Ele tinha 24 anos. Cedo para casar, diziam alguns parentes e amigos.
Mas o amor dizia outra coisa.
Ela tinha 27, dois anos e meio a mais do que ele.
Mas a juventude necessária para rejuvenescê-lo.
Foram quatro anos de namoro até o pedido. Careta, cafona e neófito por completo nas artes do romance e da sedução, ele a levou a um restaurante que nada tinha a ver com os dois para comemorar o quarto aniversário. Cozinha mediterrânea, com mesas redondas e louça trabalhada, repleto de cabeças calvas e brancas (algumas eram as duas coisas simultaneamente). Tirou uma caixinha preta do bolso e ela voltou pra casa, na manhã seguinte, com um anel novo. Mais um ano e meio para conseguir vaga na capela, contratar salão e bufê, encomendar convites, bolo, noivinhos, bem-casados, acertar os detalhes com padre, coral, florista, DJ, luz, gerador, fotógrafo, cinegrafista, hotel para a noite de núpcias, hotel para a lua de mel. Vestido para ela. Costume para ele (a Mari o ajudou a escolher). A gravata foi emprestada. Os sapatos dele ganharam uns três centímetros de salto para não passar vergonha no altar. Tudo tão bonito...
Ela entrou sozinha, decidida, arrastando a barra do vestido pelo corredor. Ainda bem que a nave é pequena na capela São Francisco. Ele caminhou até o meio da nave para buscá-la e caminharem juntos os últimos metros. Marcha nupcial executada ao vivo. Coisa fina. Chico, um dos padrinhos, leu aquele trecho famoso da carta de Paulo aos Coríntios. Ainda que eu falasse línguas, a dos homens e a dos anjos, sem o amor eu não seria nada. O padre fez a outra leitura, sobre a casa que é edificada sobre a pedra. Depois, leu os dez mandamentos do casal - um divertido discurso que instrui os dois a serem compreensíveis: "se alguém tiver de ganhar a discussão, deixe que seja o outro".
Padre Filinto conhecia o noivo havia bom tempo. Nascido em Goa, na Índia, e membro da Congregação de Santa Cruz, morava no mesmo colégio em que o rapaz estudara dos 10 aos 17 anos, e atuava ali como animador espiritual - espécie de palestrante motivacional para as questões do espírito. No dia a dia, trombando com os alunos nos corredores e nos intervalos, costumava segurar os braços dos menos aplicados e meter-lhes um soco no deltóide, esse músculo localizado entre o bíceps e o ombro, onde costuma ficar a marca da vacina BCG. "Tem que estudar", dizia, e perguntava as notas tiradas.
Em seguida, quando o imberbe estudante de 18 anos se aproximou das atividades de pastoral e virou monitor dos encontros de jovens realizados com alunos do ensino médio do antigo colégio, o padre se tornou consultor e parceiro. Padre Filinto foi quem intermediou os quatro sacramentos do moço: o batismo, a primeira comunhão, a crisma e o matrimônio. Confessar-se com ele era uma experiência inusitada de impunidade. O pecador, envergonhado, foi sempre perdoado sem cumprir pena alguma. Nem uma ave-maria sequer. Pode isso, Arnaldo? Tempos de fé e esperança, confirmados nas duas belas capelas do colégio, entre vitrais de Alfredo Volpi. Após o casamento, o noivo doou uma sexta básica e uma série de coisas aos trabalhos de pastoral assessorados por ele. Ao padre, deu duas garrafas de uísque.
Recentemente, soube que Padre Filinto foi afastado das atividades do colégio. Passou um tempo no interior do Paraná, aprendendo a administrar o alcoolismo e a se manter longe dos copos, e mudou-se para o Canadá. Lá, assumiu um cargo burocrático junto à cúpula da congregação, afastando-se da atividade educacional que desempenhou por tantos anos. Hoje, quando os noivos comemoram sete anos de casados, acordei pensando em Padre Filinto. Nunca mais o vi. Talvez sim, uma ou duas vezes após a cerimônia, certamente mais de cinco anos atrás. Pensei nas garrafas de uísque que lhe dei de presente. Pensei nos socos que ele dava nos ombros dos alunos e em como costumava puxar as bochechas das garotas, risonhas e estabanadas em plena adolescência. Gostaria de vê-lo novamente. De tomar uma coca-cola com ele, colocar o papo em dia, conversar um pouquinho sobre os tais desígnios de Deus. Ele os têm, de fato? "Com Deus, não temos de ver para crer, mas crer para ver", ele costumava dizer, para tentar driblar a inquisição implacável dos mais questionadores. Tenho saudade de seu sotaque. Onde estiver, te abraço com a Paz de Cristo.
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domingo, 20 de março de 2011
O noivo, a noiva e o Padre Filinto
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Cabelo branco
"Prepare-se para ganhar muitos fios de cabelo branco".
Foi mais ou menos isto o que disse meu pai quando lhe falei pela primeira vez sobre meus planos de separação, ainda no primeiro semestre. Não disse apenas isto, é claro. Também me contou da dor, da angústia, da sensação de futuro estilhaçado que envolve episódios como esse (pelo menos as duas separações vividas por ele, hoje em seu terceiro casamento). Sugeriu que eu tivesse calma, o máximo que conseguisse, para costurar as decisões de forma serena, sem precipitação. Alertou-me para o sofrimento que viria, independentemente de ser minha a iniciativa: quem deixa, ele lembrou, convive não apenas com a tristeza do fim, mas também com um desconfortável sentimento de culpa e a persistente hipótese de ter cometido um equívoco.
Cheguei a sair de casa naquele mês. Passei uns dias viajando, mas voltei dali a duas semanas, disposto a insistir. Era dia dos namorados. E a difícil conversa de quatro horas mostrou que não caberia a mim encerrar um casamento que ainda não estivesse encerrado. O sal das lágrimas nos lábios unidos, embora trêmulos, indicavam um amor vestigial, aflito como náufrago a lutar contra as ondas, mas ainda vivo.
Menos de quatro meses depois, saí novamente de casa, agora para valer.
Não sei explicar o que me motivou a escrever sobre isso em meu último post do ano. Talvez o fato de não ter mencionado esse assunto antes, o que torna minha separação uma novidade para muitos. Talvez porque me separar tenha sido, entre todas as coisas, a mais representativa de 2009, sem dúvida o ano mais difícil da minha vida. Talvez porque, daqui a algumas horas, eu passarei meu primeiro reveillon sem a Aline após dez anos inaugurados em sua companhia. Namoramos ao longo de onze anos e, salvo engano, o único reveillon que estivemos separados foi o primeiro, de 1998 para 1999, quando ela estava em Londres e eu, na Ilha de Marajó (PA). Talvez, tenha escolhido escrever sobre isso porque o maior dos pedidos que farei ao romper 2010, com minha carapinha embranquecida, é para que sejamos muito felizes nessa nova etapa, com coragem para trilhar novos caminhos, coerência para transformar desejos em realizações e, por que não, humildade para voltarmos atrás e corrigirmos o manche se necessário.

Aline e eu nos casamos em março de 2004, após cinco anos e meio de namoro. Quem foi à cerimônia conta que estávamos radiantes, leves, sorrindo o tempo todo, sem nada da tensão que, muitas vezes, deixa os casais duros e apreensivos.
Sorríamos, e parecíamos fluir em consonância com a cerimônia. Minha irmazinha Amanda, com quatro anos, cismou com um violinista que ficou plantado à porta da capela e teve de ser rebocada por Helena, a outra daminha de honra, no trajeto até o altar. Padre Filinto, amigo de longa data, conquistou a plateia ao ler os dez mandamentos do casal, com coisas como "os dois nunca devem irritar-se ao mesmo tempo" e "se alguém deve ganhar a discussão, deixe que seja o outro". Chico, padrinho do noivo, leu o que o Apóstolo Paulo escreveu em carta enviada aos coríntios, possivelmente a maior verdade registrada por ele: sem o amor eu não seria nada. Entramos na festa ao som de "I say a little prayer" e trocamos a valsa por uma música de dançar coladinho (Aline certamente vai lembrar que música era), perfeita para inaugurar a pista. Passamos o resto da noite no Hilton e seguimos para Paraty na tarde seguinte.
Quando começamos a namorar, cinco anos antes, cursávamos o segundo ano da faculdade - eu, de jornalismo; ela, de arquitetura. Numa cidade (universitária) com milhares de alunos, fomos nos conhecer em um grupo de teatro que acabava de ser montado. Cartazes impressos em papel A4 foram espalhados pela USP com o intuito de convocar aspirantes a ator, com ou sem experiência, e lá fomos nós, estranhos um ao outro. Eram mais de trinta atores nos primeiros ensaios. Sobraram sete ou oito, incluindo o futuro casal. Fui reparar na Aline durante os ensaios da segunda peça que montamos, na qual ela vestia uma camisola preta e modelava os cílios com um curvex. Eu jamais tinha visto aquele instrumento e fiquei impressionado ao vê-la, no camarim, preparando-se para entrar em cena. Eu tinha 18 anos, era imberbe e me sentia um menino. Aos 21, ela era um mulherão.
Amei muito esse mulherão. Aline foi minha primeira mulher, na concepção civil e também na concepção sexual do termo, e uma enorme referência para que eu pudesse me tornar o homem que eu me tornei. Recentemente, ao contar da separação para uma pessoa, ouvi a seguinte pergunta: "Por que não deu certo?" Devo ter ficado quieto durante um minuto. Não tanto porque não tenho resposta, mas principalmente porque me pareceu haver algo de errado na questão. "Mas deu certo", foi o que respondi. Deu muito certo por dez anos, certamente os melhores dos trinta que vivi até hoje. O chato, nessa história, é saber (ou desconfiar) que os próximos dez seriam muito diferentes dos dez que se passaram. E se não fomos capazes de preservar a alegria, o fascínio, o encantamento e a paixão, espero saber preservar as melhores lembranças. Foi Drummond quem escreveu, no poema Memória, do livro Claro Enigma, de 1951:
Foi mais ou menos isto o que disse meu pai quando lhe falei pela primeira vez sobre meus planos de separação, ainda no primeiro semestre. Não disse apenas isto, é claro. Também me contou da dor, da angústia, da sensação de futuro estilhaçado que envolve episódios como esse (pelo menos as duas separações vividas por ele, hoje em seu terceiro casamento). Sugeriu que eu tivesse calma, o máximo que conseguisse, para costurar as decisões de forma serena, sem precipitação. Alertou-me para o sofrimento que viria, independentemente de ser minha a iniciativa: quem deixa, ele lembrou, convive não apenas com a tristeza do fim, mas também com um desconfortável sentimento de culpa e a persistente hipótese de ter cometido um equívoco.
Cheguei a sair de casa naquele mês. Passei uns dias viajando, mas voltei dali a duas semanas, disposto a insistir. Era dia dos namorados. E a difícil conversa de quatro horas mostrou que não caberia a mim encerrar um casamento que ainda não estivesse encerrado. O sal das lágrimas nos lábios unidos, embora trêmulos, indicavam um amor vestigial, aflito como náufrago a lutar contra as ondas, mas ainda vivo.
Menos de quatro meses depois, saí novamente de casa, agora para valer.
Não sei explicar o que me motivou a escrever sobre isso em meu último post do ano. Talvez o fato de não ter mencionado esse assunto antes, o que torna minha separação uma novidade para muitos. Talvez porque me separar tenha sido, entre todas as coisas, a mais representativa de 2009, sem dúvida o ano mais difícil da minha vida. Talvez porque, daqui a algumas horas, eu passarei meu primeiro reveillon sem a Aline após dez anos inaugurados em sua companhia. Namoramos ao longo de onze anos e, salvo engano, o único reveillon que estivemos separados foi o primeiro, de 1998 para 1999, quando ela estava em Londres e eu, na Ilha de Marajó (PA). Talvez, tenha escolhido escrever sobre isso porque o maior dos pedidos que farei ao romper 2010, com minha carapinha embranquecida, é para que sejamos muito felizes nessa nova etapa, com coragem para trilhar novos caminhos, coerência para transformar desejos em realizações e, por que não, humildade para voltarmos atrás e corrigirmos o manche se necessário.

Aline e eu nos casamos em março de 2004, após cinco anos e meio de namoro. Quem foi à cerimônia conta que estávamos radiantes, leves, sorrindo o tempo todo, sem nada da tensão que, muitas vezes, deixa os casais duros e apreensivos.
Sorríamos, e parecíamos fluir em consonância com a cerimônia. Minha irmazinha Amanda, com quatro anos, cismou com um violinista que ficou plantado à porta da capela e teve de ser rebocada por Helena, a outra daminha de honra, no trajeto até o altar. Padre Filinto, amigo de longa data, conquistou a plateia ao ler os dez mandamentos do casal, com coisas como "os dois nunca devem irritar-se ao mesmo tempo" e "se alguém deve ganhar a discussão, deixe que seja o outro". Chico, padrinho do noivo, leu o que o Apóstolo Paulo escreveu em carta enviada aos coríntios, possivelmente a maior verdade registrada por ele: sem o amor eu não seria nada. Entramos na festa ao som de "I say a little prayer" e trocamos a valsa por uma música de dançar coladinho (Aline certamente vai lembrar que música era), perfeita para inaugurar a pista. Passamos o resto da noite no Hilton e seguimos para Paraty na tarde seguinte.
Quando começamos a namorar, cinco anos antes, cursávamos o segundo ano da faculdade - eu, de jornalismo; ela, de arquitetura. Numa cidade (universitária) com milhares de alunos, fomos nos conhecer em um grupo de teatro que acabava de ser montado. Cartazes impressos em papel A4 foram espalhados pela USP com o intuito de convocar aspirantes a ator, com ou sem experiência, e lá fomos nós, estranhos um ao outro. Eram mais de trinta atores nos primeiros ensaios. Sobraram sete ou oito, incluindo o futuro casal. Fui reparar na Aline durante os ensaios da segunda peça que montamos, na qual ela vestia uma camisola preta e modelava os cílios com um curvex. Eu jamais tinha visto aquele instrumento e fiquei impressionado ao vê-la, no camarim, preparando-se para entrar em cena. Eu tinha 18 anos, era imberbe e me sentia um menino. Aos 21, ela era um mulherão.
Amei muito esse mulherão. Aline foi minha primeira mulher, na concepção civil e também na concepção sexual do termo, e uma enorme referência para que eu pudesse me tornar o homem que eu me tornei. Recentemente, ao contar da separação para uma pessoa, ouvi a seguinte pergunta: "Por que não deu certo?" Devo ter ficado quieto durante um minuto. Não tanto porque não tenho resposta, mas principalmente porque me pareceu haver algo de errado na questão. "Mas deu certo", foi o que respondi. Deu muito certo por dez anos, certamente os melhores dos trinta que vivi até hoje. O chato, nessa história, é saber (ou desconfiar) que os próximos dez seriam muito diferentes dos dez que se passaram. E se não fomos capazes de preservar a alegria, o fascínio, o encantamento e a paixão, espero saber preservar as melhores lembranças. Foi Drummond quem escreveu, no poema Memória, do livro Claro Enigma, de 1951:
As coisas tangíveis,A propósito, ontem, ao me olhar no espelho depois do banho, notei dois cabelos brancos em meu peito. Eu já havia me acostumado à profusão de fios grisalhos na cabeça e até me conformara com as alvas pinceladas na barba. Mas, no peito? Já é demais. Alcancei uma pinça na gaveta, mirei bem o maior dos cabelos, aproximei a ferramenta com cuidado, agarrei o maldito... e desisti de puxar. Deixa os cabelos brancos aí. Se eles de fato significam algo além do galopar da idade e da subsequente redução na taxa de melanina, que fiquem aqui comigo, como tatuagens, a testemunhar os altos e baixos da minha própria história.
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
domingo, 2 de agosto de 2009
À Deriva
Fui assistir ao filme do Heitor Dhalia. Saí da sala encantado com a atuação de Laura Neiva. Em seu primeiro papel no cinema, a jovem interpreta a protagonista Filipa, uma garota de 14 anos que, em férias na praia, descobre que seu pai tem uma amante. Testemunha da iminente separação de seus pais - envoltos em uma crise conjugal sem intervalos nem perspectivas -, a menina se convence de que o motivo do distanciamento entre os dois é a tal namorada (só pode ser, não há outra explicação!) e, com a intensidade característica da adolescência, prontifica-se a fazer o possível para salvar o casamento.

As ondas do mar de Búzios conduzem o rito de passagem de Filipa. Aos 14 anos, à deriva como sugere o título, a garota conhece não apenas o amor, o ciúme e o sexo (apresentados a ela não necessariamente pelo mesmo parceiro), mas todo um arsenal de sensações e armadilhas que um casamento (um coração?) é capaz de encerrar. Através do olhar de Filipa, o espectador entende que o "motivo" do distanciamento entre pai e mãe não é aquele que supunha, até porque um casal não precisa de "motivos" para se distanciar. Através do olhar de Filipa, o espectador descobre que não há culpados e vítimas no instável jogo das paixões. Não há bandidos e mocinhos. Tampouco vencedores e vencidos. Através do olhar de Filipa, o espectador aprende que amor é brincadeira de adultos. E mesmo os adultos costumam se queimar...
Fui assistir ao filme do Heitor Dhalia sem saber exatamente qual a trama. Confesso ter ficado um pouco constrangido quando me dei conta do tema. Casado há cinco anos, experimentei recentemente minha primeira grande crise conjugal - e ainda tenho agido, às vezes, como quem pisa de leve para testar a segurança do terreno antes de transferir o peso e concluir o passo. Convidar Aline para ver um filme sobre a agonia de um casamento certamente não foi a atitude mais prudente que eu poderia ter tomado numa noite de sábado. Mas é na imprudência que reside o fascínio do autêntico, do visceral, do inesperado. Em alguns momentos, durante a sessão, nossos olhares se cruzaram como se dissessem um ao outro: "tá tudo bem aí?", "sim, tudo certo, não se preocupe". Permanecemos na sala até subirem os créditos, o que pode ser interpretado como uma espécie de vitória. E, para ser sincero, fazia tempo que não nos abraçávamos com tanta força durante a exibição de um filme. Bom sinal. Embora, para mim, o amor continue sendo brincadeira de adultos.

As ondas do mar de Búzios conduzem o rito de passagem de Filipa. Aos 14 anos, à deriva como sugere o título, a garota conhece não apenas o amor, o ciúme e o sexo (apresentados a ela não necessariamente pelo mesmo parceiro), mas todo um arsenal de sensações e armadilhas que um casamento (um coração?) é capaz de encerrar. Através do olhar de Filipa, o espectador entende que o "motivo" do distanciamento entre pai e mãe não é aquele que supunha, até porque um casal não precisa de "motivos" para se distanciar. Através do olhar de Filipa, o espectador descobre que não há culpados e vítimas no instável jogo das paixões. Não há bandidos e mocinhos. Tampouco vencedores e vencidos. Através do olhar de Filipa, o espectador aprende que amor é brincadeira de adultos. E mesmo os adultos costumam se queimar...
Fui assistir ao filme do Heitor Dhalia sem saber exatamente qual a trama. Confesso ter ficado um pouco constrangido quando me dei conta do tema. Casado há cinco anos, experimentei recentemente minha primeira grande crise conjugal - e ainda tenho agido, às vezes, como quem pisa de leve para testar a segurança do terreno antes de transferir o peso e concluir o passo. Convidar Aline para ver um filme sobre a agonia de um casamento certamente não foi a atitude mais prudente que eu poderia ter tomado numa noite de sábado. Mas é na imprudência que reside o fascínio do autêntico, do visceral, do inesperado. Em alguns momentos, durante a sessão, nossos olhares se cruzaram como se dissessem um ao outro: "tá tudo bem aí?", "sim, tudo certo, não se preocupe". Permanecemos na sala até subirem os créditos, o que pode ser interpretado como uma espécie de vitória. E, para ser sincero, fazia tempo que não nos abraçávamos com tanta força durante a exibição de um filme. Bom sinal. Embora, para mim, o amor continue sendo brincadeira de adultos.
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