sábado, 22 de outubro de 2011

Quando ele me chamar de pai

Vou virar a noite
Preparar seu leite
Quando ele me chamar de pai
Vigiar seu sono
Espantar seus medos
Quando ele me chamar de pai


Vou sair de bike
Vou gostar de Mickey
Quando ele me chamar de pai
Acordar bem cedo
Levantar sorrindo
Quando ele me chamar de pai


Quando ele me chamar de pai
Serei refém da sua voz
Meus braços terão seus cheiros
Meus versos dirão por nós
Histórias de cavaleiros
Piratas e samurais
Amigos pra toda a vida
Quando ele disser "papai"


Vou comprar chicletes
Vou tomar sorvetes
Quando ele me chamar de pai
Vou buscar na escola
Carregar no colo
Quando ele me chamar de pai


Caminhar na praia
Ajustar as boias
Quando ele me chamar de pai
Imitar os bichos
Espalhar meus beijos.
Quando ele me chamar de pai


Quando ele me chamar de pai
Serei refém da sua voz
Meus braço terão seu cheiro
Meus versos dirão por nós
Histórias de cavaleiros
Piratas e Samurais
Amigos pra toda a vida
Quando ele disser "papai".



domingo, 9 de outubro de 2011

Tempo de espanar as prateleiras

Esse é o nome do show a que assisti ontem, na Casa de Francisca.
É também um verso de uma das canções incluídas no repertório, composta com o parceiro Vicente Falek e cantada por Ilana Volcov.

"(...) Tempo de espanar as prateleiras
Tempo de trocar as fechaduras
Tempo de podar as trepadeiras
Tempo de dobrar as partituras (...)" 

Letrista bissexto, tive pela primeira vez a deliciosa sensação de ouvir minhas próprias composições interpretadas num palco. E não em qualquer palco, mas no charmoso (embora apertado) palco da Casa de Francisca, um dos melhores endereços de música ao vivo de São Paulo.

"Tempo de espanar as prateleiras", na Casa de Francisca

Foram 12 canções, em pouco mais de uma hora. Doze canções compostas nos últimos três anos com o amigo Vicente. Foi em abril de 2008 que nos reencontramos, após mais de dez anos, num improvável karaokê na Liberdade. Um grupo de amigos seguira para lá após a festa de lançamento da revista em que trabalho - e Vicente sentou à mesa ao lado. Treze anos antes, em 1995, tocávamos juntos em uma banda chamada Raiz Forte. Chico, Karina, Vicente e eu, tínhamos todos entre 15 e 17 anos de idade na ocasião, e fizemos não mais do que três ou quatro apresentações, em locais como o extinto Vou Vivendo, na Avenida Pedroso de Morais, e a Cultura Inglesa de Pinheiros, onde foi (mal) feita a foto abaixo, um dos raros registros que tenho daqueles tempos. Vicente é o cara com o baixo, junto ao microfone. Eu estou escondido na bateria.

Chico, Karina, Vicente e eu em show na Cultura Inglesa (1995)

Nossa primeira composição foi feita naquela época, com os outros dois membros da banda, e versos um tanto constrangedores:

"(...) Em cada esquina 
uma menina 
vendendo a flor da juventude 
vendendo o corpo sem saúde (...)". 

De lá para cá, graças ao bom Deus, minhas letras melhoraram um pouquinho. E a música do Vicente também. Nós também nos tornamos pessoas melhores, acredito. E, esteticamente, uma mudança fundamental aconteceu: as barbas cresceram e os cabelos encolheram.

Vicente em 1995 

Eu em 1995

Quando nos encontramos, em 2008, no tal karaokê, Vicente me contou que havia se profissionalizado. Agora, fazia trilhas e arranjos instrumentais, trabalhava como produtor, e, multinstrumentista, tocava piano, acordeão e baixo em grupos de jazz (e tango!) ou como frila, em gravações de álbuns de diferentes estilos. Também dava aula de piano e musicalização. E tinha interesse em começar a experimentar um repertório de canções. Alguns meses depois, lhe enviei por e-mail uma letra. Semanas depois, chegou um e-mail dele com um arquivo em mp3. "Delicadeza" estava quase pronta, já arranjada, faltando apenas os versos para preencher o refrão que ele havia criado:

"(...) De que é feito o amor?
De onde vem, e quando?
Como nasce? Quem o faz vingar?
Pra que serve? Onde vai parar?
Vem do gesto de quem ama.
Vem, o amor, do afã de quem se dá.
Desarruma nossa cama,
Põe a vida de pernas pro ar (...)"

Inaugurávamos, assim, a segunda fase da nossa parceria.

Para o show de ontem, Vicente montou a banda meio às pressas, daí a presença inevitável de partituras pelo palco. Tarefa difícil é decorar tanta música em menos de um mês. "Ela roi as unhas", "Pas de deux", "Ausência", "Quando ele me chamar de pai", "Pode entrar"... A mim, sabidamente uma pessoa ranzinza e metódica, caxias em quase tudo que faço, o resultado foi além do esperado. É claro que saí com ideias para um e outro reparos: ajustar a letra de "Nas mãos da malabarista", sugerir modificações no arranjo de "32". Fora isso, meu maior desejo é de que Vicente convença os músicos a registrar esse repertório em estúdio.

A Fábio Barros, Igor Pimenta, Ilana Volcov e Sonia Goussinski, meu mais profundo agradecimento. E, precisando de uma letra, estamos aí!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Mestre Pedro

Hoje tem missa de sétimo dia em homenagem a Pedro Bilatto, meu professor de literatura do terceiro ano. O que se segue é um pequeno texto que escrevi ao saber de sua morte. Fica como um rápido registro da minha admiração e do meu agradecimento.

     Quando o conheci, logo reparei que havia um curativo branco, um esparadrapo infalível a espiar por entre os últimos botões da camisa. Em si, aquele último resquício de infarto significava muito pouco – mas ganhava outra dimensão a cada cigarro acendido, entre uma aula e outra. Para mim, um moleque de 16 anos, o gesto de ainda fumar assumia menos o caráter displicente de quem desobedece o médico e mais a opção pelo prazer comezinho, pela liberdade cotidiana, pela sabedoria imensa de quem descobre o direito de não precisar dar o exemplo sempre – nem ser referência em tudo. Pedro era assim nas aulas, nas conversas de corredor, no trajeto de ônibus de volta para casa. Respostas lacônicas para perguntas insolentes. Ironia e sagacidade. Habilidade ímpar na arte de mostrar aos alunos que, seja qual for o perrengue da vez, há coisas mais importantes na vida com as quais se preocupar.

     Lembro que Pedro havia voltado à universidade e se formado em Direito pouco antes, naquele início dos anos 1990. Em vão: ensinar literatura era mais forte do que qualquer pretensão de advogar. Literatura, quando agarra na gente, é crime que não prescreve. E foi assim, nessa fase pós-Direito e pós-infarto, que tive a oportunidade de conhecê-lo. A mim, ensinou-me a gostar de Machado – o Bruxo do Cosme Velho, como gostava de repetir, adotando o apelido consagrado por Drummond. A mesma ironia, o mesmo ar lacônico e o mesmo olhar de cronista empunhados pelo autor de Dom Casmurro, pronto a esculhambar ritos e convenções, eu encontrava na prosa encantada (e encantadora) do mestre. Provavelmente pela semelhança de estilos, era Machado seu autor preferido, quando o meu continuava a ser Guimarães Rosa.

     Ensinou-me, também, que uma aula dedicada à troca de reminiscências e impressões, à conversa descompromissada, ao papo fugidio, pode ser muito mais educativa do que uma aula repleta de conteúdo, daquela espécie exigida nos vestibulares e prevista nos parâmetros curriculares cimentados em Brasília. Agradeço por ter aprendido isso no momento certo. Pedro, à sua maneira, contribuiu para que eu me tornasse um aluno – e, mais tarde, um jornalista – menos chato. Sem a experiência de ouvi-lo, e de aprender com ele, eu provavelmente não teria, hoje, o mesmo prazer pela escrita e pela leitura. Outros usufruíram da mesma herança. Órfão de filhos, como Brás Cubas, foi a muitos que Pedro transmitiu seu legado – o que só faz aumentar seu saldo ao chegar, sem a celebridade de nenhum emplastro, a “este outro lado do mistério”.

domingo, 14 de agosto de 2011

Dia dos pais, o primeiro de muitos

Hoje ele me acordou logo cedo. Ainda não foi dessa vez que ele pulou na minha cama trazendo um desenho nem se pendurou no meu braço dizendo "pai, acorda... levanta, paiê...". Mas ele estava lá, serelepe, dando cambalhotas no barrigão da Aline. Eram 7h30 - e eu saquei, imediatamente, que era a mim que ele queria. Através da pele, através do carinho que temos um pelo outro, pai e filho, trocamos um longo abraço. E nos beijamos, pai e filho, meio por vocação, meio por telepatia. Coisas que o amor explica melhor do que as palavras.


A atual edição da revista Crescer traz um texto meu, intitulado "Pai em Construção". Nele, transito entre as fantasias e as tensões, as delícias e as descobertas dessa fase gostosa e (inevitavelmente) apreensiva que estamos vivendo aqui em casa. Aline, Daniel e eu fomos fotografados pelo Rodrigo Schmidt. A imagem acima é uma das fotos que ilustram a matéria. A íntegra já está na internet. Para ler, basta clicar aqui. Ou dar um pulo na banca até o final de agosto. Reproduzo um trechinho:

Coisa boba é pai. Leva um chute e fica todo pimpão, esperando um replay. “Chuta o papai, chuta.” Papai. Engraçado, isso. Mudar de nome de uma hora para outra, aos 31 anos. Em casa, na escola ou no trabalho, já fui chamado por diferentes apelidos. Também respondo quando me chamam de Filho – embora apenas duas pessoas tenham o hábito de me chamar assim. Dá uma sensação boa, de conforto e segurança, ser chamado de Filho. Mas pai? Pai dá um baita medo. Enche a gente de orgulho – “Fui eu que fiz” – mas, ao mesmo tempo, traz um monte de preocupações. Será uma criança saudável? O dinheiro será suficiente? Vou saber educar? É verdade que muito pouco se diz sobre os pais. Raramente alguém se interessa em saber como é a gestação do NOSSO ponto de vista. Todo mundo só quer saber da mãe: como ela está? Depois do parto, o centro das atenções será o bebê: tudo bem com ele? Chegam mesmo a dizer que o papel do homem termina no momento da concepção. Bobagem. A melhor gravidez é aquela que se vive a dois. A três, para ser exato. A quatro (se forem gêmeos), e assim por diante.
 

terça-feira, 12 de julho de 2011

100 anos de esplendor

Em 12 de setembro de 1911, o Theatro Municipal de São Paulo abria as portas para seu primeiro espetáculo - com um dia de atraso e o primeiro engarrafamento da história da cidade
Publicado na edição de julho da Revista Época SÃO PAULO

SINAL DE PROGRESSO Dos 300 carros que havia 
na cidade, 100 foram à abertura. O trânsito parou
do Viaduto do Chá à Rua Xavier de Toledo


1º ATO
A novidade mereceu três páginas na edição do jornal O Estado de S. Paulo daquela terça-feira, 12 de setembro de 1911. Parágrafos solenes, ricamente floreados, anunciavam o evento.
“A inauguração do Theatro Municipal é justo motivo de júbilo para os paulistas”, dizia o texto. “Os que amam a arte enxergam, e bem, no acontecimento de hoje uma bella prova de quanto temos progredido e uma fulgurante promessa de mais rápidos e mais assignalados progressos: effeito do avanço já relativamente notável que conseguimos realisar (sic), o grande theatro da cidade reagirá por sua vez, e de mais em mais, sobre o espírito da população, accelerando a obra civilisadora (sic) de que elle próprio representa um dos doirados frutos.”
A cidade tinha 400 mil habitantes, população igual à do distrito de Pirituba em 2011. Carecia, no entanto, de uma sala apta a receber as mais importantes companhias líricas do mundo – ou seja, da Europa. O anúncio da construção entusiasmava a elite ilustrada, em luto desde 1898, quando um incêndio destruiu o Teatro São José, na Praça João Mendes. É verdade que outro edifício foi erguido para se tornar o novo São José, em 1909, onde hoje está o Shopping Center Light. Também é verdade que havia o Teatro Colombo, no Largo da Concórdia, e o Sant’Anna, na Rua Boa Vista. Mas, diante dos anseios de quem já havia desfilado seu chique em camarotes da Itália e França, tais palcos pouco alento traziam. Era preciso mais para estar à altura dos potenciais da cidade cada vez mais moderna, industrial e cosmopolita.
A inspiração, para dizer o mínimo, foi a Opera de Paris, hoje Opera Garnier. O projeto foi encomendado ao arquiteto Ramos de Azevedo. Operários italianos arregaçaram as mangas – e fizeram ao menos uma greve por melhores salários. Previstas para ser concluídas em dois anos, as obras demoraram oito. Vitrais vieram de Stuttgart, mosaicos chegaram de Veneza, mármore foi trazido de Florença, ornamentos de Milão e Paris. Quando pronto, o teatro foi saudado com pompa. “O imponente edifício monumental do morro do chá”, dizia o veterano jornal, “não faria má figura em qualquer das mais cultas cidades da Europa.” E mais: “Iniciado o funcionamento, uma pequena revolução se fará nos hábitos da sociedade paulistana”.

ANDAIME DESAFINADO Os italianos eram  
maioria entre os operários do teatro. Previstas 
para durar dois anos, as obras levaram oito

2º ATO
A inauguração deveria ter acontecido na véspera. A data do dia 11 aparece em cartazes e anúncios. No entanto, nem tudo transcorreu como o previsto. A primeira confusão se deu em relação ao espetáculo de estreia. A comissão encarregada de elaborar a programação da primeira temporada, nomeada pelo prefeito Raymundo Duprat, decidiu-se pela ópera Hamlet, adaptação da obra de Shakespeare pelo francês Ambroise Thomas. Jornais chiaram, vereadores protestaram. Onde já se viu inaugurar nosso maior teatro com um folheto francês baseado num livro inglês? Uma afronta à soberania nacional! Por que não O guarani, de Carlos Gomes? Para driblar a saia-justa, ficou acertado que o espetáculo inaugural seria precedido por trechos instrumentais da mais famosa ópera brasileira. E não se fala mais nisso.
A montagem caberia à Companhia Italiana Titta Ruffo, liderada pelo barítono de mesmo nome. A trupe estava em turnê pela Argentina e, sabe como é… Baixo orçamento é o maior estímulo da sagacidade. Além disso, naquela época não havia exigência de licitação. “A estreia com Hamlet, em 1911, foi um acaso, não uma escolha”, afirma Abel Rocha, diretor artístico do Municipal desde fevereiro. “Naquela época, companhias estrangeiras vinham à América do Sul com toda a produção, incluindo solistas, orquestras e cenários, e traziam diversos títulos, que eram apresentados alternadamente nos teatros pelos quais passavam.”
Para a temporada de inauguração, a companhia exibiria Hamlet e outras nove óperas, entre as quais, O barbeiro de Sevilha e Madame Butterfly. O contrato foi firmado e logo os pertences do grupo embarcaram rumo ao Porto de Santos. Ainda não havia aeroportos por aqui. Nem caos aéreo. Mesmo assim, cenários e figurinos – a essa altura tão aguardados quanto seria a taça Jules Rimet ao final da Copa do Mundo de 1970 – não chegaram a tempo. O espetáculo, com todos os ingressos vendidos, teve de ser adiado para a noite seguinte.
3º ATO
Os arredores do teatro ficaram intransitáveis no início da noite de 12 de setembro. O tráfego, quando fluía, era como se não avançasse: pianíssimo. Dos cerca de 300 automóveis que compunham a frota paulistana, mais de 100 se dirigiram ao local. Num evento de gala como aquele, quem perderia a chance de comparecer a bordo de um símbolo de status como o automóvel? Isso sem contar as centenas de espectadores que foram a pé ou de carruagem – sim, elas eram o meio de transporte habitual dos grã-finos não tão grã-finos.
A crônica elegeu a ocasião como o primeiro grande engarrafamento da cidade. Segundo publicado na semana, um delegado intercedeu junto à direção do teatro e exigiu que a entrada fosse feita por mais portas. “Com essa medida, a chegada das carruagens será mais rápida, sem os inconvenientes da interrupção de trânsito nas imediações”, dizia a nota. “Haverá proibição da passagem de carros pela Rua Barão de Itapetininga, sendo destinada a Rua 24 de Maio para a entrada dos veículos procedentes da Vila Buarque, Santa Cecília, etc.”
No palco, 70 instrumentistas, 56 coristas e 16 bailarinas eram conferidos de perto pelas 1.816 pessoas que lotavam a sala. Não se falou em outra coisa nos salões de chá ao longo da semana. Todos queriam saber sobre o novo endereço, suprassumo do refinamento. Nunca mais se veriam tantos chapéus e fraques na praça.
O Theatro Municipal firmou sua vocação lírica nos anos seguintes. Enrico Caruso e Maria Callas cantaram ali. Isadora Duncan e Anna Pavlova bailaram. Versátil, o teatro serviu a diferentes funções e, ainda na década de 1910, foi convertido em salão de baile. Em 1922, seu saguão foi tomado por arruaceiros como Menotti Del Picchia e Oswald de Andrade, líderes da Semana de Arte Moderna. Em 1936, Mário de Andrade foi nomeado diretor do recém-criado Departamento de Cultura, precursor da secretaria municipal, passando a chefiar as atividades no Municipal. Reformado entre 1952 e 1955, quando colunas foram suprimidas e as poltronas foram estofadas, o teatro foi tombado, em 1981, pelo Condephaat, órgão estadual do patrimônio, e passou por uma nova intervenção no final dos anos 1980. No início do século XXI, clamava por obras de restauro.
4º ATO
Maldito arenito! Absorve umidade e dissolve-se por dentro, virando areia a partir do miolo, até comprometer todo o bloco. Que ideia ir buscar arenito em Sorocaba! Cem anos depois, foi preciso usar a mesma matéria-prima, da mesma mina, para reformar a fachada. E para quê? Para daqui a 20 anos a estrutura acusar novamente a passagem do tempo e pedir novos reparos – como costuma acontecer com o asfalto usado nas ruas da metrópole. Não havia material melhor naquela época, Ramos de Azevedo? Não dava para fazer com pedra ou tijolo?
Em três anos de restauro, a substituição de porções de arenito da fachada foi apenas uma das muitas tarefas executadas. Arquiteta do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), responsável pelas obras, Rafaela Bernardes acha graça quando alguém se surpreende ao saber que todas as 1.533 poltronas foram numeradas antes de ir para a oficina. “E os 14.262 pedaços de vitrais,  também etiquetados?”, diz ela, comparando. Hoje, ao acompanhar jornalistas em visita ao teatro, ela esboça o sorriso merecido de quem pode, enfim, admirar as novas cores do piso, das paredes, dos detalhes.
“A sala de espetáculos voltou a ser cor-de-rosa, como era até 1990”, afirma Rafaela. “Conseguimos eliminar 90% do rangido do assoalho da plateia e recuperamos as pinturas murais, tanto do salão nobre quanto do espaço que chamamos de restaurante, agora com projeto decorativo dos irmãos Campana.” Também foram comprados novos equipamentos para o palco, capacitando a casa a receber grandes produções, incompatíveis com a tecnologia anterior.
De tempos em tempos, o sorriso de Rafaela some e as sobrancelhas se elevam. Nessas horas, é sinal de algo que somente ela percebe – uma sujeira no vidro, um rodapé descascado. Dias antes da reinauguração, em junho, Rafaela se transformou em tocadora de pombos. A cada aterrissagem, a arquiteta acusa o golpe, intenso demais para quem dedicou três anos à tarefa de preservar beirais, capitéis e esquadrias. É preciso correr, gritar, espernear. Xô, pássaro imundo! Vá fazer porcaria do lado de lá do Anhangabaú! Rafaela, em breve, sairá de férias. Os pombos, ora, eles nunca descansam.
5º ATO
O teatro foi reinaugurado no último dia 12 de junho, com apresentações da Orquestra Sinfônica Municipal, do Coral Lírico e do Quarteto de Cordas da Cidade. Poucos eram os fraques e chapéus na ocasião. Hoje, dizem, a intenção é democratizar o acesso à arte, embora a vocação do teatro permaneça a mesma. “É a casa lírica da cidade, concebida para apresentar, principalmente, óperas e balés com orquestra”, diz o secretário municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil. Em 12 de setembro, o centenário do Municipal será celebrado com uma montagem de Rigoletto, de Verdi, com concepção original de Felipe Hirsch e cenários de Daniela Thomas. Para os próximos anos, está prevista a construção de um edifício-garagem na esquina da Rua 24 de Maio com a Rua Conselheiro Crispiniano. Enquanto ele não fica pronto, a dica é ir de ônibus ou metrô. Até porque uma das poucas coisas que não mudaram desde a inauguração, um século atrás, é o trânsito ao redor da sala.

domingo, 19 de junho de 2011

Chute

Ele me chutou. Sim, ele me chutou!


Ou será que foi um empurrão, uma espreguiçada, um alongamento?

domingo, 29 de maio de 2011

Shopping days...

Semana de compras em Miami. Não, isso não é uma pegadinha.
Embarco nesta segunda-feira para a capital dos malls - e das "celebreties", e dos porto-riquenhos, e dos cubanos desertores - com duas malas vazias, para voltar com quatro cheias.
Motivo da viagem? Fazer o enxoval do meu querido Daniel.
Ah, sim, o camilinho vai se chamar Daniel - Daniel Gurgel Vannuchi.
E, pelo visto, será devidamente embalado em roupinhas yankees.


Tá vendo essa foto aí em cima? É do Sawgrass Mills, um shopping de outlets de Miami. Será, provavelmente, nossa primeira parada. Quando Aline me falou que ele tinha 300 lojas, não dei bola. Mas, ao ver esta foto na internet minutos atrás, quase caí da cadeira. Deus-do-céu. Será mesmo que vou sobreviver a essa jornada de compras? Logo eu, que não tenho paciência para passear em shoppings e quero resolver tudo logo na primeira loja?


A segunda parada, pelo que entendi, será numa loja chamada Babies "R" Us, onde deveremos comprar carrinhos, moisés (bebê-conforto é a mesma coisa ou tem diferença?), cadeirinha para andar no carro e outros equipamentos do gênero. É incrível como criança precisa de tranqueira!


Mas, cá entre nós, o que eu quero mesmo é encontrar umas camisetas de bebê com foto do Sex Pistols, do Ramones...  quem sabe até uma do Bob Marley? Kaya now, got to have kaya now...

Na volta, eu conto como foi.

domingo, 22 de maio de 2011

Um camilinho!

Vai ser um menino.
Não vai se chamar Camilo, como o pai.
Mas pode chamar o pai quando quiser.
Irei correndo.
Para vê-lo e abraçá-lo.
Sempre e sempre.

O blogueiro aos 3 anos

Não vai se chamar Camilo.
Mas, de tanto me dizerem, na última semana, que será "um camilinho", passei a imaginá-lo meigo e franzino, calmo e curioso, sorriso estampado no rosto e olhos arregalados.
Um menino como eu fui.

Seu nome?
Meu Filho.

sábado, 14 de maio de 2011

A volta do médico-monstro

A reportagem de capa da edição de hoje da Revista Época calou fundo dentro de mim. Estou até agora engasgado com o café da manhã. Fazendo um rápido resumo, a revista revela, com base em depoimentos prestados à polícia e ao ministério público, que casais assistidos pelo médico Roger Abdelmassih descobriram que as crianças geradas por eles não são seus filhos biológicos. Em outras palavras, desembolsaram fortunas para dar à luz bebês que, no mínimo, foram concebidos in vitro com óvulos e/ou espermatozóides alheios, reeditando a barriga de aluguel. E sem o consentimento dos "doadores" involuntários dos gametas. Digo no mínimo porque o médico-monstro, vale lembrar, foi condenado a 278 anos de prisão por uma série de crimes que inclui, entre outros, estupro. Estupros realizados ali mesmo, no cativeiro de luxo da Avenida Brasil, com pacientes desacordadas.


Estou grávido, como já revelei aqui mesmo no blog, o que faz aumentar ainda mais minha indignação. Aline e eu tivemos a felicidade de engravidar, naturalmente, após dois ou três meses de "tentativas". Um bebê desejado, querido, concebido à moda antiga, quando muitos casais veem-se impelidos a apelar para os avanços científicos a fim de, num último gesto de esperança, perpetuar sua herança genética por meio da fertilização assistida. Quantas mulheres, frágeis e desesperadas, adentraram a clínica do Dr. Roger, hoje um criminoso com a licença médica cassada, dispostas a empenhar o que fosse preciso para realizar o sonho da maternidade? E quantas aceitaram caladas, por tanto tempo, as humilhações a que foram submetidas, cientes de que o tão sonhado bebê estagiava numa lâmina de vidro em algum escaninho do laboratório daquele monstro - e poderia ser esmagado em segundos pelas garras do doutor maldade se ousassem enfrentá-lo?


Terminei a leitura convencido de que, após a morte de Osama Bin Laden, está na hora de o governo brasileiro pedir auxílio à CIA e às armas norte-americanas, se preciso for, para capturar e prender esse terrorista: um ser abjeto e horripilante, sem barba ou turbante, mas munido de uma mente doentia que desafia os limites da brutalidade humana. Pensei na Cilene, uma colega jornalista que, muito tempo atrás, torceu o nariz ao ouvir o nome de Roger numa reunião de pauta. Por algum motivo, ela já não gostava dele. Pensei em Carla, amiga querida e mãe de duas filhas maravilhosas, que cumpriu por quase nove anos uma angustiante maratona de tratamentos, consultas e exames, com diferentes médicos e métodos, até remediar a má formação uterina que a impedia de engravidar. Pensei em Cláudia, aluna da Aline, que virou especialista no assunto de tanto investir na mesma jornada, e, jornalista premiada, ainda não obteve o prêmio mais ansiado. Pensei na Amanda, minha irmãzinha querida, que chegou à nossa família com dois meses de idade, após um longo processo de adoção, e continua enchendo de alegria nossas vidas. Receba, Tiche, meu abraço e meu agradecimento por ter confiado nessa forma tão linda e terna de gestação.

A todas essas mulheres, e a todas aquelas que levarão uma vida para superar o trauma causado por um canalha com diploma de doutor, minha admiração e minha solidariedade.

domingo, 8 de maio de 2011

Mãe, só tem duas!

Hoje dei pela primeira vez um presente de Dia das Mães para minha mulher. Que sensação gostosa!


Acariciando aquela barriga, logo cedo, vislumbrei um futuro com muitos e muitos dias das mães, a serem vividos de uma maneira diferente do que vem acontecendo até agora. Mãe, para mim, havia apenas a minha. A partir deste ano, será momento de celebrar minha mãe e também a mãe do meu filho, da minha filha. Mãe, são duas. E somos nós, Aline e eu, a matriarca e o patriarca da nova família que se inicia.

Mente quem diz que frio na espinha é apenas uma figura de retórica. Frio na espinha é o que me arrepia ao lembrar que em agosto tem Dia dos Pais. E que eu também serei pai em breve. O frio na espinha surge para nos avisar, como a raposa do Pequeno Príncipe: és responsável por aquele que cativas.

E como é bom ter alguém para cativar...

domingo, 1 de maio de 2011

O troço mais sagrado dessa vida

"We don't see things as they are; we see them as we are". A frase é da escritora Anaïs Nin, mas poderia ter sido cunhada por algum teórico da psicanálise.

***

Flávio chegou chateado ao café.
- Rosa me dispensou.
- Rosa? Vocês estavam juntos?
- Ela me dispensou como amigo, entende? Dispensou minha amizade.
- Como assim?
- Disse que agora nossa relação é estritamente profissional, que seremos apenas colegas de trabalho.
- Que estranho. Vocês pareciam unha e carne.
- Mais unha do que carne, parece...
- Deixa disso, Flávio, vocês eram tão amigos.
- Pois é. Nossa amizade deve ter vencido. Será que as amizades, como os queijos e os iogurtes, têm prazo de validade?
- Sei lá. Nunca ouvi falar nisso. Mas é definitivo? Quero dizer, não tem volta?
- Como vou saber? Só posso conversar com ela sobre coisas de trabalho. Ela me pediu para conversarmos apenas de segunda a sexta. E em horário comercial. Fora disso, nada de telefonemas, torpedos ou e-mails pessoais.
- Por que isso? Colega de trabalho só se fala em horário comercial?
- É, eu também não entendi direito.
- Estranho. Eu costumo jogar bola toda terça com a turma da agência e não vejo nada de errado nisso. E no domingo passado fizemos um churrasco na casa do Sérgio. Foi sensacional.
- Verdade. Rosa também costuma encontrar a turma fora do expediente. Vai ao cinema com o Luiz, combina com a Renata e o Ricardo de irem tomar chope com bolinho de bacalhau no Filial... No mês passado, encontrou a Priscila e o Adriano na praia.
- Então deve ser alguma coisa pessoal.
- Deve ser. Não sei. Também, não quis insistir. Ela estava decidida. Só queria falar, falar, falar. Sabe como ela é, adora decidir tudo sozinha.
- Você deve ter feito alguma coisa de errado, não é possível.
- Fiz, sim. Fui irônico ao chamar a atenção dela no trabalho. Ela ficou chateada. Depois tentei abraçá-la para resolver o mal-entendido e ela me interpretou de maneira equivocada. Achou que era intimidade demais. E na frente de todo mundo. Deve ter sido a gota d'água.
- Mas você sempre foi irônico. Com todo mundo, aliás. E saliente, também, se me permite dizer. Porra, a amizade de vocês sempre foi tão bonita...
- É, mas um gerente não deve ser irônico. Nem abraçar funcionárias na frente dos outros, não é? Muito menos assim, na loja, na frente das outras vendedoras. Ela tem razão.
- Você coloca como se a relação de vocês fosse apenas isso, a de um gerente e uma vendedora.
- Ela quer assim, uai. Quer dizer, eu também não entendi direito, confesso. Por isso estou até agora sem saber o que fazer. Sempre fiz questão de repetir a ela que, se tivéssemos de escolher entre a relação de amizade e a relação profissional, que optasse pela relação de amizade.
- Eu lembro. Quando você virou gerente você disse isso para todos nós. E quando eu deixei o grupo, percebi o quanto foi legal ter ouvido isso. A gente passa mais de oito horas por dia no trabalho, tem mais é que estabelecer uma relação gostosa. Se não, vira tudo robô, tudo maquininha de apertar botão.
- Pois é. No meu conceito, a gerência é circunstancial, você sabe. Amanhã a chefe pode ser a Rosa. Ou poderia ser você, se você não tivesse nos deixado. A amizade, não. Amizade é o troço mais bonito que existe. E pode durar para sempre. Se for sincera, construída em alicerces resistentes, se puder sobreviver às intempéries do tempo, do espaço, das porradas que a vida dá. E se puder sobreviver à estupidez do outro, é claro.
A garçonete chegou com nossos cafés. Um curto para ele, um capuccino para mim. De vez em quando, gostava de dar uma passada no shopping para tomar um café com o Flávio, colocar o papo em dia. Ele parecia viver nesse shopping, era sempre o primeiro a chegar à loja e o último a sair. Nada mais justo do que promovê-lo à gerência. O gozado é que, até agora, ele ainda não havia aprendido direito a lidar com os perrengues da atividade de chefia, a burocracia, os trâmites hierárquicos. O negócio dele sempre foi ficar junto da companheirada, sair pra beber, falar besteira, falar mal do chefe. Parece que a farda de chefe não lhe cai direito, sobra pano nos ombros, nas mangas. E, dessa vez, ele parecia realmente chateado com os acontecimentos mais recentes. O leitor precisava estar ali, conferir o jeito como os olhos dele ficaram úmidos ao dizer essas coisas bonitas sobre a amizade.
- E você disse isso a ela? - perguntei.
- Não adianta...
- Você não disse isso a ela?
- Não. Acho que não.
- Pois devia.
- Não posso. Ela só vai me escutar se for assunto relacionado a trabalho. E de segunda a sexta, na hora do expediente.
- Ela não é tão cabeça dura assim.
- Não? - a boca se abriu no primeiro sorriso do dia - Ih, acho que você não sabe da missa a metade.
- Bom, preciso dizer que você não fica muito atrás.
- Tem razão. O fato é que ela me dispensou. E pronto. Acho que foi a primeira vez que eu fui dispensado por uma amiga. Sensação estranha. Confesso que eu sempre havia pensado na Rosa como minha grande amiga, talvez a maior de todas. Desde o dia que fomos contratados para inaugurar essa unidade, anos atrás, pintou uma sinergia, sabe. Uma identificação. Um carinho mútuo. Não imaginei que fosse acabar assim, por causa da relação de trabalho. Trabalho é mesmo uma merda. Só serve para empatar a vida da gente. O pior é que meu lado gerente é a pior parte de mim. Sempre pensei que eu pudesse me virar melhor como amigo do que como gerente. É como o cara que vai tirar foto de uma modelo, descobre qual o melhor perfil e decide fotografar o outro lado.
Flávio e Rosa eram mesmo muito próximos um ao outro. Teve muita gente na loja que, por um bom tempo, cochichava pelos cantos, maliciosa, certa de que os dois tinham um caso. Gente maldosa. Eles nunca tiveram, tenho certeza. Mas era bonito ver como os dois se entendiam e até se protegiam. Acho até que o Flávio quis tentar alguma coisa com ela, tempos atrás, mas ela não correspondeu. E mesmo ele, casado e pai de família, deve ter sublimado rapidamente os desejos mais vulgares em nome do bom senso, e também em nome daquela amizade bonita. Agora, as histórias que ele me contava desenhavam uma Rosa diferente, avessa, desconfiada. Ele deve ter mudado muito desde que assumiu a gerência. Deve ter virado um cara grosseiro, petulante. No mínimo arrogante.
- E se ela voltar atrás? E se ela se arrepender?
- Não vai acontecer.
- Por quê? Nunca te vi pessimista antes.
- Não vai acontecer. Ela está convencida de que é melhor assim. Além disso, quem consegue ser amigo de uma pessoa que o vê apenas como chefe, sem nenhuma vontade de compartilhar planos, tristezas, expectativas. Amizade não é coisa técnica, racional, treinada segundo os preceitos da aritmética e da engenharia. Você conseguiria ser amigo de alguém que só vai atender a um telefonema seu de segunda a sexta? E na hora do expediente?
- Acho que não.
- Pois é. Minha mãe dizia que a diferença entre amigo e parente é que amigo a gente escolhe. No caso, fui desescolhido. Agora, o jeito é lidar com isso.
- Pelo menos as vendas estão indo bem, não é?
- Ah, sim. Muito bem, graças a Deus.

***

Jagunço Riobaldo sabia das coisas:

"Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. A senvergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade."

"Não convém a gente levantar escândalo de começo, só aos poucos é que o escuro é claro."

"Amigo, pra mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira o prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios."

"Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por que é que é."

***

Quando era criança, costumava me emocionar toda vez que ia à casa da minha tia, em Hortolândia, e lia uma mensagem gravada em um pôster fixado sobre painel de madeira e exposto na parede. Houve um tempo, até os anos 1980, que era muito comum comprar esses quadros em feiras hippies e espalhá-los pela casa. Quadros com mensagens escritas ou com retratos de ícones pop. O rosto do Che é, de todos, o mais conhecido. Imagens de John Lennon e de Charles Chaplin também eram sucesso de audiência. E a casa da minha tia tinha todos esses. O meu preferido tinha um texto apócrifo intitulado "Procura-se um amigo". Rivalizava, na cafonice dos meus sentimentos púberes, com outro quadro, delicioso de ler, com um poema chamado "Instantes", também apócrifo, e que muita gente desinformada atribuía a Jorge Luiz Borges. Esse outro, o "Procura-se um amigo", tem sido publicado em uma batelada de blogs por aí como se fosse obra de Vinícius de Moraes. Não ponho a mão no fogo por ninguém, mas resisto a acreditar que seja cria do Poetinha. Não é. Pelo menos até que se prove o contrário. Vamos ao texto:

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

***

"El cariño que te tengo
No te lo puedo negar"
(Compay Segundo, em "Chan Chan")

***

Eu quero ter um milhão de amigos... Um milhão de amigos, o caralho! Eu quero ter três ou quatro, não preciso de mais. Três ou quatro que me ajudem a fazer de mim uma pessoa melhor. E que valham por um milhão.

***

"João viu, entre os papéis da minha mesa, um álbum que nós tínhamos feito com recortes de jornais até 1961, de fotografias e desenhos sobre a conquista espacial. Na capa, estava escrito: 'A Conquista do Espaço', por João Alfredo Galvão e Edgar Paranhos Ribeiro.
- Você estava fazendo arrumação? - ele perguntou.
- Estou precisando de espaço. Toda hora compro um livro, disco, tem muita coisa pra jogar fora.
Tanta coisa pra jogar fora... João ficou folheando o álbum, ali, justo naquele momento.
- A cachorrinha, a Laika, o primeiro ser vivo que mandaram pro espaço... - ele começou.
- Você achou a maior sujeira terem mandado sozinha.
- Quantos anos a gente tinha, Edgar?
- Uns 11, 12, eu acho.
- Eu ficava imaginando a cadela sozinha lá em cima, uma solidão danada...
- Apesar de ter sido ideia dos russos - eu provoquei, amigo de novo.
- O Gagarin, olha aqui! Essa parada vocês perderam - ele devolveu.
Foi. Perdi a aposta e paguei cinco bananas-split no Cinema Pax, maior prejuízo na mesada. O 'sem-limite' ali comeu os cinco, na hora. Não lembro por que a gente parou de fazer o álbum.
- Qualquer dia o homem tá pousando na lua, Edgar. A Maria Lúcia, quando ela brigou comigo, vocês namoraram, doeu pra burro, mas eu continuei seu amigo. Eu acho que amizade...
João olhou para o álbum, pegou, perguntou se eu ia jogar fora. Eu não ia. E ele quis saber:
- A nossa amizade, você tem certeza que, puxa, não dá pra fazer um esforço, Edgar?
- É. Eu tenho que tentar, sim.
Ficamos abraçados um tempo, no meio do quarto. Abraçados forte. E o João fez um último pedido.
- Eu queria, no dia em que o homem pisar na lua, do jeito que está indo o avanço tecnológico, se passar na televisão, amizade pra mim é o troço mais sagrado dessa vida, Edgar. A gente podia ver junto e... Vamos ver juntos, sim. Vamos ver juntos e completar o álbum.
Você já leu O Encontro Marcado, do Fernando Sabino? Pois é. Eu topei, concordei demais.
Eu gostei muito do João. Eu amei o João, acho que o amo até hoje. A única vez na vida em que eu lamentei não ser homossexual foi por causa do João. Mas aí, ele não era, não ia adiantar nada, ia ser outro sofrimento."
(Sérgio Marques e Gilberto Braga, Anos Rebeldes, 1992)  

***

E nós, podemos fazer um esforço?

domingo, 24 de abril de 2011

Ligeiramente grávido

Foi no dia 24 de fevereiro, há exatos dois meses, que chegou o e-mail. "Veja com seus próprios olhos", ela dizia, numa mensagem para lá de econômica, seguida por um número de protocolo e uma senha. Eu estava na redação e parei o que fazia para obedecê-la (dali em diante, obedecê-la viraria um hábito). Acessei o site do laboratório e devo ter tropeçado em alguns algarismos até dar de cara com o resultado de um exame feito, na véspera, às 16h58 (hora aproximada, segundo o laudo médico, pode?) por Aline Matos Gurgel, 34 anos, sexo feminino. Levei um susto quando li que minha mulher estava infectada com uma tal de gonadotrofina coriônica humana. Com esse nome do demônio, só podia ser coisa grave. Imaginei meu amor com avental azul-claro, hospedada num quarto de hospital. Será que o convênio iria cobrir a cirurgia? Deus-pai, seria possível curar essa doença com cirurgia? Continuei a ler o laudo e fiquei ainda mais nervoso. Aline estava com 11.303 mUI/mL (mili-unidades internacionais por mililitro de sangue) dessa maldita gonadotrofina coriônica humana - quando o valor de referência é inferior a 1. E ela me aparecia com 11.303? Tô lascado, pensei, solidário. Mais embaixo, encontrei um breve manual para leigos. Dizia assim:

Interpretação na suspeita de gravidez:  
NEGATIVO: inferior a 1,0 mUI/mL 
POSITIVO: superior a 25,0 mUI/mL

Como é que é? Voltei para conferir o número lá em cima: 11.303,0. Fiz os cálculos para saber se aquilo era mais do que 25,0 e... bingo! Bendita seja a gonadotrofina coriônica humana, também conhecida como beta-HCG!!!

A decisão de ter um bebê havia se instalado lá em casa em novembro. Por três meses seguidos, fizemos aquela coisa meio constrangedora, meio embaraçosa, de acompanhar o período fértil, calcular aproximadamente o início e o fim, definir as datas mais promissoras e mandar ver, de olho no calendário. O primeiro aroma de alegria surgiu em meados de fevereiro, quando o que era para vir não veio. Passados dez dias, Aline foi fazer o exame. Segura como só as mulheres conseguem ser quando encasquetam que algo se passa em seu organismo, nem cogitou a possibilidade de passar na farmácia para comprar um daqueles testes de xixi. Preferia uma coisa mais profissa. E, assim, fiquei sabendo o que significa beta-HCG, segundos antes de descobrir que seria pai. Era hora de responder o e-mail: "Que jeito mais impessoal de me contar!!!", escrevi. "Vou te ligar daqui a pouco. Amo você. E o Daniel. Ou a Marina (ou a Clara, ou a Bruna)." Não preciso explicar que aí estavam, desde aquele momento, os nomes mais prováveis do baby, após horas e horas de discursos inflamados, disputas acirradas e deliciosos consensos. Pouca coisa é mais sedutoramente ridícula do que papo de casal imerso em sonhos, planos, projetos e paixões.


O médico sugeriu que guardássemos segredo até os três meses. Ainda faltavam dois. Ou um mês e meio, conforme a curiosa conta na qual se considera não o dia da concepção, mas da última menstruação. Sim, porque o tal exame beta-HCG também tinha o poder de indicar os dias de vida - ou melhor, de útero - do nosso bebê. E, conforme a progressão continuada dos índices do hormônio no sangue, era possível saber, por exemplo, que o Daniel (ou a Marina, ou a Bruna, ou a Clara) havia sido produzido lá pelo dia 23 ou 24 de janeiro. Feriadão em São Paulo, veja você. Nada como ir para a praia depois do fechamento, comer uns camarões, tomar um vinho... Se a cidade querida, que me inspira diariamente no meu trabalho, nasceu num dia 25 de janeiro, lá vinha o(a) Vannuchinho(a), repetindo o mesmo roteiro. Que coisa curiosa.

Guardei segredo até a décima-segunda semana. Sim, porque mãe que é mãe não diz que a gestação tem três meses. Essa gente prefere contar o tempo em semanas. E eu que me acostume, oras. Pois bem: quando se completaram 12 semanas desde a última menstruação, fui com Aline fazer um ultrassom. Coisa mais fofa do papai! O bebê estava ali, pimpão, com oito centímetros de altura, enrolado num espiral com cinco centímetros de diâmetro, e um agitado coração a surpreendentes 161 batimentos por minuto. São desse ultrassom as imagens que ilustram esse post. Dois dias depois, fui encontrá-la no consultório, a tempo de presenciar os últimos instantes de conversa entre ela e o médico - e fazer também uma e outra perguntinhas. Até quando ela pode pegar avião? O que ela deve tomar se tiver dor de cabeça? Pode comer sushi e sashimi? O mais importante foi saber que o bebê está grande, normal, saudável, com todos os dedinhos. E que deve pintar por aí lá pelo dia 20 de outubro.



Agora eu já posso contar? Pode. Primeiro a mamãe, depois o papai e as irmãs, e a "vodrasta", e o compadre, e a vovó, e a turma do trabalho toda, e os amigos mais próximos, e o povo do facebook. Como é difícil dar notícia em tempos de redes sociais... Antigamente as famílias eram menores, e menos espalhadas, e nas cidades do interior todo mundo se conhecia. Aqui a gente comemora a prestações. Tenho certeza de que, quando o bebê nascer, muita gente vai ser pega de surpresa. É assim mesmo. E aí, quando contei pro meu pai, fiquei sabendo que eu também fui concebido num feriado de 25 de janeiro. Que coisa. A história muitas vezes se repete, disse certa feita aquele comunista barbudo que devia ser tio do Groucho Marx. Só que este futuro papai apaixonado, 31 anos atrás, foi apressado demais para esperar o finalzinho de outubro e resolveu nascer antes, em meados de setembro. É o que costuma acontecer com fetos que são curiosos demais para bisbilhotar o mundo lá fora.

Hoje, curtimos a dois os efeitos colaterais da gravidez. Às vezes fico enjoado (juro!) e nunca tive tanto sono na minha vida. Aline já está com cheiro de mãe, cheiro de bebê. Não me peça para explicar como é isso. Mas é um cheiro diferente, que exige afeição imediata, como aqueles olhos gigantes do gato de botas do Shrek. Estou adorando olhar para a barriga dela e ver o quanto ela cresce a cada dia. A melhor hora do dia é quando deitamos e eu passo um creme na sua barriga, toda noite, trocando algumas palavras com o baby. Aline, que já leu uns três livros até agora, me explicou que ele só vai me escutar no sétimo mês. Não importa. Eu curto esse lance de bater papo com meu filho, minha filha, nosso rebento. Será também o primeiro neto, de ambos os lados, e o primeiro sobrinho (ou neta, ou sobrinha). Nessa Páscoa, já ganhou até um coelhinho de pelúcia. E três pares de meias. Também já ganhou dois pares de sapatinhos de crochê (ou será de tricô?).

No primeiro sonho que tive com ele, logo na semana em que recebi o e-mail mais feliz do ano, Daniel (era um bebê com pipi no meu sonho) não calçava nem meias nem sapatos. Estava nu, deitado de bruços sobre meu peito, na cama, fazendo força para levantar a cabeça e olhar para mim, sorrindo de vez em quando e esfregando os olhinhos, até adormecer. Eu fiquei ali, que nem um bocó, olhando para o teto, curtindo aquele coraçãozinho colado no meu coraçãozão, afagando suas pernas gordas, seu cabelo ralo, enquanto ele dormia. Minha terapeuta fez festa quando contei: "Não poderia ser um sonho melhor", ela disse. "Você poderia ter sonhado com ele aos berros, chorando, com febre. Esse sonho indica o quanto você está feliz, o quanto está realizado e o quanto está calmo com a novidade." Feliz e realizado, eu estou com certeza, Ana. Mas, calmo? Sei não, sei não...

domingo, 10 de abril de 2011

Cabeças dançantes

Puta que o pariu. E saber que lá se vão 35 anos... Acabo de voltar do Sesc Belenzinho, um lugar fantástico, onde tive a sorte de assistir a um show ainda mais fantástico. Por mais de uma hora, Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos, juntos, tocaram todo o repertório do disco Dança das Cabeças, um álbum antológico (e ontológico) gravado em 1976.


Enquanto a dupla exibia seu talento e sua irreverência para uma platéia de 400 privilegiados, uma fatia considerável de São Paulo preferia confluir para o estádio do Morumbi, na ânsia de rever o messias Bono Vox e seus correligionários. Fiz melhor negócio, acredito. Apesar do aspecto de messias, com o indefectível lenço na cabeça, Egberto é mago sem pompa, menestrel de prosaica sabedoria, com mais de 60 álbuns lançados e um repertório repleto de belas mensagens, sempre transmitidas por meio das teclas do piano e de seus incríveis violões de dez ou 12 cordas. Hoje, pela primeira vez, o vi tocar flauta também.


Naná é bruxo das selvas, mistura de saci e curupira que habita dentro da gente, trançando as crinas dos nossos pensamentos com assovios e batuques. Se você ainda não viu Naná dentro de você, pode ficar de tocaia e pôr reparo: mais cedo ou mais tarde ele há de aparecer.


Juntos, com a alegria e a experiência que 35 anos oferecem a quem sabe aproveitar os benefícios da idade, esses bravos guerreiros fizeram minha alma voltar para casa mais leve, mais doce, mais confiante na beleza do mundo. Porque, no fundo, é isso o que os bons músicos são: semeadores de beleza.


Se alguém aí tiver esse disco, Dança das Cabeças, por favor entre em contato. Tô a fim de garantir o meu. Por ora, o jeito é fuçar por aí para ver se encontro alguns recuerdos dessa linda epopeia sonora. Por enquanto, tudo o que encontrei foi um registro de 1996, quando os dois tocaram juntos no Parque do Ibirapuera. O vídeo é da faixa que dá título ao LP. Pena que a sensação não é nem de longe a fantástica alegria de vê-los ao vivo.


Tomara que eles voltem a tocar juntos por aí. Os fãs já estão à espera.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

"Já tinha levado choque no ânus, vagina, nos seios, nos ouvidos, dentro da boca"

No post anterior, expus minha expectativa em relação à nova novela do SBT, "Amor e Revolução". Como era de se esperar, em razão do histórico do canal, o folhetim está longe de ter a qualidade desejável em uma produção do gênero. Edição (ainda) capenga, atuações (ainda) pouco convincentes, texto (ainda) cheio de estereótipos. Mas uma iniciativa merece, desde já, o respeito de qualquer brasileiro afeito à memória da nação e à defesa dos direitos humanos. De maneira corajosa, a direção da novela optou por encerrar todos os capítulos com depoimentos de ex-presos políticos, torturados nos porões da ditadura. A proposta segue o modelo inaugurado por Manoel Carlos nas novelas da Globo, mas tem a ousadia de ir além do sensacionalismo e assumir ares de denúncia, num momento em que a sociedade se divide ao discutir a melhor maneira de lidar com o tema, 47 anos após o golpe de 1964.


Na terça-feira, noite de estreia, quem prestou testemunho na TV foi Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha. Militante do PCdoB, ela atuava na clandestinidade em São Paulo quando foi presa, em 1972, com o marido César, os filhos Janaína (então com 5 anos) e Edson (com 2 anos), e a irmã Criméia, grávida de oito meses (ela daria à luz na prisão). Por dez dias, foi torturada de todas as maneiras, diante dos olhos dos filhos.


No capítulo de quarta-feira, conhecemos a história de Jarbas Marques. Jornalista e historiador, ligado também ao PCdoB, ele foi detido já em 1967, passou dez anos preso, serviu de cobaia para aulas de tortura e viu companheiros de cela enlouquecerem.


Ao menos por enquanto, a dica é sintonizar no SBT no finalzinho da novela e esperar para conferir o relato do dia. Vale mais do que muita aula de história ministrada por aí.

domingo, 3 de abril de 2011

E ainda dizem que é coisa do passado

Dá só uma olhada na foto abaixo. A moça do retrato se chama Graziella Schmitt. Tem 29 anos, é atriz, começou a carreira como paquita, atuou em Malhação e, na próxima terça-feira, fará sua estreia - de faixa no cabelo e blusa estampada - como a protagonista de "Amor e Revolução", nova novela do SBT.


No folhetim, a bela viverá a guerrilheira Maria Paixão, militante de uma organização revolucionária disposta a pegar em armas para derrubar a ditadura. Depois de servir de argumento para a minissérie "Anos Rebeldes", de 1992, o governo militar volta às telas, justamente na emissora de Sílvio Santos, o ex-camelô que sempre se esquivou de temas políticos e, por décadas, preferiu importar novelas mexicanas a investir em uma teledramaturgia nacional. Em entrevista publicada hoje no Estadão, Graziella diz "amar" o tema escolhido pelo autor Tiago Santiago, que além de dramaturgo é cientista social com mestrado em sociologia. Afirma ter feito, ainda, treinamento com armas de fogo para melhor se preparar para o papel. Antes das gravações, o elenco também participou de oficinas com a presença de ex-guerrilheiros, presos e torturados nos anos de chumbo, como Rose Nogueira e Maria Amélia de Almeida Telles, que perderam parentes na luta.

Por ser uma novela do SBT, é impossível saber de antemão se as boas intenções da atriz, do autor e do diretor serão revertidas em um produto televisivo de qualidade ou se terminarão, como muitas vezes ocorre, por ofender a inteligência dos espectadores. O que se pode afirmar, desde já, é que o assunto, ao contrário do que se diz por aí, continua presente na mente dos brasileiros, na curiosidade do público e no dia a dia das instituições. O galã da novela "Araguaia", só para citar outro folhetim em cartaz, descende, segundo a sinopse, de um guerrilheiro que atuou nos focos rurais formados no Bico do Papagaio no início dos anos 1970 pelas frentes do PCdoB.

Na semana que passou, tivemos o aniversário de 47 anos do Golpe, também chamado de Revolução de 1964 ou simplesmente de "gloriosa" pelos signatários do regime de exceção. Pouco se falou sobre o assunto na TV, o que deve, sim, ser encarado como sinal de vitória da democracia. Poucos anos atrás, havia marcha militar, salva de tiros e loas aos borbotões. Mas houve quem celebrasse a data. "31 de março de 1964: PARABÉNS FORÇAS ARMADAS, PELO ANIVERSÁRIO DO REGIME MILITAR DEMOCRÁTICO BRASILEIRO", twittou, em letras graúdas, o vereador Carlos Bolsonaro, filho do personagem mais polêmico da semana, o deputado Jair Bolsonaro - militar que entrou para a vida pública nos anos 1980 e, desde então, tem se dedicado a esculhambar negros e homossexuais. Na última segunda-feira, o programa "CQC" exibiu entrevista com Bolsonaro, na qual o deputado afirmou, entre outras coisas, que seu filho não seria "promíscuo" para se casar com uma negra. "Meus filhos foram muito bem educados", explicou (confira vídeo abaixo). Em seguida, tentou consertar e acabou se enrolando ainda mais. "A resposta dada deve-se a errado entendimento da pergunta - percebida, equivocadamente, como questionamento a eventual namoro de meu filho com um gay", justificou, em nota. As negras não são promíscuas, mas os homossexuais, sim. Triste o país que tem parlamentares como este.


Lembro que, anos atrás, foram divulgadas fotografias da porta do gabinete do deputado, na qual havia um cartaz afixado, com um desenho de um cão e a seguinte mensagem sobre a busca de ossadas no Araguaia: quem procura osso é cachorro. É esta a personalidade de Bolsonaro. Será que ele assistirá à próxima novela do SBT?


O que me dá algum alento, nessa história toda, é perceber o quanto o tema continua firme. Acabo de ler a primeira edição da revista GQ Brasil, lançada agora mesmo em abril pela recém-criada joint venture Edições Globo Condé Nast, e tive uma grata surpresa ao me deparar com a reportagem do Lucas Figueiredo sobre o Araguaia. Lucas Figueiredo é um jornalista da peste, autor de um ótimo livro chamado "Olho por Olho", no qual desvenda os meandros da produção de dois petardos editoriais compilados nos anos 1980 sobre a ditadura, um pela resistência democrática, o "Brasil: Nunca Mais", o outro pelos militares, o "Orvil". Na primeira edição da GQ Brasil, ele dirige seu olhar para o foco da guerrilha rural e revela de que maneira os coronéis cooptaram índios da região para que caçassem (e degolassem) os "paulistas", como eram chamados os comunistas aquartelados na área. Coisa boa, fruto de apuração da melhor espécie, e logo em uma publicação com chancela americana, dedicada ao público AA, entre páginas de luxo, estilo e comportamento.


Não bastasse, está em cartaz em São Paulo, no Memorial da Resistência, uma exposição sobre os 40 anos do "desaparecimento" do deputado Rubens Paiva, mais conhecido das novas gerações como "o pai do Marcelo Rubens Paiva". O parlamentar sumiu do mapa após ser preso e torturado pelas forças da repressão. Até o dia 10 de julho, a mostra perpassa sua atividade legislativa, seus últimos dias de vida, e reúne fotografias, algumas inéditas, capazes de reconstruir o legado deixado por mais uma vítima da ditadura, da qual ainda não se encontraram os ossos.  


Na GQ, nos jornais, na TV e nas redes sociais, é nítido o quanto ainda se buscam respostas para as dúvidas que ainda pairam sobre os anos de chumbo, sobre os tempos da ditadura. E ainda tem gente que diz que é coisa do passado, que não há motivos para se tocar no assunto.

terça-feira, 29 de março de 2011

Lula lá - a alegria de se abraçar


O cara já deixou a presidência faz tempo e continua causando. Lendo o post de hoje do blog do Ricardo Kotscho, fiquei sabendo que a discussão do momento é sobre a autoria do slogan "Lula lá", transformado em lema da primeira campanha de Luiz Inácio ao Planalto e adotado no jingle de Hilton Acioli que acabou virando hino de uma geração. Quem tem mais de 30 anos certamente se lembra de versos como "é a gente junto / valeu a espera / meu primeiro voto pra fazer / brilhar nossa estrela", ou ao menos do hit "sem medo de ser / sem medo de ser / sem medo de ser feliz".


Tudo porque a Folha de S. Paulo atribuiu o "Lula lá" ao marketeiro Paulo de Tarso Santos em matéria recente. E jamais publicou o desmentido de Maurício Maia, filho do gênio Carlito Maia, verdadeiro autor da marca. Foi Paulo de Tarso quem levou a frase a Hilton Acioli, o compositor responsável por criar o jingle. Ao que parece, neste episódio, Paulo de Tarso agiu como um intermediário, uma espécie de motoboy responsável por levar o mote ao glosador.


Conheci Carlito Maia, já velhinho, em uma festa do PT no início dos anos 1990. Publicitário, ele foi dos grandes criadores do partido, autor de sacadas surpreendentes como o logo "oPTei", estampado até hoje em camisetas, bonés, canetas, broches e adesivos, e o inspirador "solidaried'AIDS", disseminado em parachoques e vidros de carros ao longo dos anos 1990. Também a expressão "PT saudações", usada pelos militantes de primeira hora para assinar cartas e bilhetes, foi lançada por ele, em uma coluna que assinava na Gazeta de Pinheiros na década de 1980. A propósito, para quem nunca viu um telegrama de perto, vale explicar que pt representava ponto, da mesma maneira que vg representava vírgula, na redação truncada e sem pontuação dos velhos telegramas - de modo que "pt saudações" era assinatura corriqueira nesse tipo de correspondência.


"Lula lá", o jingle, marcou época na voz dos cantores Gilberto Gil, Djavan e Chico Buarque (vídeo acima) e também ao reunir, no programa eleitoral, dezenas de atores globais, como José Mayer, Malu Mader, Marieta Severo, Aracy Balabanian e Hugo Carvana (mais ao alto), todos em apoio à candidatura do torneiro mecânico.


Carlito, meu caro, quem viu de perto todo aquele movimento acontecer, e torceu por ele com ânimo renovado e a esperança de ver um Brasil diferente, não está nem aí para as sandices da imprensa. Certas coisas são História, permanecem para sempre nos arquivos e nas lembranças - mesmo quando um jornal erra, no afã histriônico de tentar reescrever os fatos.

sábado, 26 de março de 2011

Na minha mão é mais barato

Outro dia o Rafael chegou até minha mesa e me mostrou um cartão azul. "Disk ingresso". Mais embaixo, um número de celular. Duas semanas antes, ele havia dado início à apuração de uma reportagem sobre a atuação dos cambistas em São Paulo. Valia de tudo: jogos de futebol, shows internacionais, baladas com ícones da música eletrônica se apresentando nas pick ups. Sua missão era desmontar, decifrar, descobrir todos os esquemas utilizados por esses intermediários de elite, essa tropa de fornecedores que ganham a vida cobrando ágio em troca da conveniência de oferecer bilhetes de última hora a quem não conseguiu ou não quis comprar entradas pelo preço oficial, por telefone, internet ou nas bilheterias. O resultado está na matéria de capa da edição de Época SÃO PAULO que chega hoje às bancas da região metropolitana, de graça para quem comprar a Época.


Rafael Barifouse é carioca, radicado há quatro anos em São Paulo. Está conosco desde dezembro e assina, agora, sua primeira matéria de capa - a primeira capa na Época SÃO PAULO, após ter feito uma porção delas na Época Negócios, seu endereço anterior. Por dois meses, testou toda forma de cambismo que conseguiu encontrar. Homens e mulheres, pobres e ricos, velhos ou novos, há de tudo no câmbio negro do entretenimento paulistano. Para a revista, ele conseguiu listar seis tipos diferentes de cambistas, desde o falsificador de ingressos até o que tem "compadres" infiltrados nas empresas que organizam eventos e, de lá, conseguem desviar lotes inteiros de entradas. Rafael também foi à polícia para cobrar explicações: por que não se faz nada para coibir esse mercado, responsável por esgotar mais cedo os ingressos oficiais e inflacionar seu preço? Tudo isso você encontra na revista. E corra para adquirir a sua, antes que elas acabem e você tenha de recorrer a um cambista.

domingo, 20 de março de 2011

O noivo, a noiva e o Padre Filinto

Ele tinha 24 anos. Cedo para casar, diziam alguns parentes e amigos.
Mas o amor dizia outra coisa.
Ela tinha 27, dois anos e meio a mais do que ele.
Mas a juventude necessária para rejuvenescê-lo.


Foram quatro anos de namoro até o pedido. Careta, cafona e neófito por completo nas artes do romance e da sedução, ele a levou a um restaurante que nada tinha a ver com os dois para comemorar o quarto aniversário. Cozinha mediterrânea, com mesas redondas e louça trabalhada, repleto de cabeças calvas e brancas (algumas eram as duas coisas simultaneamente). Tirou uma caixinha preta do bolso e ela voltou pra casa, na manhã seguinte, com um anel novo. Mais um ano e meio para conseguir vaga na capela, contratar salão e bufê, encomendar convites, bolo, noivinhos, bem-casados, acertar os detalhes com padre, coral, florista, DJ, luz, gerador, fotógrafo, cinegrafista, hotel para a noite de núpcias, hotel para a lua de mel. Vestido para ela. Costume para ele (a Mari o ajudou a escolher). A gravata foi emprestada. Os sapatos dele ganharam uns três centímetros de salto para não passar vergonha no altar. Tudo tão bonito...

Ela entrou sozinha, decidida, arrastando a barra do vestido pelo corredor. Ainda bem que a nave é pequena na capela São Francisco. Ele caminhou até o meio da nave para buscá-la e caminharem juntos os últimos metros. Marcha nupcial executada ao vivo. Coisa fina. Chico, um dos padrinhos, leu aquele trecho famoso da carta de Paulo aos Coríntios. Ainda que eu falasse línguas, a dos homens e a dos anjos, sem o amor eu não seria nada. O padre fez a outra leitura, sobre a casa que é edificada sobre a pedra. Depois, leu os dez mandamentos do casal - um divertido discurso que instrui os dois a serem compreensíveis: "se alguém tiver de ganhar a discussão, deixe que seja o outro".

Padre Filinto conhecia o noivo havia bom tempo. Nascido em Goa, na Índia, e membro da Congregação de Santa Cruz, morava no mesmo colégio em que o rapaz estudara dos 10 aos 17 anos, e atuava ali como animador espiritual - espécie de palestrante motivacional para as questões do espírito. No dia a dia, trombando com os alunos nos corredores e nos intervalos, costumava segurar os braços dos menos aplicados e meter-lhes um soco no deltóide, esse músculo localizado entre o bíceps e o ombro, onde costuma ficar a marca da vacina BCG. "Tem que estudar", dizia, e perguntava as notas tiradas.

Em seguida, quando o imberbe estudante de 18 anos se aproximou das atividades de pastoral e virou monitor dos encontros de jovens realizados com alunos do ensino médio do antigo colégio, o padre se tornou consultor e parceiro. Padre Filinto foi quem intermediou os quatro sacramentos do moço: o batismo, a primeira comunhão, a crisma e o matrimônio. Confessar-se com ele era uma experiência inusitada de impunidade. O pecador, envergonhado, foi sempre perdoado sem cumprir pena alguma. Nem uma ave-maria sequer. Pode isso, Arnaldo? Tempos de fé e esperança, confirmados nas duas belas capelas do colégio, entre vitrais de Alfredo Volpi. Após o casamento, o noivo doou uma sexta básica e uma série de coisas aos trabalhos de pastoral assessorados por ele. Ao padre, deu duas garrafas de uísque.

Recentemente, soube que Padre Filinto foi afastado das atividades do colégio. Passou um tempo no interior do Paraná, aprendendo a administrar o alcoolismo e a se manter longe dos copos, e mudou-se para o Canadá. Lá, assumiu um cargo burocrático junto à cúpula da congregação, afastando-se da atividade educacional que desempenhou por tantos anos. Hoje, quando os noivos comemoram sete anos de casados, acordei pensando em Padre Filinto. Nunca mais o vi. Talvez sim, uma ou duas vezes após a cerimônia, certamente mais de cinco anos atrás. Pensei nas garrafas de uísque que lhe dei de presente. Pensei nos socos que ele dava nos ombros dos alunos e em como costumava puxar as bochechas das garotas, risonhas e estabanadas em plena adolescência. Gostaria de vê-lo novamente. De tomar uma coca-cola com ele, colocar o papo em dia, conversar um pouquinho sobre os tais desígnios de Deus. Ele os têm, de fato? "Com Deus, não temos de ver para crer, mas crer para ver", ele costumava dizer, para tentar driblar a inquisição implacável dos mais questionadores. Tenho saudade de seu sotaque. Onde estiver, te abraço com a Paz de Cristo.