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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Esse ano foi "treze"


Seguem treze indícios:

1) Abandonei uma carreira de mais de uma década fazendo revistas (2000-2012) para ir trabalhar numa produtora, a Busca Vida, e ajudei a lançar um filme: "Elena".


2) Comecei um mestrado em ciências da comunicação (sim, isso existe) com a promessa de escrever uma dissertação sobre um produto em extinção: revistas de cidade. Aprendi pra cacete nas cinco disciplinas que cursei — e meu orientador me convenceu a não mudar de tema.

3) Fui chamado de "papai" pela primeira vez (hoje a média é de 30 vezes por dia).

4) Abri uma empresa: a Discurso Direto Ensino e Comunicação.

5) Pedi demissão novamente e virei autônomo (aliás, continuo desempregado e só tenho "projetos" até fevereiro; portanto, queridos colegas, diretores, gestores e empresários, lembrem-se de mim em 2014: estou facinho e cheio de amor pra dar).

6) Um fotógrafo me convidou para editar seu primeiro livro, "Retratos do Teatro". Ganhei um belíssimo exemplar e meia dúzia de novos amigos.

7) Ainda não consegui concluir uma biografia (autorizada, diga-se de passagem) que escrevo há quase dois anos e meio. E olha que o plano era terminar em um ano. Pelo menos entreguei a primeira versão em novembro. Tenho fé de que em janeiro acaba.

8) Fiz a primeira promessa da minha vida e, apesar de ser este católico bissexto e inconstante, minha graça foi alcançada em poucos dias. Aleluia. Resultado: já se vão cinco meses sem consumir álcool. E ainda me manterei abstêmio até março. Ou seja: não passava um Natal e um Ano Novo tão sóbrio desde os 15 anos.

9) Vou ser papai de novo! Em resumo, virei o estereótipo do brasileiro típico: duro, desempregado, sem casa própria — e fazendo filho.

10) Deus, que é brasileiro como todos sabem, anos depois de dar uma mãozinha para o Maradona, resolveu fazer um Papa argentino. Depois disso, tudo desandou: um pastor homofóbico foi presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara; manifestante virou vândalo e Mandela virou símbolo de pacifista até entre os liberais e reacionários convictos; Chico Buarque desatinou; o prefeito de São Paulo foi achincalhado por implementar faixas exclusivas de ônibus; o herói mitológico do STF desrespeitou colegas ("chicanas"), cometeu abusos e é suspeito de irregularidades; o governo federal esperou a última semana de dezembro para anunciar de surpresa um reajuste enorme no IOF quando um monte de gente já estava de férias no exterior (buuu!); o Spider abusou e deu no que deu; o maior piloto da história recente do automobilismo agoniza após um acidente praticando esqui...

11) Tornei-me co-autor de um livro infantil. Em processo de edição, mas já entregue à editora. Ainda é sigilo (eu acho). Que ele seja o primeiro de muitos!

12) Meu neném vai ser uma menina: Bruna.

13) A revista que eu ajudei a criar, na qual trabalhei durante cinco anos e sobre a qual devo basear grande parte do que escreverei na minha dissertação de mestrado foi "descontinuada" nos estertores do ano. 

Depois de tudo isso, imagina na Copa.
Que venha 2014!
Um próspero ano novo para vocês (porque eu não via a hora de poder usar a palavra próspero, juro).

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

RIP Época São Paulo


            Hoje recebi a notícia de que a Revista Época São Paulo acabou. O comunicado oficial diz que ela voltará a circular eventualmente, em datas especiais, no ano que vem. Fato é que a equipe foi inteiramente desarticulada, com mais de uma dezena de demissões.
            Trabalhei por cinco anos na redação de Época São Paulo, entre janeiro de 2008 e dezembro de 2012. Fui repórter e editor, durante períodos equivalentes. Aprendi muito nessa temporada e posso dizer que curti cada apuração realizada e cada fechamento, dos mais divertidos aos mais desesperadores. Nessa semana, completei um ano fora da revista — e registrei há exatos dois dias a saudade que sinto da velha casa num post no Facebook.
            Atribuo essa saudade basicamente a três fatores. O primeiro deles é a oportunidade de fazer parte de uma equipe fundadora. Pisei pela primeira vez no sexto andar do prédio quatro meses antes de ver a primeira edição chegar às bancas. Foram quatro meses de expectativa e muito trabalho. Medo e delírio no Jaguaré. Só quem teve, como eu, a experiência de presenciar o nascimento de um título, seja como diretor ou como estagiário, sabe a dor e a delícia de ver um projeto tomar forma, inventar seções, inaugurar conceitos, sintetizar ideias.
            Também devo muito da minha saudade às aventuras da reportagem. Não me lembro de ter gastado a sola de nenhum sapato, como os antigos costumavam dizer, não a ponto de enxergar furos ou sentir o calor do asfalto atravessar a borracha. Mas gastei muita caneta bic, a ponto de esfregar o refil de tinta com as mãos para tentar extrair dele mais algumas anotações no bloquinho antes de ser obrigado a sair em busca de uma caneta substituta. Gastei, também, muito olhar, muito olfato, muita audição, um volume razoável de lábia e um bom conjunto de análise nesse período. Rodei a cidade e fui rodado por ela.
            Colecionei histórias como quem costura vidas. Um rali nas obras do Rodoanel, a triste sina do operário que morreu na construção da ponte estaiada, o drama das transexuais na fila da cirurgia, as falcatruas que permitiram a inauguração do estádio do Morumbi. Aprendi um bocado sobre tatuagens e marketing político, transplante de medula e subprefeituras, slam e Adoniran Barbosa. Morei num apartamento no Centro para ver de perto a tal da "revitalização", me apaixonei pelas memórias da Cinelândia paulistana, percorri o trajeto feito pelo lixo desde nossas casas até os aterros sanitários e usinas de reciclagem. Fui numa balada sobre rodas, passei de barco no Tietê e dormi a última noite do hotel Ca D'Oro. Entrevistei o Lula, proseei com Frei Betto, troquei figurinhas com Renato Janine Ribeiro e farpas com o Coronel Álvaro Camilo, perfilei o Paulo Hoff. Dei risada com o Maluf. 
            Finalmente, o terceiro motivo para a saudade é, provavelmente, aquele que mais nos define e inspira, seduz e estimula, motiva e conforta: o elemento gente. Foram tantos caminhos que se cruzaram ali, parcerias construídas, amizades reveladas, trocas inestimáveis de experiência e carinho. Muitas crises e algumas vitórias. Porres. Paixões (tem casal que surgiu na redação e continua firme até hoje). Houve quem partisse para sempre. Há os que não partirão jamais. Arte do encontro. "Somos do tecido de que são feitos os sonhos", escreveu Shakespeare. "O tempo é a substância de que sou feito", rebateu Jorge Luis Borges. Época São Paulo foi isso: tempo e sonho, simultaneamente.
            Hoje, preparo uma dissertação de mestrado sobre revistas de cidade, na qual Época São Paulo deverá desempenhar um papel primordial, quiçá o principal, em razão do meu envolvimento com ela e meu conhecimento sobre os meandros de sua trajetória. Ao deixar a revista, em 2012, eu era o último remanescente da equipe fundadora, o que faz de mim seu membro mais longevo, o único que, sobrevivendo aos três diretores que a revista teve, testemunhara o rodízio de todos os profissionais, em todos os postos. Mas a ideia, ao abordar a Época São Paulo como exemplo de erros e acertos, e principalmente de proposições para o futuro, sempre foi me debruçar sobre uma revista atual, contemporânea, e não sobre um título extinto, um ex-título, que já não há. Escapa-me, de certa forma, o objeto: liquefez-se, como Bauman. E folheio editoriais como se, assim, cumprisse o ritual milenar de "beber o defunto".
            "A revista que São Paulo merece", sintetizou Paulo Nogueira, então diretor editorial da Editora Globo, na carta ao leitor publicada na primeira edição. "Desde seu lançamento, Época São Paulo apontou um novo caminho para o jornalismo de cidades no Brasil. Nada de subestimar o leitor", escreveu Alexandre Maron, o primeiro diretor da publicação, no editorial do número 6. E acrescentava, no mesmo parágrafo, antes de anunciar que aquela seria sua última edição à frente do título: "Oferecemos uma revista linda, com reportagens mais longas e profundas, para quem gosta de ler. Nosso roteiro é visualmente impressionante e valoriza toda a experiência do jantar ou da diversão com amigos e família. Na esteira dessa qualidade, nos tornamos um enorme sucesso comercial. Tenho orgulho das conquistas desta equipe."
            Seu sucessor foi Ricardo Alexandre, que disse o seguinte no editorial da 12ª edição: "Muito se discute sobre o futuro das revistas, especialmente desde que a internet chegou, virando tudo de cabeça para baixo. Mas parece consenso que o caminho para as revistas de papel é fugir da briga direta com o universo on-line. A internet tem a rapidez, a agilidade, a multimídia, a interação. O papel tem a profundidade, o charme, a autoridade. Nós, de Época São Paulo, queremos ter o melhor dos dois mundos."
            Os militantes de Época São Paulo percorreram esse objetivo por 67 edições. No editorial da última edição, sem saber da iminência do desfecho, o diretor Celso Masson citou uma enquete feita no site da revista com a pergunta "O que você gostaria de ganhar neste Natal?". Se a campeã entre as respostas foi uma viagem à Europa, o segundo lugar foi conquistado por uma alternativa inusitada: um abraço. "A grande surpresa foi constatar que 14% dos que responderam à enquete gostariam de ganhar um abraço", escreveu ele. "Símbolo de carinho, acolhimento e afeição, o abraço desejado pelos internautas pode ser entendido como uma declaração de paz num ano marcado por ondas de violência de um tipo inédito na cidade". Logo adiante, no parágrafo seguinte, profetiza o canto do cisne: "Talvez a opção pelo abraço seja, ainda, a esperança de que dias melhores virão. Tomara que venham mesmo."
            Aos mais de 50 profissionais que fizeram Época São Paulo e conviveram comigo nos corredores da revista a longo dos cinco anos em que estive lá, deixo também meu abraço. E faço coro com os votos de Celso Masson. Tomara.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Para o seu governo

Ando escrevendo muito sobre trabalho, eu sei. Vai ver que é porque tenho trabalhado muito. Ou porque tenho estado bastante satisfeito com nossas edições mais recentes. Ou todas as anteriores. A boa notícia é que entrei de férias e farei o possível para virar o disco (como a gente dizia no tempo dos bolachões). Mas enquanto isso não acontece, faço questão de compartilhar uma das edições de Época SÃO PAULO que mais me deixou satisfeito, e que está nas bancas nesta semana.


Antes de qualquer coisa, devo contar que há um esboço de metalinguagem camuflado nessa chamada de capa: trata-se da edição número 50 da revista (a quinquagésima de que participei), o que dá uma dinâmica algo brincalhona aos algarismos garrafais ali presentes. Para marcar a data e, ao mesmo tempo, dar a largada na nossa cobertura eleitoral da maneira que buscamos fazer em todas as matérias – embalando as reportagens numa pegada editorial que procura ser sempre útil, instigante e envolvente – perfilamos todos os 13 pré-candidatos anunciados até o momento e recorremos a paulistanos de diferentes áreas, idades e profissões para reunir um dossiê com 50 sugestões para o próximo mandatário. Gente como o arquiteto Ruy Ohtake, a urbanista Raquel Rolnik, os jornalistas Eugênio Bucci e Juca Kfouri, os escritores Walcyr Carrasco e Ignácio de Loyola Brandão, as ongueiras Viviane Senna e Maria Alice Setúbal, o apresentador Serginho Groisman, o padre Julio Lancelotti, os empresários Pedro Herz e Facundo Guerra, o chef Rodrigo Oliveira e muitos outros paulistanos comprometidos, como nós, com o desenvolvimento e o sucesso dessa cidade, apresentaram suas propostas à equipe, liderada pelo editor Daniel Salles e pela repórter Fernanda Nascimento.

Um dos desenhos de Marcelo Cipis que ilustram a reportagem 

Apareceu de tudo. Enterrar os fios elétricos, transformar o minhocão em parque, criar um bulevar na Rua Augusta, instalar pedágio urbano nas vias de tráfego pesado, equipar os pátios das escolas públicas com sistema de som para tocar música clássica e MPB, criar salas para consumo seguro de crack, transformar a Virada Cultural num evento semanal e itinerante (cada vez num distrito), mudar o sambódromo de lugar para ampliar o Anhembi, criar parques lineares nas margens de todos os rios e córregos, e até converter os cemitérios em parques, transferindo os túmulos para outros locais. O pai de cada ideia? Não conto. Também não revelo as outras 40 que apareceram. Estão todas na revista – e também na versão para iPad, que pode ser baixada gratuitamente clicando aqui.

Na última sexta-feira, um dia antes de a revista chegar às bancas, almocei com um dos colaboradores da pauta, o Eugênio Bucci, e tive a oportunidade de mostrar a ele, em primeira mão, um boneco da matéria. Ele demonstrou grande entusiasmo, dizendo não se lembrar de ter visto uma matéria desse tipo antes e vaticinando boa repercussão. "Vocês montaram um verdadeiro plano de governo", ele disse. "Se um dos candidatos se comprometesse a adotá-lo, tenho certeza de que faria um excelente governo." Horas antes, eu notara uma recepção semelhante ao dar uma breve entrevista sobre o assunto para o programa CBN São Paulo, apresentado pela Fabíola Cidral na rádio CBN. Propostas como essa, na revista ou no rádio, costumam ter o maravilhoso condão de trazer os leitores e os ouvintes (eleitores de modo geral) para perto do debate, e convidá-los a também apresentar propostas, sugestões, ideias, pedidos. Seja por mais ciclovias ou por menos buracos nas calçadas. Por mais policiamento nas ruas ou menos cargos comissionados na administração municipal. A cidade é nossa. E cabe a nós a conduzirmos, muito mais do que sermos conduzidos (como bem conclama o lema gravado, em latim, no escudo do município). Isso depois de descobrir qual é o candidato que adora música eletrônica, qual já foi centro-avante do Botafogo e qual não dorme sem jogar uma partidinha de paciência no iPhone. Tá tudo lá. Boa leitura.

sábado, 5 de maio de 2012

Parece que foi... há quatro anos

Maio de 2008. Uma nova revista chega às bancas de São Paulo.


Eu tinha 28 anos na ocasião. Havia entrado na Editora Globo em janeiro para me somar à equipe que, desde dezembro do ano anterior, se aventurava a criar uma revista de cidades diferente das outras. Ela seria mensal, como as americanas Los Angeles e Chicago. Ela teria lombada quadrada, como as melhores mensais. Ela teria matérias grandes, algumas com mais de 20 páginas. Ela adotaria um projeto gráfico ousado, com excelente papel, fotos muito bem cuidadas, abres impactantes. E, não bastasse tudo isso, ela seria distribuída gratuitamente com a Época, uma vez por mês.

Entre janeiro e abril, levamos quase quatro meses para montar a primeira edição (a capa está reproduzida acima). Época SÃO PAULO surgiu parruda, com uma reportagem especial sobre o que há de mais apaixonante nessa supercidade, modelo que voltaríamos a adotar nos anos seguintes, sempre nas edições de maio. No texto que apresenta a primeira edição aos leitores, nosso então diretor editorial Paulo Nogueira se arrisca a resumir o dinamismo da metrópole e a interpretar o desafio que nossa equipe assumia a cada parágrafo escrito, a cada caderno diagramado:
"São Paulo é uma cidade cosmopolita. Sofisticada. Inovadora. Inquieta. Excitante. Empreendedora. Exigente. Orgulhosa. Ousada. Petulante. Poética. Intimidadora no primeiro olhar das pessoas de fora, mas acolhedora no segundo. Podia ser mais bonita, é verdade, mas há algo de majestoso até na estética desajeitada de São Paulo. Imagine que você tivesse que fazer uma revista que expressasse tamanha quantidade de atributos. Talvez você sentisse o mesmo frio no estômago que se apossou, nos primeiros momentos, dos jornalistas que você vê, agora, felizes."
Sorríamos na foto que acompanhava suas palavras.


Quatro anos depois, agora como editor, percebo que, entre todas as pessoas que aparecem na foto acima, sou o único que continua na Época SÃO PAULO. Os 20 colegas que dividiram comigo as agruras e o entusiasmo de tirar o primeiro exemplar do forno, quatro anos atrás, alçaram diferentes voos e estão por aí, deixando suas marcas em outras publicações. Algumas bem perto da gente, é verdade. O Maron, esse cara de preto no centro da foto, foi o primeiro diretor de redação da EpocaSP e hoje é diretor de inovação digital da Editora Globo. A Carla, de vestido azul à esquerda dele, virou redatora-chefe da Marie Claire. A Nathalia, o segundo rosto da esquerda para a direita, agora é repórter da Época. Os outros estão por aí. Espalhados. Como São Paulo. 

A coisa boa de permanecer, como um "highlander" anacrônico, é poder conferir, de dentro, a magia da renovação, da reinvenção, da inovação, tudo misturado, que cada novo ciclo exige. Uma revista, para funcionar, tem de ser como um rio: ele é sempre o mesmo, mas as águas são sempre outras. Novidade, é esse o ingrediente de todo jornalismo. Notícia e novidade têm o mesmo radical etimológico, e é natural que seja assim. Quando deixarmos de nos renovar, de oferecer notícias e novidades, desconfie. Reclame. Troque de revista. E faça o mesmo com São Paulo. Quando a cidade deixar de surpreender, de criar notícias e novidades, caia fora. Por enquanto, não corremos esse risco. 



Nossa edição de aniversário, publicada hoje, é indício de que novidades não faltam. Tem gente nova na equipe, seções novas ao longo das páginas, logo novo, tipologia nova, design novo do começo ao fim, e 101 novas razões para amar São Paulo. Porque aqui é assim: até o amor a gente renova, inova, reinventa. Não por acaso, o tema principal da nossa reportagem de capa é inovação. As novas ideias paulistanas. Algumas delas, para ser exato, porque nenhuma revista conseguiria encadernar o vasto arsenal de ideias que surgem a cada dia. Entre tantas novidades, tem uma coisa nessa edição que é velha, lugar-comum dos mais descarados, que continua igualzinha há quatro anos - e que a gente faz questão que continue assim: nosso empenho em fazer a melhor e mais bonita revista de cidades do Brasil. Boa leitura! Que você se divirta lendo como nós nos divertimos fazendo. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

O MMC dos poetas


Vale tudo no octógono da palavra, onde os golpes têm métrica e vence o atleta com a língua mais afiada


Reportagem publicada na edição 47 (março) de Época SÃO PAULO. As fotos são de autoria de Manu Costa e estão no blog do ZAP! (zapslam.blogspot.com)

É dia de ZAP!, ou Zona Autônoma da Palavra, o primeiro (e único) campeonato de poesia falada de São Paulo. Criada nos Estados Unidos, onde é conhecida como Slam, a modalidade consiste em recitar versos e submetê-los à avaliação de um júri, formado na hora, com voluntários da plateia. Cada competidor precisa ter pelo menos três poemas próprios, de modo a disputar as três etapas da prova, e a leitura de cada um não pode ultrapassar três minutos. As disputas acontecem uma vez por mês. A cada luta, o melhor poeta é classificado para a grande final, em dezembro, valendo o título de campeão do ano. A abertura da temporada 2012 aconteceu no Sesc Santo Amaro, em 25 de janeiro.



Uma garota de patins circula de tranças e viseira. Maquiada e sorridente, a jovem com vocação de cheerleader carrega uma prancheta. Seu codinome é Naga Yuka, e ela não está aqui para exibir a contagem dos rounds nos intervalos, mas para colher inscrições. Em minutos, há 11 inscritos. Eles têm menos músculos que os lutadores do Ultimate Fighting Championship (UFC), o maior campeonato de combates físicos da atualidade. Mas suas línguas são bem afiadas. Poetas bissextos, compositores de chuveiro e escritores em formação entram na peneira. Seguindo a ordem do sorteio, sobem à arena para declinar seus versos. Na primeira etapa, a última desafiante é Ana Roxo. Fã do argentino Jorge Luis Borges e da paulista Hilda Hilst, a atriz de 35 anos é um furacão no palco:


Eu como chocolate escondida (de mim) eu como você escondida dos outros eu não te como mais eu acredito em Deus eu já vi o capeta (ele piscou pra mim)

O octógono é um tablado retangular com um microfone no meio. Não há cenário nem figurino.“O foco deve estar no texto e na expressão do autor”, diz Roberta Estrela D’Alva, ao mesmo tempo juíza e apresentadora. “Chegamos a receber 20 inscritos. Aparece de tudo: estudantes, senhoras, MCs, gente que aborda temas sociais ou fala de amor.”Ao fim de cada poema, cinco jurados erguem seus cartazes com as notas. Um deles dá nota 10 todas as vezes. “Toda criação é 10”, diz, pouco criativo. A mais alta e a mais baixa não são computadas na soma competitiva.
Enquanto a lousa que serve de placar volta a tinir, alva e limpa, cinco nomes retornam ao sorteio. Cada um a seu tempo, recitam o segundo poema. Na fala afiada desses atletas, sobra porrada para a especulação imobiliária, socos para a PM que atuou em Pinheirinho, pontapés para um mercado cultural que, dizem, exclui a periferia. Ana Roxo volta mais calma para a segunda etapa, falando a um amante que ainda não conheceu. Outro participante, craque nas rimas, Calixto recita um rap. Surge Emerson Alcalde, um ator de 29 anos com dreads e cavanhaque, para falar de flores:


Tua semente foi plantada em terra preta por mãos sofridas
E não no algodão artificial do cientista
(...)
Você tem preço só pro vendedor de flor
Pros amantes, tem valor.

O duelo segue. Organizadora de um sarau na Cidade Ademar, Lídis sobe com um livrinho e lê seus versos, já publicados. Quem fecha a segunda bateria é Serginho Poeta, de 41 anos:


Meia-noite no gueto
Tem um preto parado na esquina
– Será ladrão ou vendedor de cocaína?
(...)
Sou poeta de rua
Agora, espero que me deixem
Continuar olhando o céu
Pois negro já nasce poeta
Mas também já nasceu réu.

Emerson Alcalde, Ana Roxo e Serginho Poeta passam à última fase. O clima esquenta. Ana quebra o gelo e
avança com um cruzado de direita:
No final dos meus textos, você sempre vai embora
Mas aí, no texto, eu minto
Dizendo que te dei mais um beijo
E disse tchau com muita dignidade.

Alcalde devolve:

A multidão parou pra perguntar o que ela tinha
Oque ela tinha?
(...)
A senhora morreu deitada no chão
Abraçada com a única coisa que tinha:
suas latinhas.

Veteranos no ZAP, Ana e Alcalde ficam em segundo e terceiro. Serginho sagra-se campeão, logo na luta de estreia. Sorte? Melhor: poesia bem feita:

Amanhã é dia de visita
Meu filho, a criança mais bonita
Virá me conhecer
Vou rezar até o amanhecer
Para que a vida também não o torne bandido
Para que seja, talvez, como minha mãe sonhou
Um profissional bem-sucedido.

Coordenador da biblioteca de uma fundação no Jardim São Luís, Serginho começou a recitar há dez anos, no Samba da Vela. Para o ZAP, levou seus versos mais engajados. “A temática da exclusão é, hoje, o que as pessoas mais gostam de ouvir”, diz, bom de briga.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Entra e sai de artilheiros


As melhores equipes estão sempre em mutação. É preciso substituir quadros, adquirir novos talentos, promover a alternância de poder. É preciso, também, reconhecer quando a casa ficou pequena demais para quem merece alçar voos mais altos – e, nesses casos, há que se resignar com a perda inevitável, um pouco como os pais que veem o ninho vazio após a partida dos filhos. A regra é clara. Vale para o futebol, vale para o mundo da política, e vale também para o jornalismo. As redações, diferentemente dos diamantes, não são eternas. Nem as mais preciosas delas.


Nesse fim de tarde de sexta-feira, véspera de Carnaval no Brasil – e também no Jaguaré, onde fica a redação da Época SÃO PAULO – misturo saudade e carinho para escrever esse post (sobre times que mudam, sobre diamantes que se vão). A partir da próxima quinta-feira, dois repórteres-artilheiros terão alçado seus voos. Deixarão vazias as cadeiras à minha esquerda e à minha frente. Os dois me acompanham desde minha estreia como editor, em setembro de 2011, e me ajudaram a construir o pouco que sei sobre gestão de pessoas e coordenação de equipe. Antes disso, Eduardo já era repórter da revista, meu colega de apuração e escrita. Rafael veio de quatro anos na Época NEGÓCIOS para a vaga que eu ocupava antes de assumir a edição. Nosso time, enxuto e inquieto, se completava com Nathalia, integrante mais antiga da revista, aonde chegou como estagiária, antes de sair o primeiro número. Desde então, todos crescemos. Aprendemos. Criamos. Fizemos o que é natural a todas as pessoas: não terminadas, elas afinam e desafinam, como nos contou Guimarães Rosa.
Vizinha de mesa por tantos anos, Nathalia foi a primeira grande baixa, em outubro passado. Voou em direção à editoria de comportamento da Época, cheia de planos de fazer hard news e conhecer, por dentro, o ritmo de uma revista semanal. Nesta semana, saíram os outros dois. Eduardo recebeu um convite generoso do Meio&Mensagem. Rafael, que recentemente fora promovido a editor assistente, vai cobrir tecnologia na Época. Minha satisfação é saber que todos tiveram seus trabalhos valorizados e reconhecidos. Selecionados, como foram, num mercado tão disputado como é o nosso, partem com a altivez e a paz de espírito de terem combatido um bom combate, com ânimo renovado para combater muitos outros. O sabor da vitória também é meu. Se nossa revista serviu de vitrine, reivindico solenemente um quinhão desse bom resultado amealhado (um quinhão miúdo, voilá, uma “caixinha” de 10%...).
O baque virá aos poucos. Na próxima quinta-feira, vou estranhar as ausências. A ausência do Edu será a ausência de suas risadas, de seu pescoço esticado para conseguir me olhar de trás de seu PC, a ausência de sua aflição às vésperas do fechamento, com duas ou três matérias para entregar. A ausência do Rafa será a ausência de sua agitação, de seu tom de voz elevado (com um persistente sotaque carioca), das sugestões de pauta que ele me apresentava, incansável, duas ou três vezes por dia, da sua saudável disposição para aprender coisas novas o tempo todo.
Dizem que é um ciclo que se fecha. Eu digo que os ciclos não fecham. Eles se sucedem, e se tangenciam, e se entrelaçam, como argolas de uma corrente – ou como um espiral. Veio a Denise, em dezembro, para a vaga da Nathalia, com o entusiasmo de quem já namorava a Época SÃO PAULO, à distância, há mais de um ano e meio. É dela metade da matéria de capa da nossa próxima edição, que sai no dia 25. Já nos próximos dias, aporta por aqui a Fernanda, sangue novo na Editora Globo, ex-Veja online. E logo completaremos o time, com novos atletas, aquecidos e preparados para a próxima temporada. Estarei por aqui quando essa nova leva também alçar voo, deixando carinho e saudade?

domingo, 14 de agosto de 2011

Dia dos pais, o primeiro de muitos

Hoje ele me acordou logo cedo. Ainda não foi dessa vez que ele pulou na minha cama trazendo um desenho nem se pendurou no meu braço dizendo "pai, acorda... levanta, paiê...". Mas ele estava lá, serelepe, dando cambalhotas no barrigão da Aline. Eram 7h30 - e eu saquei, imediatamente, que era a mim que ele queria. Através da pele, através do carinho que temos um pelo outro, pai e filho, trocamos um longo abraço. E nos beijamos, pai e filho, meio por vocação, meio por telepatia. Coisas que o amor explica melhor do que as palavras.


A atual edição da revista Crescer traz um texto meu, intitulado "Pai em Construção". Nele, transito entre as fantasias e as tensões, as delícias e as descobertas dessa fase gostosa e (inevitavelmente) apreensiva que estamos vivendo aqui em casa. Aline, Daniel e eu fomos fotografados pelo Rodrigo Schmidt. A imagem acima é uma das fotos que ilustram a matéria. A íntegra já está na internet. Para ler, basta clicar aqui. Ou dar um pulo na banca até o final de agosto. Reproduzo um trechinho:

Coisa boba é pai. Leva um chute e fica todo pimpão, esperando um replay. “Chuta o papai, chuta.” Papai. Engraçado, isso. Mudar de nome de uma hora para outra, aos 31 anos. Em casa, na escola ou no trabalho, já fui chamado por diferentes apelidos. Também respondo quando me chamam de Filho – embora apenas duas pessoas tenham o hábito de me chamar assim. Dá uma sensação boa, de conforto e segurança, ser chamado de Filho. Mas pai? Pai dá um baita medo. Enche a gente de orgulho – “Fui eu que fiz” – mas, ao mesmo tempo, traz um monte de preocupações. Será uma criança saudável? O dinheiro será suficiente? Vou saber educar? É verdade que muito pouco se diz sobre os pais. Raramente alguém se interessa em saber como é a gestação do NOSSO ponto de vista. Todo mundo só quer saber da mãe: como ela está? Depois do parto, o centro das atenções será o bebê: tudo bem com ele? Chegam mesmo a dizer que o papel do homem termina no momento da concepção. Bobagem. A melhor gravidez é aquela que se vive a dois. A três, para ser exato. A quatro (se forem gêmeos), e assim por diante.
 

terça-feira, 12 de julho de 2011

100 anos de esplendor

Em 12 de setembro de 1911, o Theatro Municipal de São Paulo abria as portas para seu primeiro espetáculo - com um dia de atraso e o primeiro engarrafamento da história da cidade
Publicado na edição de julho da Revista Época SÃO PAULO

SINAL DE PROGRESSO Dos 300 carros que havia 
na cidade, 100 foram à abertura. O trânsito parou
do Viaduto do Chá à Rua Xavier de Toledo


1º ATO
A novidade mereceu três páginas na edição do jornal O Estado de S. Paulo daquela terça-feira, 12 de setembro de 1911. Parágrafos solenes, ricamente floreados, anunciavam o evento.
“A inauguração do Theatro Municipal é justo motivo de júbilo para os paulistas”, dizia o texto. “Os que amam a arte enxergam, e bem, no acontecimento de hoje uma bella prova de quanto temos progredido e uma fulgurante promessa de mais rápidos e mais assignalados progressos: effeito do avanço já relativamente notável que conseguimos realisar (sic), o grande theatro da cidade reagirá por sua vez, e de mais em mais, sobre o espírito da população, accelerando a obra civilisadora (sic) de que elle próprio representa um dos doirados frutos.”
A cidade tinha 400 mil habitantes, população igual à do distrito de Pirituba em 2011. Carecia, no entanto, de uma sala apta a receber as mais importantes companhias líricas do mundo – ou seja, da Europa. O anúncio da construção entusiasmava a elite ilustrada, em luto desde 1898, quando um incêndio destruiu o Teatro São José, na Praça João Mendes. É verdade que outro edifício foi erguido para se tornar o novo São José, em 1909, onde hoje está o Shopping Center Light. Também é verdade que havia o Teatro Colombo, no Largo da Concórdia, e o Sant’Anna, na Rua Boa Vista. Mas, diante dos anseios de quem já havia desfilado seu chique em camarotes da Itália e França, tais palcos pouco alento traziam. Era preciso mais para estar à altura dos potenciais da cidade cada vez mais moderna, industrial e cosmopolita.
A inspiração, para dizer o mínimo, foi a Opera de Paris, hoje Opera Garnier. O projeto foi encomendado ao arquiteto Ramos de Azevedo. Operários italianos arregaçaram as mangas – e fizeram ao menos uma greve por melhores salários. Previstas para ser concluídas em dois anos, as obras demoraram oito. Vitrais vieram de Stuttgart, mosaicos chegaram de Veneza, mármore foi trazido de Florença, ornamentos de Milão e Paris. Quando pronto, o teatro foi saudado com pompa. “O imponente edifício monumental do morro do chá”, dizia o veterano jornal, “não faria má figura em qualquer das mais cultas cidades da Europa.” E mais: “Iniciado o funcionamento, uma pequena revolução se fará nos hábitos da sociedade paulistana”.

ANDAIME DESAFINADO Os italianos eram  
maioria entre os operários do teatro. Previstas 
para durar dois anos, as obras levaram oito

2º ATO
A inauguração deveria ter acontecido na véspera. A data do dia 11 aparece em cartazes e anúncios. No entanto, nem tudo transcorreu como o previsto. A primeira confusão se deu em relação ao espetáculo de estreia. A comissão encarregada de elaborar a programação da primeira temporada, nomeada pelo prefeito Raymundo Duprat, decidiu-se pela ópera Hamlet, adaptação da obra de Shakespeare pelo francês Ambroise Thomas. Jornais chiaram, vereadores protestaram. Onde já se viu inaugurar nosso maior teatro com um folheto francês baseado num livro inglês? Uma afronta à soberania nacional! Por que não O guarani, de Carlos Gomes? Para driblar a saia-justa, ficou acertado que o espetáculo inaugural seria precedido por trechos instrumentais da mais famosa ópera brasileira. E não se fala mais nisso.
A montagem caberia à Companhia Italiana Titta Ruffo, liderada pelo barítono de mesmo nome. A trupe estava em turnê pela Argentina e, sabe como é… Baixo orçamento é o maior estímulo da sagacidade. Além disso, naquela época não havia exigência de licitação. “A estreia com Hamlet, em 1911, foi um acaso, não uma escolha”, afirma Abel Rocha, diretor artístico do Municipal desde fevereiro. “Naquela época, companhias estrangeiras vinham à América do Sul com toda a produção, incluindo solistas, orquestras e cenários, e traziam diversos títulos, que eram apresentados alternadamente nos teatros pelos quais passavam.”
Para a temporada de inauguração, a companhia exibiria Hamlet e outras nove óperas, entre as quais, O barbeiro de Sevilha e Madame Butterfly. O contrato foi firmado e logo os pertences do grupo embarcaram rumo ao Porto de Santos. Ainda não havia aeroportos por aqui. Nem caos aéreo. Mesmo assim, cenários e figurinos – a essa altura tão aguardados quanto seria a taça Jules Rimet ao final da Copa do Mundo de 1970 – não chegaram a tempo. O espetáculo, com todos os ingressos vendidos, teve de ser adiado para a noite seguinte.
3º ATO
Os arredores do teatro ficaram intransitáveis no início da noite de 12 de setembro. O tráfego, quando fluía, era como se não avançasse: pianíssimo. Dos cerca de 300 automóveis que compunham a frota paulistana, mais de 100 se dirigiram ao local. Num evento de gala como aquele, quem perderia a chance de comparecer a bordo de um símbolo de status como o automóvel? Isso sem contar as centenas de espectadores que foram a pé ou de carruagem – sim, elas eram o meio de transporte habitual dos grã-finos não tão grã-finos.
A crônica elegeu a ocasião como o primeiro grande engarrafamento da cidade. Segundo publicado na semana, um delegado intercedeu junto à direção do teatro e exigiu que a entrada fosse feita por mais portas. “Com essa medida, a chegada das carruagens será mais rápida, sem os inconvenientes da interrupção de trânsito nas imediações”, dizia a nota. “Haverá proibição da passagem de carros pela Rua Barão de Itapetininga, sendo destinada a Rua 24 de Maio para a entrada dos veículos procedentes da Vila Buarque, Santa Cecília, etc.”
No palco, 70 instrumentistas, 56 coristas e 16 bailarinas eram conferidos de perto pelas 1.816 pessoas que lotavam a sala. Não se falou em outra coisa nos salões de chá ao longo da semana. Todos queriam saber sobre o novo endereço, suprassumo do refinamento. Nunca mais se veriam tantos chapéus e fraques na praça.
O Theatro Municipal firmou sua vocação lírica nos anos seguintes. Enrico Caruso e Maria Callas cantaram ali. Isadora Duncan e Anna Pavlova bailaram. Versátil, o teatro serviu a diferentes funções e, ainda na década de 1910, foi convertido em salão de baile. Em 1922, seu saguão foi tomado por arruaceiros como Menotti Del Picchia e Oswald de Andrade, líderes da Semana de Arte Moderna. Em 1936, Mário de Andrade foi nomeado diretor do recém-criado Departamento de Cultura, precursor da secretaria municipal, passando a chefiar as atividades no Municipal. Reformado entre 1952 e 1955, quando colunas foram suprimidas e as poltronas foram estofadas, o teatro foi tombado, em 1981, pelo Condephaat, órgão estadual do patrimônio, e passou por uma nova intervenção no final dos anos 1980. No início do século XXI, clamava por obras de restauro.
4º ATO
Maldito arenito! Absorve umidade e dissolve-se por dentro, virando areia a partir do miolo, até comprometer todo o bloco. Que ideia ir buscar arenito em Sorocaba! Cem anos depois, foi preciso usar a mesma matéria-prima, da mesma mina, para reformar a fachada. E para quê? Para daqui a 20 anos a estrutura acusar novamente a passagem do tempo e pedir novos reparos – como costuma acontecer com o asfalto usado nas ruas da metrópole. Não havia material melhor naquela época, Ramos de Azevedo? Não dava para fazer com pedra ou tijolo?
Em três anos de restauro, a substituição de porções de arenito da fachada foi apenas uma das muitas tarefas executadas. Arquiteta do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), responsável pelas obras, Rafaela Bernardes acha graça quando alguém se surpreende ao saber que todas as 1.533 poltronas foram numeradas antes de ir para a oficina. “E os 14.262 pedaços de vitrais,  também etiquetados?”, diz ela, comparando. Hoje, ao acompanhar jornalistas em visita ao teatro, ela esboça o sorriso merecido de quem pode, enfim, admirar as novas cores do piso, das paredes, dos detalhes.
“A sala de espetáculos voltou a ser cor-de-rosa, como era até 1990”, afirma Rafaela. “Conseguimos eliminar 90% do rangido do assoalho da plateia e recuperamos as pinturas murais, tanto do salão nobre quanto do espaço que chamamos de restaurante, agora com projeto decorativo dos irmãos Campana.” Também foram comprados novos equipamentos para o palco, capacitando a casa a receber grandes produções, incompatíveis com a tecnologia anterior.
De tempos em tempos, o sorriso de Rafaela some e as sobrancelhas se elevam. Nessas horas, é sinal de algo que somente ela percebe – uma sujeira no vidro, um rodapé descascado. Dias antes da reinauguração, em junho, Rafaela se transformou em tocadora de pombos. A cada aterrissagem, a arquiteta acusa o golpe, intenso demais para quem dedicou três anos à tarefa de preservar beirais, capitéis e esquadrias. É preciso correr, gritar, espernear. Xô, pássaro imundo! Vá fazer porcaria do lado de lá do Anhangabaú! Rafaela, em breve, sairá de férias. Os pombos, ora, eles nunca descansam.
5º ATO
O teatro foi reinaugurado no último dia 12 de junho, com apresentações da Orquestra Sinfônica Municipal, do Coral Lírico e do Quarteto de Cordas da Cidade. Poucos eram os fraques e chapéus na ocasião. Hoje, dizem, a intenção é democratizar o acesso à arte, embora a vocação do teatro permaneça a mesma. “É a casa lírica da cidade, concebida para apresentar, principalmente, óperas e balés com orquestra”, diz o secretário municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil. Em 12 de setembro, o centenário do Municipal será celebrado com uma montagem de Rigoletto, de Verdi, com concepção original de Felipe Hirsch e cenários de Daniela Thomas. Para os próximos anos, está prevista a construção de um edifício-garagem na esquina da Rua 24 de Maio com a Rua Conselheiro Crispiniano. Enquanto ele não fica pronto, a dica é ir de ônibus ou metrô. Até porque uma das poucas coisas que não mudaram desde a inauguração, um século atrás, é o trânsito ao redor da sala.

sábado, 14 de maio de 2011

A volta do médico-monstro

A reportagem de capa da edição de hoje da Revista Época calou fundo dentro de mim. Estou até agora engasgado com o café da manhã. Fazendo um rápido resumo, a revista revela, com base em depoimentos prestados à polícia e ao ministério público, que casais assistidos pelo médico Roger Abdelmassih descobriram que as crianças geradas por eles não são seus filhos biológicos. Em outras palavras, desembolsaram fortunas para dar à luz bebês que, no mínimo, foram concebidos in vitro com óvulos e/ou espermatozóides alheios, reeditando a barriga de aluguel. E sem o consentimento dos "doadores" involuntários dos gametas. Digo no mínimo porque o médico-monstro, vale lembrar, foi condenado a 278 anos de prisão por uma série de crimes que inclui, entre outros, estupro. Estupros realizados ali mesmo, no cativeiro de luxo da Avenida Brasil, com pacientes desacordadas.


Estou grávido, como já revelei aqui mesmo no blog, o que faz aumentar ainda mais minha indignação. Aline e eu tivemos a felicidade de engravidar, naturalmente, após dois ou três meses de "tentativas". Um bebê desejado, querido, concebido à moda antiga, quando muitos casais veem-se impelidos a apelar para os avanços científicos a fim de, num último gesto de esperança, perpetuar sua herança genética por meio da fertilização assistida. Quantas mulheres, frágeis e desesperadas, adentraram a clínica do Dr. Roger, hoje um criminoso com a licença médica cassada, dispostas a empenhar o que fosse preciso para realizar o sonho da maternidade? E quantas aceitaram caladas, por tanto tempo, as humilhações a que foram submetidas, cientes de que o tão sonhado bebê estagiava numa lâmina de vidro em algum escaninho do laboratório daquele monstro - e poderia ser esmagado em segundos pelas garras do doutor maldade se ousassem enfrentá-lo?


Terminei a leitura convencido de que, após a morte de Osama Bin Laden, está na hora de o governo brasileiro pedir auxílio à CIA e às armas norte-americanas, se preciso for, para capturar e prender esse terrorista: um ser abjeto e horripilante, sem barba ou turbante, mas munido de uma mente doentia que desafia os limites da brutalidade humana. Pensei na Cilene, uma colega jornalista que, muito tempo atrás, torceu o nariz ao ouvir o nome de Roger numa reunião de pauta. Por algum motivo, ela já não gostava dele. Pensei em Carla, amiga querida e mãe de duas filhas maravilhosas, que cumpriu por quase nove anos uma angustiante maratona de tratamentos, consultas e exames, com diferentes médicos e métodos, até remediar a má formação uterina que a impedia de engravidar. Pensei em Cláudia, aluna da Aline, que virou especialista no assunto de tanto investir na mesma jornada, e, jornalista premiada, ainda não obteve o prêmio mais ansiado. Pensei na Amanda, minha irmãzinha querida, que chegou à nossa família com dois meses de idade, após um longo processo de adoção, e continua enchendo de alegria nossas vidas. Receba, Tiche, meu abraço e meu agradecimento por ter confiado nessa forma tão linda e terna de gestação.

A todas essas mulheres, e a todas aquelas que levarão uma vida para superar o trauma causado por um canalha com diploma de doutor, minha admiração e minha solidariedade.

domingo, 3 de abril de 2011

E ainda dizem que é coisa do passado

Dá só uma olhada na foto abaixo. A moça do retrato se chama Graziella Schmitt. Tem 29 anos, é atriz, começou a carreira como paquita, atuou em Malhação e, na próxima terça-feira, fará sua estreia - de faixa no cabelo e blusa estampada - como a protagonista de "Amor e Revolução", nova novela do SBT.


No folhetim, a bela viverá a guerrilheira Maria Paixão, militante de uma organização revolucionária disposta a pegar em armas para derrubar a ditadura. Depois de servir de argumento para a minissérie "Anos Rebeldes", de 1992, o governo militar volta às telas, justamente na emissora de Sílvio Santos, o ex-camelô que sempre se esquivou de temas políticos e, por décadas, preferiu importar novelas mexicanas a investir em uma teledramaturgia nacional. Em entrevista publicada hoje no Estadão, Graziella diz "amar" o tema escolhido pelo autor Tiago Santiago, que além de dramaturgo é cientista social com mestrado em sociologia. Afirma ter feito, ainda, treinamento com armas de fogo para melhor se preparar para o papel. Antes das gravações, o elenco também participou de oficinas com a presença de ex-guerrilheiros, presos e torturados nos anos de chumbo, como Rose Nogueira e Maria Amélia de Almeida Telles, que perderam parentes na luta.

Por ser uma novela do SBT, é impossível saber de antemão se as boas intenções da atriz, do autor e do diretor serão revertidas em um produto televisivo de qualidade ou se terminarão, como muitas vezes ocorre, por ofender a inteligência dos espectadores. O que se pode afirmar, desde já, é que o assunto, ao contrário do que se diz por aí, continua presente na mente dos brasileiros, na curiosidade do público e no dia a dia das instituições. O galã da novela "Araguaia", só para citar outro folhetim em cartaz, descende, segundo a sinopse, de um guerrilheiro que atuou nos focos rurais formados no Bico do Papagaio no início dos anos 1970 pelas frentes do PCdoB.

Na semana que passou, tivemos o aniversário de 47 anos do Golpe, também chamado de Revolução de 1964 ou simplesmente de "gloriosa" pelos signatários do regime de exceção. Pouco se falou sobre o assunto na TV, o que deve, sim, ser encarado como sinal de vitória da democracia. Poucos anos atrás, havia marcha militar, salva de tiros e loas aos borbotões. Mas houve quem celebrasse a data. "31 de março de 1964: PARABÉNS FORÇAS ARMADAS, PELO ANIVERSÁRIO DO REGIME MILITAR DEMOCRÁTICO BRASILEIRO", twittou, em letras graúdas, o vereador Carlos Bolsonaro, filho do personagem mais polêmico da semana, o deputado Jair Bolsonaro - militar que entrou para a vida pública nos anos 1980 e, desde então, tem se dedicado a esculhambar negros e homossexuais. Na última segunda-feira, o programa "CQC" exibiu entrevista com Bolsonaro, na qual o deputado afirmou, entre outras coisas, que seu filho não seria "promíscuo" para se casar com uma negra. "Meus filhos foram muito bem educados", explicou (confira vídeo abaixo). Em seguida, tentou consertar e acabou se enrolando ainda mais. "A resposta dada deve-se a errado entendimento da pergunta - percebida, equivocadamente, como questionamento a eventual namoro de meu filho com um gay", justificou, em nota. As negras não são promíscuas, mas os homossexuais, sim. Triste o país que tem parlamentares como este.


Lembro que, anos atrás, foram divulgadas fotografias da porta do gabinete do deputado, na qual havia um cartaz afixado, com um desenho de um cão e a seguinte mensagem sobre a busca de ossadas no Araguaia: quem procura osso é cachorro. É esta a personalidade de Bolsonaro. Será que ele assistirá à próxima novela do SBT?


O que me dá algum alento, nessa história toda, é perceber o quanto o tema continua firme. Acabo de ler a primeira edição da revista GQ Brasil, lançada agora mesmo em abril pela recém-criada joint venture Edições Globo Condé Nast, e tive uma grata surpresa ao me deparar com a reportagem do Lucas Figueiredo sobre o Araguaia. Lucas Figueiredo é um jornalista da peste, autor de um ótimo livro chamado "Olho por Olho", no qual desvenda os meandros da produção de dois petardos editoriais compilados nos anos 1980 sobre a ditadura, um pela resistência democrática, o "Brasil: Nunca Mais", o outro pelos militares, o "Orvil". Na primeira edição da GQ Brasil, ele dirige seu olhar para o foco da guerrilha rural e revela de que maneira os coronéis cooptaram índios da região para que caçassem (e degolassem) os "paulistas", como eram chamados os comunistas aquartelados na área. Coisa boa, fruto de apuração da melhor espécie, e logo em uma publicação com chancela americana, dedicada ao público AA, entre páginas de luxo, estilo e comportamento.


Não bastasse, está em cartaz em São Paulo, no Memorial da Resistência, uma exposição sobre os 40 anos do "desaparecimento" do deputado Rubens Paiva, mais conhecido das novas gerações como "o pai do Marcelo Rubens Paiva". O parlamentar sumiu do mapa após ser preso e torturado pelas forças da repressão. Até o dia 10 de julho, a mostra perpassa sua atividade legislativa, seus últimos dias de vida, e reúne fotografias, algumas inéditas, capazes de reconstruir o legado deixado por mais uma vítima da ditadura, da qual ainda não se encontraram os ossos.  


Na GQ, nos jornais, na TV e nas redes sociais, é nítido o quanto ainda se buscam respostas para as dúvidas que ainda pairam sobre os anos de chumbo, sobre os tempos da ditadura. E ainda tem gente que diz que é coisa do passado, que não há motivos para se tocar no assunto.

terça-feira, 29 de março de 2011

Lula lá - a alegria de se abraçar


O cara já deixou a presidência faz tempo e continua causando. Lendo o post de hoje do blog do Ricardo Kotscho, fiquei sabendo que a discussão do momento é sobre a autoria do slogan "Lula lá", transformado em lema da primeira campanha de Luiz Inácio ao Planalto e adotado no jingle de Hilton Acioli que acabou virando hino de uma geração. Quem tem mais de 30 anos certamente se lembra de versos como "é a gente junto / valeu a espera / meu primeiro voto pra fazer / brilhar nossa estrela", ou ao menos do hit "sem medo de ser / sem medo de ser / sem medo de ser feliz".


Tudo porque a Folha de S. Paulo atribuiu o "Lula lá" ao marketeiro Paulo de Tarso Santos em matéria recente. E jamais publicou o desmentido de Maurício Maia, filho do gênio Carlito Maia, verdadeiro autor da marca. Foi Paulo de Tarso quem levou a frase a Hilton Acioli, o compositor responsável por criar o jingle. Ao que parece, neste episódio, Paulo de Tarso agiu como um intermediário, uma espécie de motoboy responsável por levar o mote ao glosador.


Conheci Carlito Maia, já velhinho, em uma festa do PT no início dos anos 1990. Publicitário, ele foi dos grandes criadores do partido, autor de sacadas surpreendentes como o logo "oPTei", estampado até hoje em camisetas, bonés, canetas, broches e adesivos, e o inspirador "solidaried'AIDS", disseminado em parachoques e vidros de carros ao longo dos anos 1990. Também a expressão "PT saudações", usada pelos militantes de primeira hora para assinar cartas e bilhetes, foi lançada por ele, em uma coluna que assinava na Gazeta de Pinheiros na década de 1980. A propósito, para quem nunca viu um telegrama de perto, vale explicar que pt representava ponto, da mesma maneira que vg representava vírgula, na redação truncada e sem pontuação dos velhos telegramas - de modo que "pt saudações" era assinatura corriqueira nesse tipo de correspondência.


"Lula lá", o jingle, marcou época na voz dos cantores Gilberto Gil, Djavan e Chico Buarque (vídeo acima) e também ao reunir, no programa eleitoral, dezenas de atores globais, como José Mayer, Malu Mader, Marieta Severo, Aracy Balabanian e Hugo Carvana (mais ao alto), todos em apoio à candidatura do torneiro mecânico.


Carlito, meu caro, quem viu de perto todo aquele movimento acontecer, e torceu por ele com ânimo renovado e a esperança de ver um Brasil diferente, não está nem aí para as sandices da imprensa. Certas coisas são História, permanecem para sempre nos arquivos e nas lembranças - mesmo quando um jornal erra, no afã histriônico de tentar reescrever os fatos.

sábado, 26 de março de 2011

Na minha mão é mais barato

Outro dia o Rafael chegou até minha mesa e me mostrou um cartão azul. "Disk ingresso". Mais embaixo, um número de celular. Duas semanas antes, ele havia dado início à apuração de uma reportagem sobre a atuação dos cambistas em São Paulo. Valia de tudo: jogos de futebol, shows internacionais, baladas com ícones da música eletrônica se apresentando nas pick ups. Sua missão era desmontar, decifrar, descobrir todos os esquemas utilizados por esses intermediários de elite, essa tropa de fornecedores que ganham a vida cobrando ágio em troca da conveniência de oferecer bilhetes de última hora a quem não conseguiu ou não quis comprar entradas pelo preço oficial, por telefone, internet ou nas bilheterias. O resultado está na matéria de capa da edição de Época SÃO PAULO que chega hoje às bancas da região metropolitana, de graça para quem comprar a Época.


Rafael Barifouse é carioca, radicado há quatro anos em São Paulo. Está conosco desde dezembro e assina, agora, sua primeira matéria de capa - a primeira capa na Época SÃO PAULO, após ter feito uma porção delas na Época Negócios, seu endereço anterior. Por dois meses, testou toda forma de cambismo que conseguiu encontrar. Homens e mulheres, pobres e ricos, velhos ou novos, há de tudo no câmbio negro do entretenimento paulistano. Para a revista, ele conseguiu listar seis tipos diferentes de cambistas, desde o falsificador de ingressos até o que tem "compadres" infiltrados nas empresas que organizam eventos e, de lá, conseguem desviar lotes inteiros de entradas. Rafael também foi à polícia para cobrar explicações: por que não se faz nada para coibir esse mercado, responsável por esgotar mais cedo os ingressos oficiais e inflacionar seu preço? Tudo isso você encontra na revista. E corra para adquirir a sua, antes que elas acabem e você tenha de recorrer a um cambista.

sábado, 5 de março de 2011

O périplo dos melhores hambúrgueres

Descobri uma coisa: sou doido por hambúrguer. Descobri outra coisa: estou completamente por fora do maravilhoso universo hamburguístico paulistano. Foi só pegar a mais recente edição da Época SÃO PAULO e conferir a reportagem de capa - que ajudei a editar - para me dar conta de que, dos 14 estabelecimentos campeões no preparo do sanduíche, eu já havia comido em apenas três. Que-ver-go-nha!


Não esperei nem a revista chegar às bancas para dar início à maratona de estudo de campo. Comigo é assim. Quando percebo que claudico em algum conteúdo relevante para meu desenvolvimento pessoal e profissional, trato logo de buscar conhecimento. No caso, resolvi agendar visitas a algumas das hamburguerias mais famosas (e melhores) da cidade. Em duas semanas, fui a três: o Joakin's, apenas para confirmar a suspeita de que a tradição e o movimento na madrugada independem de uma cozinha nota dez, o 210 Diner e o St. Louis - esses, sim, titulares em qualquer escalação.


Dos 14 salões recomendados por Época SÃO PAULO na referida revista, agora eu já conheço cinco: o Ritz, a Lanchonete da Cidade, a Hamburgueria do Sujinho, o St. Louis e o 210 Diner. Também já fui ao Gardênia e ao Nou, citados na reportagem, embora jamais tenha comido hambúrguer nesses locais. Até o fim de março, pretendo provar os lanches do Rothko - o sanduíche chega à mesa com uma cúpula e envolto em fumaça de churrasco, e leva queijo da Canastra! - e da sofistica Forneria San Paolo - o cheeseburguer é grelhado com cheddar e envolto em massa de pizza, assada no forno a lenha. Vai ficar faltando o Seu Oswaldo, a Hamburgueria Nacional, o P. J. Clarke's... Mas até junho eu liquido todos! Uma coisa eu sei: já devo estar um pouquinho mais gordo do que antes. Ainda bem que minha academia funciona 24 horas.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Uma cidade animal

A capa da revista Época SÃO PAULO deste mês é uma das coisas mais fofas que nós já publicamos. Fiquei cheio de orgulho ao receber elogios e ver alguns exemplares em exibição nas bancas. Soube até que, em muitas delas, a Época veio encartada na Época SÃO PAULO, subvertendo a ordem natural das coisas (para nosso deleite).
A edição também trouxe uma novidade. Em razão de mudanças internas, coube a mim escrever o editorial, que apresenta a revista ao leitor. Tomo a liberdade de reproduzi-lo abaixo. E reafirmar as palavras ali publicadas.

Recentemente, nosso repórter eduardo duarte zanelato chegou irritado à redação. chico, o buldogue francês de sua irmã, havia devorado seu bloquinho, um elegante moleskine. Como um cãozinho pode ser tão cruel? Desde então, Edu não apenas aprendeu a cuidar do filhote na ausência da irmã como passou a dividir apartamento com eles (a irmã e o cão, hoje com 1 ano). Não bastasse, sua namorada, Margarida Telles, também jornalista, assumiu um blog sobre pets em nosso site, o Farejador: Bichos (http://colunas.epocasp.globo.com/farejadorbichos). A experiência só fez aumentar a paixão de Magá por cães. E parece ter contribuído para torná-la ainda mais apegada a Hobbes, seu border collie - raça que ela insiste em chamar de "a mais inteligente do mundo". O nome do animal, aliás, é homenagem a seu filósofo preferido, Thomas Hobbes, o inglês que, em outro contexto, afirmou que o homem é o lobo do homem - e que, até hoje, não sei dizer se tinha um amigo canino.
Quando bebê, Hobbes também mastigou algo valioso de sua dona: um guia de raças. Para Magá, foi a forma que ele encontrou de dizer que dispensava um irmãozinho. Ambos os ataques jamais impediram que os dois jornalistas, autores da reportagem de capa desta edição (pág. 42), estreitassem a cada dia o carinho que têm por seus cães. É esse carinho quase incondicional dos donos por seus animais que explica haver em São Paulo 2,4 milhões de cachorros domésticos - um para cada cinco pessoas - e 4 mil pet shops - número igual ao de padarias. Amor semelhante é o que temos pela cidade. Mesmo quando São Paulo nos obriga a digerir notícias sobre temas dolorosos, como a ameaça de fechamento do Cine Belas Artes (pág. 62) e a escalada da violência na Paulista (pág. 56), é com alegria e vigor redobrados que, com frequência ainda maior, ela insiste em nos fazer festa e abanar o rabinho. Sorte nossa.