração. Será que só Umberto Eco, Manoel de Barros, Guimarães Rosa e Tolstói fazem boa literatura? Será que há um limite mínimo de idade para ingressar no puído mundo do novo caderno? O que eu gostaria mesmo era de saber dos bons autores que estão pintando por aí, da molecada que manda bem, e que o jornal tivesse a ousadia de dedicar espaço também a eles. Se não, quando eu comprar meu kindle - lembrei o nome! - não terei nada além de Machado e Tolstói para baixar.

Bilhete só de ida

Contribuição de Marcelo Rubens Paiva ao Tudo Cabe.
O trecho foi chupinhado do artigo "E daí que acaba", publicado no Estadão de ontem:

"Não aguento mais ouvir uma voz feminina afirmar com amargura e rancor que não quer mais casar. As muitas seguidoras de Paulo Mendes Campos acreditam que, se o amor acaba, para que começar outro.
São aquelas que se casaram de branco, no dia mais feliz de suas vidas, apaixonadas e entregues, mas que depois enfrentaram a ira de um ciumento, as neuras de um obcecado, as fraquezas de um viciado, se envolveram com famílias alheias intolerantes, conheceram a frigidez da rotina, a traição injusta seguida pelas mentiras incabíveis, e decidiram pôr um fim no sonho de eternizar aquele instante em que tudo parecia fazer sentido, as estrelas estavam próximas, em que nasceram um para o outro e morreriam grudados, na alegria e na doença.
Aquelas que já passaram por um ou dois casamentos e mergulharam no tombo da separação, em que a decepção troca de lugar com o amor, e o futuro vira pó.
Eu não aguento mais replicar: "Se o amor nos enlouquece, imagine a loucura que é ficar sem ele."
Para aquelas que dizem não acreditar mais no amor, proponho então experimentarem outros e apostarem nesse bilhete só de ida.
Uma noite de prazer acaba. Um banquete acaba. Uma viagem inesquecível acaba. O fim de semana na ilha paradisíaca, um campeonato, o dia, o ano, o gozo, um livro, um disco, um banho de banheira acabam. Não por isso, evitamos outros."

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Parte

Parte de mim que me aquece
e agasalha.
Parte de mim e me esquece,
espalha-se.

Parte que tudo reparte,
que é parte ciência
e outra parte arte.

Parte que me dá suporte,
que é sensível e forte,
que me estende a mão
e me acolhe em parte.

Parte que me faz a corte
e me desfaz em cortes.

Parte que é meu sul e norte
e me desorienta.
Parte mais sincera e doce
que se vai no vento
e me faz amar-te.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Estio

Contribuição de Guimarães Rosa ao Tudo Cabe, em homenagem à trégua oferecida por São Pedro. O trecho está publicado no conto A Hora e Vez de Augusto Matraga, do livro Sagarana (1946):


"Mas, afinal, as chuvas cessaram, e deu uma manhã em que Nhô Augusto saiu para o terreiro e desconheceu o mundo: um sol, talqualzinho a bola de enxofre do fundo do pote, marinhava céu acima, num azul de água sem praias, com luz jogada de um para o outro lado, e um desperdício de verdes cá em baixo - a manhã mais bonita que ele já pudera ver."

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A vida muda

Contribuição de Ferreira Gullar
ao Tudo Cabe, extraída do poema
Dentro da Noite Veloz, de 1975:




"A vida muda como a cor dos frutos
lentamente
e para sempre
A vida muda como a flor em fruto
velozmente
A vida muda como a água em folhas
o sonho em luz elétrica
a rosa desembrulha do carbono
o pássaro, da boca
mas
quando for tempo
E é tempo todo tempo
mas
não basta um século para fazer a pétala
que um só minuto faz
ou não
mas
a vida muda
a vida muda o morto em multidão"

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O príncipe e o mendigo

“As crianças devem ser muito indulgentes com as pessoas grandes” (Antoine de Saint-Exupéry)

Sabe aquele olhar terno e contemplativo que os humanos costumam encomendar toda vez que veem um bebê ou um cachorrinho simpático (a lhes sorrir latindo)? Normalmente, esse olhar vem acompanhado de um sorriso de aprovação, uma leve inclinação diagonal da cabeça e um “oh” prolongado e grave, meio gutural, meio chorado. Pois é esse mesmo olhar que a imagem do Pequeno Príncipe me provoca, até hoje, bem como as aquarelas do autor que ilustram a obra e alguma epígrafe livre, conferida aqui e ali, em canecas, cartões e “spams” amanteigados. Um moleque blasé de cabelos trigueiros, caga-regras e melindroso, inventado por um piloto cheio de manias para se tornar sucesso editorial focado no público infantil, teve êxito, veja você, na majestosa tarefa de me cativar – a mim e a uma pequena multidão de misses, incluindo aquelas que jamais leram uma linha de Saint-Exupéry (e só o conhecem por ouvir dizer).


Pois fui à Oca visitar o Pequeno Príncipe, recém-empossado rei e cacique do Ibirapuera. E não é que bateu aquela nostalgia boa? Encontrei a rosa, a raposa, o baobá. Passei uns bons minutos imaginando como seria o meu carneirinho caso um guri se aproximasse, de capa e mosquete, e me pedisse para fazer um desenho. Revolvi o interior dos meus mais íntimos vulcões e tive calafrios ao imaginar a fúria que moveria uma jibóia a engolir um elefante. Eu, que ainda criança me aprendi responsável por aqueles que cativasse e, depois de adulto (a maturidade não pede licença nem aceita recusa), aprendi que os espinhos não são capazes de tornar rosa alguma mais forte (ou menos carente), vislumbrei pela primeira vez a obra em sua dimensão histórica, temporal e, principalmente, sua íntima relação com a vida e o pensamento de seu autor. Gostei do que vi, com os olhos e com o coração.
***
Eram quatro horas da tarde quando deixei o Ibirapuera e estacionei o carro em uma travessa da Avenida Ipiranga, logo abaixo do antigo Hilton, para almoçar e tomar uma cerveja no Bar Dona Onça, no térreo do Copan. Foi só fechar a porta que um homem se aproximou, trazendo na face um olhar árido e profundo – bem diferente daqueles que costumam vir acompanhados de um sorriso de aprovação e de um “oh” prolongado e grave, meio gutural, meio chorado, de quando encaramos um bebê ou um cachorrinho simpático.
- Deixa dois reais que tá tudo certo – ele disse.
- Deixo na volta – respondi, acionando o alarme e virando as costas, convencido de que aquilo era a coisa mais normal do mundo.
Definitivamente, não foi a resposta certa, ou pelo menos não era a resposta que ele esperava.
- A gente não trabalha desse jeito por aqui – o homem avisou, virando as costas, aparentemente conformado.
- Como é?
- Esse jeito, de pagar depois...
Carregava na mão direita um copo de plástico de 500ml com a logomarca de uma empresa de refrigerantes estampada do lado de fora e meia dúzia de moedas a tilintar do lado de dentro.
- Eu não tenho nada agora – insisti. – Dou na volta, sem erro.
- Não me responsabilizo.
Aquilo era uma ameaça? Havia um alerta naquela voz? Um tom ameaçador? Não percebi. Ou percebi e, de cima da minha arrogância, um pouco despertada pela ousadia lacônica do principezinho caga-regras, não dei bola. E, faminto, entoei para mim mesmo um “então-tá” paciente, caminhando em direção ao bar, sentindo-me confortável graças ao movimento de pedestres pela redondeza – e de uma viatura policial que descia a Ipiranga naquele exato momento. Pude perceber os músculos retesados do flanelinha, e um vagar de olhos que denunciava urgência, quiçá paranóia, mas não rebeldia, raiva ou impulso destrutivo. A gente falha ao subestimar o poder estimulante da humilhação e da vergonha. A gente falha, também, ao subestimar o poder estimulante da fissura e da fome. “A fome tem que ter raiva pra interromper”, cantaram João Bosco e Aldir Blanc, certa feita, menos distraídos do que eu.
***
Quando voltei ao carro, duas horas depois, encontrei o para-brisa todo trincado, compondo um belo espiral (do tempo?).


Sorri. Um riso cansado e rendido, como quem pensa: “eu sabia!”. Um riso prostrado, de quem se percebe incapaz de desvendar o que circula na mente turva de um nóia sem perspectiva ou prognóstico. De um bar em frente, ébrios desalinhados me encaravam. Eles pareciam entusiasmados, à espera do início do espetáculo. Queriam ver minha reação. Queriam me ver esmurrar o capô, emputecido, e esbravejar para a rua vazia e também para eles. Não fiz nada. Entrei no carro, agradecido pelo fato de o homem do copo de plástico ter poupado meus pneus, e parti. “As crianças devem ser muito indulgentes com as pessoas grandes”, entoei, pela última vez.


Em quinze minutos, começaria, em um Gemini grisalho, o filme ao qual planejava assistir. Não fazia sentido perder tempo com picuinhas ou revolta. Eu intuía que aquilo me custaria quase R$ 300. E sabia que nenhum centavo seria revertido à nobre causa do irritado flanelinha. Sua paga, imediata e febril, foi a gloriosa sensação de vingança que deve ter jorrado em suas veias, cumprindo o papel de entorpecente e fazendo-o extravasar. Quando me acomodei na poltrona, a sessão já havia começado. Na tela, um músico genial, um compositor monstruoso, um marido apaixonado, um pai generoso, um guitarrista sempre agitado adaptava-se às circunstâncias e transformava a cadeira de rodas em pedestal. “A arte de viver da fé”, sussurrou Herbert Vianna em meus ouvidos, como se me afagasse os cabelos e me fizesse ver para além da janela, para além do para-brisa estilhaçado, para além do meu asteróide B612. Por certo, meu querido Pequeno Príncipe concordaria com ele. “É preciso que eu tolere duas ou três lagartas se quiser conhecer as borboletas”, arriscou Saint-Exupéry em seu livro.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Defesa


Contribuição de Longus para o Tudo Cabe:
"Pois jamais existiu nem há de existir quem possa se defender de amar, enquanto houver beleza no mundo e o poder de vê-la."
(A frase é um excerto de Dafne e Cloé, o visionário romance escrito no século II por um grego de nome romano. A escultura é de Jean-Pierre Cortot, foi feita em 1824 e retrata o casal criado por Longus.)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Lie to me

Tenho visto vários anúncios da série Lie to me, exibida pela Fox, publicados em jornais e revistas. O olhar circunspecto do protagonista, ao qual nada parece escapar, nos fita da página impressa. E absorve. Como se nos traduzisse de cabo a rabo em poucos segundos.


Não conheço a série. Grosso modo, nem sei ao certo do que trata. É a frase em letras grandes, e não propriamente a produção televisiva, que me chama atenção e intriga: "Minta para mim". Na maioria das vezes, o título é sublinhado por uma rápida linha-fina: "A mentira mostra a sua cara". Lembro imediatamente do verso-manifesto berrado por Cazuza no final dos anos 80: "Brasil, mostra a sua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim". E não consigo disfarçar um sorriso, de hilária indignação, ao substituir a palavra "Brasil" pela palavra "mentira" como se ambas fossem bloquinhos de montar, cambiáveis e equivalentes. Como se "Brasil" e "mentira" fossem sinônimos. Será que o Brasil, este colosso, tem as pernas curtas?
Mentira é coisa chata, coisa triste, coisa que nos emputesse ao ouvir e, principalmente, ao dizer. Pelo menos a mim. Tenho pensado no assunto. Recentemente, li um microconto assinado por Samir Mesquita (www.samirmesquita.com.br) e publicado em um microlivro nada convencional chamado Dois Palitos. Em formato de caixa de fósforos, na qual se esconde uma brochura minúscula, o livro tem 50 páginas, cada uma dedicada a um conto com no máximo 50 palavras. O tal conto, que me chamou atenção, diz exatamente o seguinte:


O escritor, ao menos o de ficção, é esse mentiroso compulsivo, esse construtor de castelos etéreis edificados sobre sonhos e ilusões. Escritor, Samir sabe disso. E admite sem rodeios, enquanto eu, aprendiz de feiticeiro, reluto em vestir a camisa. Fiquei incomodado com aquelas palavras. Não quero me considerar um mentiroso. E passei a olhar para dentro. Para dentro e para trás.
Aprendi a mentir recentemente. Talvez por estar cada vez mais próximo da literatura, esboçando agora meu primeiro romance. Ou, talvez, eu tenha percorrido o sentido inverso: a experiência de aprender a mentir teria me habilitado à escrita ficcional, conduzindo-me por esse saboroso caminho de personagens e tramas. A pulga, no entanto, continua atrás da orelha.
Mentir é uma merda. Escrever é uma delícia. Como pode?
Mentir desloca o olhar (envergonhado). Escrever põe brilho nos olhos (ávidos).
Mentir faz o coração tropeçar e perder o ritmo. Escrever devolve ao coração o ritmo, o tom, a intensidade, a intenção.
A mentira é sempre conservadora. Mentimos para preservar - pessoas que amamos, situações, relacionamentos e, acima de tudo, nossa própria imagem. "Mentiras sinceras me interessam" é outro verso eternizado por Agenor de Miranda Araújo Neto, o mestre-Cazuza.
A escrita, por sua vez, é por definição revolucionária - nos permite extrapolar limites, redefinir papéis e forjar o futuro.
Aprendi a mentir recentemente, repito, e não tenho nenhum orgulho disso. Pessoas mentem por medo, por fraqueza, por presunção, por paixão, por comiseração, por vaidade. Mentem para justificar uma falta à escola ou ao trabalho. Mentem para faturar uma garota ou dispensá-la. Mentem para prolongar um casamento em ruínas. Mentem para não sofrer (e para evitar que pessoas queridas sofram tanto quanto elas). Mentem para se desculpar por terem se ausentado de uma festa à qual não pôde ou não quis comparecer. Comigo não foi diferente. Até atendendo a pedidos acabei mentindo, cúmplice na trama rascunhada por companheiros, correligionários, comparsas.
Não quero mais. Solenemente, abdico desse aprendizado, desse dom adquirido. E retomo, aqui, minha sincera opção pela verdade, leal como sempre fui, revolucionária e libertadora como a boa literatura.
Mas continuarei escrevendo...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Ótimo pra embrulhar peixe

Contribuição de Mario Benedetti, descoberta ontem em seu belo A Trégua. O parágrafo, aplicado à realidade uruguaia, nos torna menos solitários e surpresos perante o espasmo editorial que sentimos ao ler, diariamente, a Folha, o Estado, o Globo, o JB, o Diário... não necessariamente nesta ordem:
Há dias em que compro todos (os jornais). Gosto de reconhecer suas constantes. O estilo de cabriola sintática nos editoriais de El Debate; a civilizada hipocrisia de El País; a maçaroca informativa de El Dia, só aqui e ali interrompida por uma ou outra alfinetada anticlerical; a robusta compleição de La Mañana, vaquinha de presépio que só ela. Como são diferentes e como são iguais! Entre eles, jogam uma espécie de truco, enganando uns aos outros, fazendo-se sinais, trocando de parceiros. Mas todos se servem do mesmo maço, todos se alimentam da mesma mentira. E nós lemos, e, a partir dessa leitura, acreditamos, votamos, discutimos, perdemos a memória, esquecemos generosa e cretinamente que eles hoje dizem o contrário de ontem, que hoje defendem ardorosamente aquele de quem ontem disseram coisas terríveis, e, o pior de tudo, que hoje esse mesmo aquele aceita, orgulhoso e ufano, essa defesa.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Sede ou água?

Contribuição de Antonio Machado numa manhã fria de sexta-feira. A estrofe faz parte do poema Del Camino, publicado na primeira década do século XX:

Arde en tus ojos un misterio, virgen esquiva y compañera.

No sé si es odio o es amor la lumbre inagotable de tu aljaba negra.

Conmigo irás mientras proyecte sombra mi cuerpo y quede a mi sandalia arena.

- ¿Eres la sed o el agua en mi camino? Dime, virgen esquiva y compañera.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O tempo de uma dedicatória

Fiquei pouco mais de duas horas na Livraria Martins Fontes. Duas horas e meia, no máximo. Parece muito. E seria, evidentemente, para qualquer leitor ou visitante que se propusesse a folhear livros ou a buscar um rosto conhecido entre os autores presentes. Mas para alguém como eu, um falso extrovertido que finge encarar com naturalidade situações como palestras, mesas redondas e lançamentos de livros, acaba sendo tudo muito rápido. Rápido por não termos tempo de nos acostumar ao ambiente e nos sentir à vontade, e não por ser gostoso demais e nos dar vontade de eternizar o momento (como normalmente ocorre em namoro recente ou diante de um pavê de chocolate daqueles que só as nossas avós sabem fazer). Rápido porque notamos a aproximação de algumas pessoas queridas, algumas que não vemos há anos, e não temos mais do que dois ou cinco minutos para elas. O tempo da conversa é o tempo da dedicatória. E quanto tempo se gasta para se escrever uma dedicatória?


Andei pensando sobre isso. Que tipo de coisa vale escrever para um leitor que não te conhece? Um deles, juro, pediu que eu não apenas fizesse uma dedicatória, mas fizesse também um desenho. Logo eu? "Vale qualquer coisa", ele disse. Rabisquei lá a qualquer coisa que ele queria. E achei curiosíssimo. Quem sabe um dia eu não pego o Milton Hatoum de jeito, ou o Moacyr Scliar, e os convenço a me fazer um desenho. Bom, pelo menos ele não me pediu um carneiro. Outra leitora se aproximou, checando se eu era de fato autor de um dos contos, e confessou seu orgulho nos dois minutos que levei para dedicar meu texto a ela. "Meu filho está ali na mesa, é um dos autores, tem apenas 18 anos e este é seu primeiro texto publicado." Meus parabéns! Creio que era Angélica o seu nome (o que não deixa de ser também inusitado, uma vez que o meu conto se chama Anjo da Guarda e um encontro de vampiros não é exatamente o lugar mais convencional para se encontrar pessoas angélicas).
Com os amigos, a coisa fica mais complicada. Reinaldo, meu tio, teve de ir embora antes que eu chegasse. Isso significa que fiquei lhe devendo um autógrafo. E também que terei tempo de sobra para fazê-lo (eu acho). Maíra e Luanda, minhas irmãs de vinte e poucos, se aproximaram com um exemplar. Ora, irmã não foi feita para receber dedicatória em livro. Irmã foi feita para se dizer as coisas frente a frente, dar um empurrãozinho ou uma reconfortada quando a situação pede, ou uns safanões quando necessários. Não tenho a menor ideia do que ficou gravado naquela página. A Tiche trouxe a Amanda, outra irmã, uma que eu ainda consigo levantar no colo. Aos oito anos, ela apontava uns autores vestidos de preto, com unhas pintadas, e queria saber quem ali era vampiro de verdade. Essa vai ter de esperar um pouquinho para ler esse livro.
Aline apareceu para me dar apoio. Não conta. Ainda estou devendo um livro para ela. O Felipe Gombossy não me engana: foi lá para retribuir minha presença na vernissage da exposição de fotos dele no mês passado. Mas o cara é gente fina. E acabamos conversando sobre Foz do Iguaçu, onde ele nasceu e de onde acabou de chegar. Dizem que os vampiros de lá são craques em muambas e se alimentam de sangue falsificado. Mas o que eu queria mesmo era saber como estão os preparativos do casamento dele. O Nepô chegou com a Andréa. Ou foi a Andréa que chegou com o Nepô? Não interessa. Pai e filha são amigos muito queridos, provavelmente as pessoas de quem eu tenho as mais antigas lembranças excetuando-se meus familiares. Conheço-os desde os meus cinco anos e, como quase não nos vemos mais, sinto saudade com frequência. Com eles, até tentei escutar o que me diziam sobre o Tom, filho e irmão estudante de jornalismo que está de estágio novo. Mas a dedicatória termina logo. E a cabeça se divide entre a conversa truncada, as palavras rabiscadas em pé, os outros amigos que se aproximam...
Samuca, Nath e dois Felipes cruzam a porta. Esses são especiais. Especiais porque formam um pouco da ração do meu dia a dia. Quem passa oito horas ou mais, todos os dias, numa redação, aprende a se apoiar e se alimentar das expressões e dos gestos de quem vive ao redor. No meu caso, tenho o Samuca à minha frente e a Nath a meu lado, como se ambos ocupassem casas brancas de um tabuleiro de xadrez e eu vivesse numa casa preta. Ou vice-versa. É o tipo de simbiose em que um espirro é registrado, uma dúvida é espontaneamente perguntada, e nenhuma conversa ao telefone consegue passar despercebida ou em sigilo pelo outro. Alguém acha justo resumir uma dedicatória a esse tipo de amigo a três linhas mal traçadas, principalmente quando a caligrafia é uma desgraça e a ansiedade só piora as coisas?
De repente, o Alê se aproxima. Com a mulher e duas filhas pelas mãos. Outra viagem no tempo. Alê foi meu professor de artes no ginásio e me dirigiu como ator de teatro durante dois anos, entre 1995 e 1996. Aprendi muita coisa com ele, sobre o teatro do absurdo, sobre cinema e crítica cultural, e especialmente sobre a convivência entre lúdico e burlesco em todos os setores da vida humana, o barato de não se levar tão a sério, a poesia do cafona e a cafonice do poeta, e mais uma porção de coisas que não cabem em um post. Ele me conta que a filha está aficionada por histórias de vampiro e, após cinco anos desde nosso último encontro, sou obrigado novamente a reduzir o papo para fazer a fila andar.
Acho que ainda vou precisar comer muito feijão para me tornar minimamente simpático e à vontade em um lançamento de livro. Ainda bem que, por enquanto, não tenho nenhum outro a caminho.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Vampiros em guerra

Agosto chegou e o dia 13 se aproxima. É tempo de homem virar lobo, cachorro comer terra, maranhenses fincarem pé no Senado e, acima de tudo, vampiros levantarem de seus caixões e marcharem pela Avenida Paulista. Uma porção deles estará reunida ali, na Livraria Martins Fontes, quase na esquina com a Rua Brigadeiro Luiz Antônio, ao anoitecer do dia 13. O motivo é nobre, coisa de imortal letrado que curte literatura. Quando o carrilhão indicar sete badaladas, será lançado o livro Território V (Ed. Terracota), organizado pelo escritor paulistano Kizzy Ysatis. Todos os 19 contos que compõem o volume são inéditos e têm como tema "vampiros em guerra". Um deles, com o título Anjo da Guarda, foi escrito por mim.


Os vampiros estão na moda, todos sabem. A bem da verdade, faz pelo menos 200 anos que os vampiros estão na moda. Mas não é todo dia que essas fascinantes criaturas das trevas dão as caras nas listas dos livros mais vendidos e dos DVDs mais alugados, tampouco na grade de programação da TV a cabo, como tem acontecido em tempos de Crepúsculo e True Blood. Pois bem. E como fica a produção nacional sobre o tema? O que os ficcionistas brasileiros têm a acrescentar à hagiografia de Drácula e seus sucessores? Uma amostra dessa literatura vampírica poderá ser conferida por quem aceitar meu convite e vier ao lançamento, na próxima quinta-feira, das 19h às 21h30.

Dez dos contos incluídos na seleção foram escritos por autores convidados por Kizzy, como Flávia Muniz e Giulia Moon. Os outros 19 foram selecionados por ele entre centenas de textos que lhe foram enviados, de diversos cantos do país, numa espécie de concurso para eleger os melhores. Eu, que nunca havia publicado um conto e jamais escrevera algo sobre vampiros, entrei nessa por acaso, a convite do organizador.

Conheci Kizzy em 2002, quando o entrevistei para uma matéria publicada na ISTOÉ. Ele ainda não havia publicado nenhum livro na ocasião, nem havia raspado seus caninos para torná-los pontiagudos (sim, o rapaz possui presas assustadoras!). Mas já gostava de vestir roupas vitorianas, mergulhar em histórias de terror e sonetos românticos, e destilar o estranho hábito de visitar cemitérios para escrever e desenhar. Foi no Cemitério da Consolação que nos encontramos, ele de capa preta e lente de contato branca, eu de bloquinho e caneta nas mãos. Max G. Pinto fez a bela foto que ilustrou a reportagem, com Kizzy ao centro, empoleirado em uma tumba, ladeado pela irmã e por um amigo, ambos devidamente trajados de modo funesto. Anos depois, Kizzy publicou seu primeiro livro, Clube dos Imortais (Ed. Novo Século), e ganhou até prêmio com ele, o que me inspirou a retomar o assunto em nova reportagem, de 2006, recorrendo mais uma vez à mesma fonte. Dessa vez, Kizzy foi fotografado por Biô Barreira no estúdio da Editora Três, com um casal de amigos também entusiasta do tema. A imagem está reproduzida abaixo. Kizzy é o cara com a cartola.


Quando, no ano passado, ele me fez o convite para integrar a antologia, aceitei de pronto. Optei por levar meus vampiros ao semi-árido nordestino e narrar a batalha pela ótica de uma mulher, viúva, carente de perspectivas, que gasta suas noites ao balcão de uma birosca encravada na única rua que corta o vilarejo. Entreguei a Kizzy, por e-mail, uma história de amor, muito mais do que uma história de luta ou de medo. Mas quem ousaria afirmar que o amor não mete medo nem está na raiz de grandes disputas? Espero você na próxima quinta-feira, dia 13, quando o carrilhão indicar sete badaladas.