segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Fragmentos de um discurso eleitoral


1- Aos 23 anos de idade, Francisco Buarque de Holanda foi chamado de velho. Seguia gravando sambas enquanto outros jovens de sua idade se uniam ao redor de um projeto que ganharia o nome de tropicalismo, repleto de arroubos sonoros e estéticos. A argumentação do grupo de Caetano, Gil, Tom Zé e Capinam era de que aquele rapaz tímido de olhos azuis preferia reproduzir o que havia de mais tradicional na música popular brasileira em canções como “Ela desatinou”, “Januária”, “Sabiá” ou “Quem te viu, quem te vê”, quando a modernidade proposta por eles indicava o caminho correto da novidade. No meio da polêmica, Tom Zé disse o seguinte: “Respeito muito o Chico, afinal ele é nosso avô”. O bonitão de olhos azuis saiu-se com essa: “Nem toda loucura é genial, como nem toda lucidez é velha”.

2- Em São Paulo, essa foi a eleição do novo. Novo pra lá, novo pra cá. Primeiro, uma novidade chamada Celso Russomanno ocupou a primeira colocação nas pesquisas ao longo de mais de uma dezena de semanas. Depois veio Haddad, inventado por Lula, que consolidou a vitória. São Paulo já apostou outras vezes no novo. Escolheu uma nordestina pobre, formada nas ligas camponesas, no pleito de 1988, quando todas as pesquisas indicavam o desejo do paulistano em manter o velho. Mais tarde, escolheu o primeiro prefeito negro da capital paulista em 1996, novamente sob a égide do novo, com a diferença de que, naquela ocasião, o novo era o candidato apoiado pelo velho, favorecido por uma conjuntura de pujança econômica que lhe permitiu fazer o sucessor. Grosso modo, Kassab também era o novo ao vencer as eleições de 2008. Embora governasse a cidade havia dois anos, o prefeito era desconhecido pela maior parte da população. Muitos foram descobrir seu rosto e sua voz nos programas eleitorais daquele ano. Curiosamente, três novidades se encontraram em 2012: Russomanno, Chalita e Haddad. Uma delas foi eleita. E tem gente que ainda diz que os paulistanos são conservadores.

(foto: Paulo Pinto)

3- Se Haddad é cria do Lula, um político que está no circuito desde 1980, quando fundou o PT (ou desde 1982, quando disputou sua primeira eleição, para o governo do Estado), o mais lógico é chamá-lo de novo ou de velho? Sendo assim, como considerar a vitória de ACM Neto sobre Nelson Pelegrino em Salvador? É o velho carlismo que retorna, como o velho lulismo a São Paulo, ou o neto de Toninho Malvadeza deve ser listado no rol dos novos líderes do amanhã? Na extremidade oposta, seu oponente derrotado, tendo sido endossado pelo ex-sindicalista Jacques Wagner, quadro antigo do PT, pode reivindicar a imagem do novo? O que justifica, em 2012, a vitória de um neto de ACM, na “cidade da Bahia”, se não um desejo de retomada de valores perdidos ou o saudosismo perante um jeito de lidar com a res publica que os tais homens novos, carentes de pedigree, não conseguem ofertar? E a eleição de Arthur Virgílio, em Manaus, como explicá-la sem relativizar a iminência do novo? “São Paulo é como o mundo todo”, cantou Caetano. Mas o mundo não é São Paulo. Nem o Brasil.

4- O adversário de Haddad nessa eleição era um político de 70 anos que disputou mais eleições do que nenhum outro candidato na última década. O rosto de José Serra estava nas urnas eletrônicas em 2002, quando perdeu a presidência para Lula. Voltou aos palanques dali a dois anos, em 2004, para conquistar a prefeitura paulistana. Incansável, abandonou o cargo um ano e três meses depois da pose a fim de disputar o governo do estado, em 2006. Venceu. Dali a quatro anos, quando poderia ter tentado se reeleger ao Palácio dos Bandeirantes e apoiar a candidatura de Aécio à presidência, o desejo de ser presidente falou mais alto e, diante da ausência de um nome forte do PT à sucessão de Lula, entrou em campanha certo de que passaria a despachar no Palácio do Planalto. Perdeu para Dilma, taxada de “poste de Lula” pelos adversários. No mesmo pronunciamento em que reconheceu a derrota, anunciou: “eu voltarei”. Ontem, foi derrotado pela segunda vez para um poste de Lula.

5- Serra não perdeu para Haddad. Ele perdeu para si mesmo. Perdeu por uma sequência de erros (ou idiossincrasias) que, repudiados pela população, culminaram no fracasso de seu projeto político. Começou a perder no dia em que abandonou a prefeitura para disputar o governo do estado, no começo de 2006, mesmo tendo assinado um termo de compromisso comprometendo-se a permanecer no cargo por quatro anos. Perdeu novamente ao afirmar, repetidas vezes, que não seria candidato novamente à prefeitura de São Paulo. Nessas ocasiões, justificava dizendo que sua cabeça estava mais voltada para um projeto nacional. Perdeu mais alguns tentos ao voltar atrás, mudar de ideia, rever sua posição e, finalmente, declarar-se candidato, num momento em que seu partido não só havia marcado a data das prévias, como quatro pré-candidatos já haviam se lançado em campanha, realizando inclusive audiências regionais para discutir programas e projetos com seu potencial eleitorado. No início da campanha, liderava as pesquisas de intenção de votos – mas também era líder em rejeição. Deixou para apresentar seu plano de governo apenas no segundo turno, a 12 dias da votação; usou o “kit gay” para atacar Haddad; investiu sua artilharia para atacar o PT dos mensaleiros enquanto a maioria dos eleitores tinha olhos para o PT do Bolsa Família, do Pro-Uni e do Minha Casa Minha Vida; defendeu a gestão Kassab, avaliada negativamente por metade da cidade; foi incapaz de montar uma agenda positiva ou mesmo um discurso de oposição que, em vez de episódios da década passada, atacasse erros atuais do governo do PT, como a sucessão de apagões; desmereceu a ideia de “novidade” propalada pela campanha adversária. Saiu da eleição pior do que entrou: com menos capital político, pouca chance de se lançar em qualquer disputa daqui a dois anos, brigado com setores do partido (em especial com alguns dos pré-candidatos que se viram desrespeitados no começo do ano) e identificado com uma maneira de fazer política baseada no ranço, na raiva, na agressividade e na prepotência.

(foto: Fernando Donasci)

6- “O partido como um todo vai precisar mesmo de renovação”, afirmou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, após a apuração. Citado por José Serra como seu “melhor amigo”, FHC exerce no PSDB a influência irrefutável que apenas os mestres bem sucedidos são capazes de exercer. Há poucos meses, decretou: o candidato tucano a presidente em 2014 deve ser Aécio Neves. Agora, retoma um tom semelhante ao fazer, sobre a derrota do amigo, a mais coerente das análises. A prioridade, segundo ele, deve ser “empurrar os novos para irem para a frente”. Curiosamente, a lição é exatamente a que o PT colocou em prática, em alguns lugares mais do que em outros, já a partir de 2005, quando estourou o escândalo do mensalão. A sangria de alguns nomes históricos do partido, como os de José Dirceu e José Genoino, seguida da ruína de outros quadros considerados promissores para uma possível candidatura ao governo paulista, como Antonio Palocci e João Paulo Cunha, catalisou a abertura de espaços para que novos nomes fossem viabilizados. Lula foi o primeiro a ter a agilidade de perceber o quanto isso exigia rapidez, e sabia que, se não assumisse uma postura mais incisiva nesse sentido, alguns dos velhos nomes petistas, por mais que agonizassem em praça pública, tentariam ainda resistir, pediriam apoio, clamariam por uma última oportunidade, recorreriam às bases, à voz rouca das ruas ou às prévias internas. Marta Suplicy quase tomou o lugar de Haddad nessa campanha. Não levou. De forma semelhante, José Serra reivindicou seu quinhão quando Bruno Covas, Andrea Matarazzo, José Aníbal e Ricardo Tripoli estavam com as prévias agendadas. Levou. Matarazzo se tornou o segundo vereador mais votado de São Paulo. Tripoli e Aníbal são deputados federais. Covas é deputado estadual, licenciado para ocupar a secretaria estadual de Meio Ambiente. Todos eles estarão em 2013 exercendo um mandato para o qual foram eleitos – e todos com um futuro mais promissor do que o de Serra.

7- Lula foi um vencedor, mas contabilizou derrotas importantes. Depois de São Paulo, talvez a cidade que mais tenha recebido sua atenção nessa jornada tenha sido Salvador, exatamente pela intenção de evitar a ressurreição do carlismo e a vitória de uma liderança do DEM com a envergadura e a disposição de ACM Neto. Ele, o baiano, sai fortalecido dessa eleição, como um dos líderes da oposição – e a vantagem de ter apenas 33 anos de idade e combustível para mais 40 anos de vida pública. Lula perdeu também em Fortaleza, capital que deixará de ser governada pelo PT a partir de janeiro. Perdeu também em Diadema, reduto governado pelo PT há 12 anos, onde o prefeito Mário Reali tentou a reeleição por imposição de Lula (o nome preferido de outros petistas influentes era o de José di Filippi, ex-prefeito do município) e foi preterido em favor do “novo” representado pelo jovem Lauro Michels (PV), de apenas 30 anos de idade. Outra aposta mal sucedida de Lula foi na candidatura do economista Márcio Pochmann, em Campinas. Neófito nas urnas, Pochmann é professor da Unicamp e foi escolhido por Lula para presidir o Ipea. Neste ano, Lula o indicou como candidato em moldes muito parecidos com os da escolha de Haddad em São Paulo. Pode ser que ele ainda se torne um nome viável, mas ainda não foi dessa vez. Outro ex-ministro de Lula derrotado foi Patrus Ananias, em Belo Horizonte, a despeito da dedicação pessoal da presidente Dilma em apoiá-lo, de modo que nem tudo que Lula toca vira ouro, assim como nem todo projeto novo é vencedor. Chico Buarque é quem tem razão.  

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