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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

RIP Época São Paulo


            Hoje recebi a notícia de que a Revista Época São Paulo acabou. O comunicado oficial diz que ela voltará a circular eventualmente, em datas especiais, no ano que vem. Fato é que a equipe foi inteiramente desarticulada, com mais de uma dezena de demissões.
            Trabalhei por cinco anos na redação de Época São Paulo, entre janeiro de 2008 e dezembro de 2012. Fui repórter e editor, durante períodos equivalentes. Aprendi muito nessa temporada e posso dizer que curti cada apuração realizada e cada fechamento, dos mais divertidos aos mais desesperadores. Nessa semana, completei um ano fora da revista — e registrei há exatos dois dias a saudade que sinto da velha casa num post no Facebook.
            Atribuo essa saudade basicamente a três fatores. O primeiro deles é a oportunidade de fazer parte de uma equipe fundadora. Pisei pela primeira vez no sexto andar do prédio quatro meses antes de ver a primeira edição chegar às bancas. Foram quatro meses de expectativa e muito trabalho. Medo e delírio no Jaguaré. Só quem teve, como eu, a experiência de presenciar o nascimento de um título, seja como diretor ou como estagiário, sabe a dor e a delícia de ver um projeto tomar forma, inventar seções, inaugurar conceitos, sintetizar ideias.
            Também devo muito da minha saudade às aventuras da reportagem. Não me lembro de ter gastado a sola de nenhum sapato, como os antigos costumavam dizer, não a ponto de enxergar furos ou sentir o calor do asfalto atravessar a borracha. Mas gastei muita caneta bic, a ponto de esfregar o refil de tinta com as mãos para tentar extrair dele mais algumas anotações no bloquinho antes de ser obrigado a sair em busca de uma caneta substituta. Gastei, também, muito olhar, muito olfato, muita audição, um volume razoável de lábia e um bom conjunto de análise nesse período. Rodei a cidade e fui rodado por ela.
            Colecionei histórias como quem costura vidas. Um rali nas obras do Rodoanel, a triste sina do operário que morreu na construção da ponte estaiada, o drama das transexuais na fila da cirurgia, as falcatruas que permitiram a inauguração do estádio do Morumbi. Aprendi um bocado sobre tatuagens e marketing político, transplante de medula e subprefeituras, slam e Adoniran Barbosa. Morei num apartamento no Centro para ver de perto a tal da "revitalização", me apaixonei pelas memórias da Cinelândia paulistana, percorri o trajeto feito pelo lixo desde nossas casas até os aterros sanitários e usinas de reciclagem. Fui numa balada sobre rodas, passei de barco no Tietê e dormi a última noite do hotel Ca D'Oro. Entrevistei o Lula, proseei com Frei Betto, troquei figurinhas com Renato Janine Ribeiro e farpas com o Coronel Álvaro Camilo, perfilei o Paulo Hoff. Dei risada com o Maluf. 
            Finalmente, o terceiro motivo para a saudade é, provavelmente, aquele que mais nos define e inspira, seduz e estimula, motiva e conforta: o elemento gente. Foram tantos caminhos que se cruzaram ali, parcerias construídas, amizades reveladas, trocas inestimáveis de experiência e carinho. Muitas crises e algumas vitórias. Porres. Paixões (tem casal que surgiu na redação e continua firme até hoje). Houve quem partisse para sempre. Há os que não partirão jamais. Arte do encontro. "Somos do tecido de que são feitos os sonhos", escreveu Shakespeare. "O tempo é a substância de que sou feito", rebateu Jorge Luis Borges. Época São Paulo foi isso: tempo e sonho, simultaneamente.
            Hoje, preparo uma dissertação de mestrado sobre revistas de cidade, na qual Época São Paulo deverá desempenhar um papel primordial, quiçá o principal, em razão do meu envolvimento com ela e meu conhecimento sobre os meandros de sua trajetória. Ao deixar a revista, em 2012, eu era o último remanescente da equipe fundadora, o que faz de mim seu membro mais longevo, o único que, sobrevivendo aos três diretores que a revista teve, testemunhara o rodízio de todos os profissionais, em todos os postos. Mas a ideia, ao abordar a Época São Paulo como exemplo de erros e acertos, e principalmente de proposições para o futuro, sempre foi me debruçar sobre uma revista atual, contemporânea, e não sobre um título extinto, um ex-título, que já não há. Escapa-me, de certa forma, o objeto: liquefez-se, como Bauman. E folheio editoriais como se, assim, cumprisse o ritual milenar de "beber o defunto".
            "A revista que São Paulo merece", sintetizou Paulo Nogueira, então diretor editorial da Editora Globo, na carta ao leitor publicada na primeira edição. "Desde seu lançamento, Época São Paulo apontou um novo caminho para o jornalismo de cidades no Brasil. Nada de subestimar o leitor", escreveu Alexandre Maron, o primeiro diretor da publicação, no editorial do número 6. E acrescentava, no mesmo parágrafo, antes de anunciar que aquela seria sua última edição à frente do título: "Oferecemos uma revista linda, com reportagens mais longas e profundas, para quem gosta de ler. Nosso roteiro é visualmente impressionante e valoriza toda a experiência do jantar ou da diversão com amigos e família. Na esteira dessa qualidade, nos tornamos um enorme sucesso comercial. Tenho orgulho das conquistas desta equipe."
            Seu sucessor foi Ricardo Alexandre, que disse o seguinte no editorial da 12ª edição: "Muito se discute sobre o futuro das revistas, especialmente desde que a internet chegou, virando tudo de cabeça para baixo. Mas parece consenso que o caminho para as revistas de papel é fugir da briga direta com o universo on-line. A internet tem a rapidez, a agilidade, a multimídia, a interação. O papel tem a profundidade, o charme, a autoridade. Nós, de Época São Paulo, queremos ter o melhor dos dois mundos."
            Os militantes de Época São Paulo percorreram esse objetivo por 67 edições. No editorial da última edição, sem saber da iminência do desfecho, o diretor Celso Masson citou uma enquete feita no site da revista com a pergunta "O que você gostaria de ganhar neste Natal?". Se a campeã entre as respostas foi uma viagem à Europa, o segundo lugar foi conquistado por uma alternativa inusitada: um abraço. "A grande surpresa foi constatar que 14% dos que responderam à enquete gostariam de ganhar um abraço", escreveu ele. "Símbolo de carinho, acolhimento e afeição, o abraço desejado pelos internautas pode ser entendido como uma declaração de paz num ano marcado por ondas de violência de um tipo inédito na cidade". Logo adiante, no parágrafo seguinte, profetiza o canto do cisne: "Talvez a opção pelo abraço seja, ainda, a esperança de que dias melhores virão. Tomara que venham mesmo."
            Aos mais de 50 profissionais que fizeram Época São Paulo e conviveram comigo nos corredores da revista a longo dos cinco anos em que estive lá, deixo também meu abraço. E faço coro com os votos de Celso Masson. Tomara.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Entra e sai de artilheiros


As melhores equipes estão sempre em mutação. É preciso substituir quadros, adquirir novos talentos, promover a alternância de poder. É preciso, também, reconhecer quando a casa ficou pequena demais para quem merece alçar voos mais altos – e, nesses casos, há que se resignar com a perda inevitável, um pouco como os pais que veem o ninho vazio após a partida dos filhos. A regra é clara. Vale para o futebol, vale para o mundo da política, e vale também para o jornalismo. As redações, diferentemente dos diamantes, não são eternas. Nem as mais preciosas delas.


Nesse fim de tarde de sexta-feira, véspera de Carnaval no Brasil – e também no Jaguaré, onde fica a redação da Época SÃO PAULO – misturo saudade e carinho para escrever esse post (sobre times que mudam, sobre diamantes que se vão). A partir da próxima quinta-feira, dois repórteres-artilheiros terão alçado seus voos. Deixarão vazias as cadeiras à minha esquerda e à minha frente. Os dois me acompanham desde minha estreia como editor, em setembro de 2011, e me ajudaram a construir o pouco que sei sobre gestão de pessoas e coordenação de equipe. Antes disso, Eduardo já era repórter da revista, meu colega de apuração e escrita. Rafael veio de quatro anos na Época NEGÓCIOS para a vaga que eu ocupava antes de assumir a edição. Nosso time, enxuto e inquieto, se completava com Nathalia, integrante mais antiga da revista, aonde chegou como estagiária, antes de sair o primeiro número. Desde então, todos crescemos. Aprendemos. Criamos. Fizemos o que é natural a todas as pessoas: não terminadas, elas afinam e desafinam, como nos contou Guimarães Rosa.
Vizinha de mesa por tantos anos, Nathalia foi a primeira grande baixa, em outubro passado. Voou em direção à editoria de comportamento da Época, cheia de planos de fazer hard news e conhecer, por dentro, o ritmo de uma revista semanal. Nesta semana, saíram os outros dois. Eduardo recebeu um convite generoso do Meio&Mensagem. Rafael, que recentemente fora promovido a editor assistente, vai cobrir tecnologia na Época. Minha satisfação é saber que todos tiveram seus trabalhos valorizados e reconhecidos. Selecionados, como foram, num mercado tão disputado como é o nosso, partem com a altivez e a paz de espírito de terem combatido um bom combate, com ânimo renovado para combater muitos outros. O sabor da vitória também é meu. Se nossa revista serviu de vitrine, reivindico solenemente um quinhão desse bom resultado amealhado (um quinhão miúdo, voilá, uma “caixinha” de 10%...).
O baque virá aos poucos. Na próxima quinta-feira, vou estranhar as ausências. A ausência do Edu será a ausência de suas risadas, de seu pescoço esticado para conseguir me olhar de trás de seu PC, a ausência de sua aflição às vésperas do fechamento, com duas ou três matérias para entregar. A ausência do Rafa será a ausência de sua agitação, de seu tom de voz elevado (com um persistente sotaque carioca), das sugestões de pauta que ele me apresentava, incansável, duas ou três vezes por dia, da sua saudável disposição para aprender coisas novas o tempo todo.
Dizem que é um ciclo que se fecha. Eu digo que os ciclos não fecham. Eles se sucedem, e se tangenciam, e se entrelaçam, como argolas de uma corrente – ou como um espiral. Veio a Denise, em dezembro, para a vaga da Nathalia, com o entusiasmo de quem já namorava a Época SÃO PAULO, à distância, há mais de um ano e meio. É dela metade da matéria de capa da nossa próxima edição, que sai no dia 25. Já nos próximos dias, aporta por aqui a Fernanda, sangue novo na Editora Globo, ex-Veja online. E logo completaremos o time, com novos atletas, aquecidos e preparados para a próxima temporada. Estarei por aqui quando essa nova leva também alçar voo, deixando carinho e saudade?

domingo, 3 de outubro de 2010

Dois pesos...

O Estado está sob censura há 429 dias. A informação está lá, impressa em um quadradinho encaixado num canto de página do primeiro caderno. Os diretores do jornal ainda não se cansaram de publicar, diariamente, o cálculo atualizado do tempo da censura. A estratégia pode ser justificável em tempos paranóicos como os nossos, quando as bravatas do presidente (nos estertores de seu segundo mandato) provocam arrepios nos zeladores da democracia. O que espanta é descobrir que os mesmos jornalões que garimpam indícios autoritários nos discursos de ministros - e se esforçam em divulgar ilações sobre um eventual controle da mídia - mostram as garras na hora de impedir a liberdade de imprensa daqueles que os vigiam e combatem. Censura é coisa boa quando serve a nossos propósitos, parece reconhecer a direção da Folha de S. Paulo ao interromper, com amparo judicial por meio de antecipação de tutela, a veiculação do site Falha deS. Paulo, sátira inaugurada em meados de setembro pelos irmãos Lino Ito Bocchini (jornalista da revista Trip) e Mario Ito Bocchini.
A alegação, evidentemente, foi de uso da marca. Tal expediente permite ao jornalão prescindir de maiores discussões, apelações ou análise do mérito. Logomarcas e tipologias são protegidas por lei, e não se fala mais nisso. Toda sátira, entretanto, pressupõe utilizar o objeto principal como plataforma para digressões e criações, de forma espirituosa ou ácida, a depender do escopo da crítica pretendida. Designers de camisetas são craques nisso, acostumados a transformar o logo da Puma em apologia ao cigarro ou a adicionar as palavras "duma égua" após o logo da Fila. Nascidos da fusão editorial dos irreverentes Planeta Diário e Casseta Popular, nos anos 1980, os humoristas do Casseta & Planeta não estariam aí até hoje não fosse a vasta habilidade em produzir paródias.

Um jornal como a Folha poderia ter se abstido de comprar essa briga. Preferiu peitar o site, tal qual um Golias enfurecido. Os autores da Falha, sem combustível para arriscar o pagamento de multa diária de R$ 1 mil, retiraram o site do ar, deixando apenas um último registro de indignação. Poderão retomar o projeto, se assim quiserem, e manter grande parte do conteúdo produzido em suas duas semanas de vida, até o assassinato precoce no último dia 30, desde que retirem as referências visuais feitas ao jornal, precisamente o uso do logo. Material não vai faltar. No noticiário produzido pelo jornal, pipocam pensamentos a serem desconstruídos e manchetes a serem ironizadas. Nada como um processo eleitoral, acompanhado da erupção recente dos deliciosos #DilmaFactsByFolha (alçados aos trending topics do Twitter há cerca de um mês), para aguçar nosso olhar sobre o jornalismo que nos acostumamos a consumir. Eu prefiro acreditar que um outro jornalismo é possível.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O editorial do Estadão

Melhor assim. Em editorial publicado neste domingo, com o título "O mal a evitar", o jornal O Estado de S. Paulo declara apoio a José Serra. "Com todo o peso da responsabilidade à qual nunca se subtraiu em 135 anos de lutas, o Estado apoia a candidatura de José Serra à Presidência da República", diz o texto, "e não apenas pelos méritos do candidato, por seu currículo exemplar de homem público e pelo que ele pode representar para a condução do País ao desenvolvimento econômico e social pautado porvalores éticos. O apoio deve-se também à convicção de que o candidato Serra é o que tem melhor possibilidade de evitar um grande mal para o País."
Durante a semana anterior, em entrevista ao portal Terra, Lula havia alfinetado o posicionamento ideológico dos diários brasileiros, de maneira generalizadora, em mais um discurso recebido como sinal de destempero e autoritarismo pelas empresas de comunicação. "A imprensa brasileira deveria assumir categoricamente que ela tem um candidato e tem um partido", alardeou o presidente. "Seria mais simples, seria mais fácil. O que não dá é para as pessoas ficarem vendendo uma neutralidade disfarçada." Em resumo: Somos todos governados por um ditador que não tolera o contraditório, acusam a revista mais vendida do Brasil e seus principais jornalões. Golpista é a mídia, retribui o chefe de Estado.
Declarar apoio é prática habitual em veículos de comunicação dos Estados Unidos. Aqui, as mesmas "nove ou dez famílias" que controlam a imprensa, nas contas de Luiz Inácio, se apegam ao (frágil) conceito de imparcialidade como se dele tirassem seu sustento e dele dependesse seu faturamento anual. Bobagem. A opção é sempre evidente. Sem adentrar no âmbito dos motivos e das intenções, sabemos perceber quando a Carta Capita e a IstoÉ se inclinam em favor de Dilma e quando Serra é incensado por Veja e Época, para além dos jornalões. Suzana Singer, ombudsman da Folha, tem razão quando reclama, na edição deste domingo, que Dilma e Serra perderam espaço na cobertura jornalística em favor de uma batalha travada entre o presidente e a imprensa. "Quem perde com esse debate turvo é o eleitor não militante, que gostaria de saber um pouco mais sobre o que pensam os candidatos e o que pretendem fazer", diz o texto. A mesma ombudsman concorda que "os críticos à Folha têm razão quando afirmam que o noticiário está mais negativo a Dilma do que a Serra" e que "no afã de esmiuçar a biografia da candidata do governo, fatos sem importância ganharam destaque indevido". São os ônus de liderar as pesquisas e representar o governo em exercício. Imprensa, no Brasil, é quase sempre oposição - e isso valia para Fernando Henrique Cardoso, Itamar Franco e Fernando Collor. O chato, o ruim, o triste, é vislumbrar uma oposição irresponsável e rancorosa, como muitas vezes foi a atitude do mesmo presidente Lula em tempos de oposição - e que a história mostrou equivocada e contraproducente.
O Estadão fez bem em declarar quem é, afinal, seu candidato. Agora só falta o resto da imprensa "imparcial" fazer o mesmo.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Demônios!

Um mês atrás, publiquei na Época São Paulo uma reportagem sobre a música "Trem das Onze", composta por Adoniran Barbosa e gravada pela primeira vez, em 1964, pelos Demônios da Garoa. Duas semanas depois, a DPZ, agência de publicidade que cuida da conta da revista, procurou o grupo com a proposta de contratá-los para gravar a música da nova campanha da revista. O resultado já está no ar, num vídeo divertidíssimo que percorre alguns dos cartões postais da cidade com irreverência e inteligência. Confiram:


terça-feira, 13 de abril de 2010

Psicografando esperança

Fui assistir à cinebiografia do Chico Xavier. Já pro finalzinho do filme, na cena em que o personagem de Toni Ramos chega em casa depois do trabalho, as comportas cederam e um catártico sumidouro, surgido sabe-se lá de onde, me fez imergir em lágrimas e caretas. Foi uma espécie de recorde nos meus trinta anos de público: pela primeira vez, chorei em dois filmes em um intervalo inferior a dois meses. Deve ser o climatério, pensei, segundos antes de lembrar que homem não vive essas experiências, muito menos aos trinta anos. Ninho vazio, foi a segunda hipótese que apresentei a mim mesmo, embora ainda não tenha filhos, menos ainda em idade de sair de casa.


O filme é bom. Uma espécie de poderosa revelação para leigos como eu - que pouco sabia da vida do médium e nunca estudei a fundo os meandros da psicografia e das incorporações. Devia tê-lo feito mais cedo. E, para ser sincero, oportunidades não me faltaram. Meu avô era espírita, um irmão caridoso que ajudou a fundar um centro em sua cidade e que, presidente de mesa, dedicava duas ou três noites por semana às atividades do local: grupos de estudos, passes, seções, "trabalhos". Por mais de cinco anos, conciliou o expediente como fotógrafo (era dele o único estúdio da cidade, onde toda a população ia tirar retratos para documentos, revelar negativos e contratar seus serviços para batizados e casamentos) com a função de supervisionar as obras de um orfanato construído e mantido pelo centro, acho que até hoje. Infelizmente, meu avô morreu em 1999 sem que tivéssemos conversado de homem para homem sobre o assunto. Culpa minha, que nunca fiz as perguntas certas. Curiosamente, eu havia me matriculado em um curso de fotografia um ano antes de ele morrer e, meses depois, faria minha primeira exposição. Ele já não estava aqui para conferir minhas fotos e, como em relação ao espiritismo, jamais tive ocasião de bater um bom papo sobre fotografia com ele.


Voltando ao assunto do post, o que me emocionou no filme não foi a infância dura do menino Chico, a ausência da mãe ou as espetadas de garfo que levava da madrasta. Tampouco a desconfiança do pai e as injustiças cometidas por uma sociedade avessa a "bruxarias". O que me emocionou foi descobrir, ali, as proporções que uma breve mensagem pode assumir. É incrível o efeito provocado por palavras sopradas por espíritos quando atingem os ouvidos de seus pais, esposas e maridos. Quatro ou cinco linhas, às vezes, mesmo que tenham sido rabiscadas às pressas pelo médium, transformam-se no mais acolhedor dos abraços quando lidas pelo destinatário. O que toca, em Chico, não é a intensidade de seu sofrimento, mas a extensão da esperança e do conforto que ele soube transmitir a milhões de brasileiros.
Eu estive em seu velório e pude conferir seu enterro. Em junho de 2002, era repórter da ISTOÉ e fui escalado para viajar a Uberaba a fim de cobrir a comoção nacional provocada pela sua morte, justamente no dia em que, no Japão, a seleção brasileira comemorava a conquista do pentacampeonato. Cerca de 100 mil pessoas foram se despedir do mais famoso médium do mundo, que psicografou nada menos do que 418 livros em 92 anos de vida. Após dois dias em Uberaba, voltei a São Paulo com a matéria de capa. E a sensação de que, com ela, homenageava de alguma forma meu querido avô.


O filme me fez lembrar essas experiências todas. Ao voltar pra casa, corri para o fichário onde guardo as quase 300 matérias que publiquei em sete anos de ISTOÉ para reler o que havia escrito na ocasião, oito anos atrás. O primeiro parágrafo segue abaixo. Quem quiser ter acesso à íntegra do texto, clique aqui. E quem quiser assistir ao filme, não hesite em ir ainda nesta semana. Vale pela obra e pela obra por trás da obra.
"Manhã de segunda-feira em Yokohama, noite de domingo em Uberaba, no triângulo mineiro. Enquanto a delegação brasileira voltava da farra e preparava as malas para deixar o Japão, Chico Xavier iniciava também sua última viagem. Vivo, o médium mais famoso do Brasil anunciou seu desejo de morrer em um dia em que o País estivesse em festa. No dia 30 de junho, como se quisesse aproveitar a oportunidade, Chico Xavier quis saber o resultado da Copa e manteve-se sereno o resto do dia. Percorreu cada ambiente de sua casa, visitou todas as salas da Casa da Prece – o centro onde promovia sessões de psicografia, a escrita de mensagens ditadas por espíritos –, e se recolheu logo após o jantar. Em menos de dez minutos, uma parada cardíaca selou sua trajetória neste planeta. Como dizem os espíritas, Chico Xavier desencarnou, aos 92 anos, para permanecer em espírito entre os compatriotas."

quarta-feira, 17 de março de 2010

Um poste no caminho

Pesquisa CNI/Ibope divulgada hoje coloca Serra com 35% dos votos e Dilma com 30%. Finalmente, a disputa eleitoral começa a esquentar, prometendo boas derrapagens e alguns acidentes no meio do caminho. Faz lembrar os melhores momentos de Senna e Prost - embora não dê para saber quem é o Senna e quem é o Prost na corrida que ora se apresenta. Os carros ainda estão longe da reta de chegada, mas já dá para sentir a catimba e as armadilhas que um reserva para o outro.

Intenção de voto estimulada para Presidente (CNI/Ibope)
Sabe quando um carro de corrida aproveita o vácuo para pegar embalo na cola do adversário? Numa pesquisa eleitoral, o mesmo princípio ganha o nome de empate técnico. Cinco pontos percentuais atrás de Serra, a candidata do presidente Lula ainda não pode se considerar empatada com o líder da oposição (a pesquisa tem margem de erro de dois pontos para baixo e para cima). Mas ninguém duvida que o empate deve pintar em breve. Por enquanto, os números do Ibope ratificam o resultado divulgado recentemente pelo CNT/Sensus, cuja pesquisa dava seis pontos de vantagem para o governador paulista. E ratificam, também, o caráter plebiscitário, com jeitão de referendo, esperado para a eleição deste ano. Os índices do voto espontâneo, etapa da pesquisa em que o entrevistado revela seu candidato sem ver a lista de nomes, são ainda mais surpreendentes no que se refere ao desempenho da ministra da Casa Civil. Pela primeira vez, ela foi mais lembrada do que o concorrente mais próximo:

Intenção de voto espontânea para Presidente (CNI/Ibope)
Mais uma vez, Luiz Inácio Lula da Silva aparece no topo - um detalhe que não diz muito diante do histórico brasileiro de transmissão de votos, mas que indica os píncaros a que Dilma pode chegar, dependendo de sua autonomia de voo. Autonomia, no caso, está longe de ser a qualidade mais forte da candidata. Pelo menos é assim que a imprensa e o próprio Partido dos Trabalhadores têm buscado caracterizá-la, talvez de maneira proposital, induzida, como estratégia para fazer colar a imagem de continuadora mecânica: uma espécie de Lula de saias que celebrará a missa conforme a cartilha de seu mestre. "Com Dilma, pelo caminho que Lula nos ensinou", dizia um painel gigantesco fixado ao fundo da tribuna que confirmou a candidatura da ministra no mais recente congresso nacional do PT. Episódios como esse ajudam a disseminar a ideia de uma candidata sem sal, sem visão e sem projetos. Uma sombra fadada ao fracasso como foram Luiz Antonio Fleury Filho (sucessor de Orestes Quércia no governo do Estado que acabou marcado pelo massacre de 111 detentos na penitenciária do Carandiru) e Celso Pitta (prefeito de São Paulo conhecido pelo escândalo dos precatórios e outras denúncias de corrupção). Até outubro, tudo indica que muito falatório será gasto para dirimir essa dúvida: a situação tentando mostrar que Dilma tem estofo e história; a oposição tentando tachá-la de poste - como bem abordou reportagem de capa da revista Época. Do alto de seus 83% de aprovação, Lula acompanha a briga com ar confiante, certo de que a (sua) esperança vencerá o medo (de Serra).

Aprovação do Presidente Lula (CNI/Ibope)
Até agora, o candidato do PSDB não deslanchou. Nem assumiu a candidatura, apesar de reafirmar nos bastidores seu compromisso com a tarefa. A essa altura do championship, trocar a disputa federal pela reeleição estadual seria uma espécie de suicídio político, coisa que ele não fará. O noticiário tem batido na tecla de que ele só espera o lançamento do novo PAC para se lançar, uma estratégia para que seu anúncio não seja ofuscado pela oponente mais forte. Agora, se Lula vencer o desafio de colar sua imagem na de Dilma, como já parece ocorrer, será preciso um golpe de sorte para que nada ofusque seu esperado anúncio. Especialista em emplacar axiomas nas manchetes dos jornais, ao defender o regime castrista ou apresentar ao planeta um inédito "vírus da Paz" (que ele teria contraído no útero materno), só mesmo um acordo de cavalheiros firmado com a cúpula do PSDB poderá conter, por um dia ou dois, a incontinência verbal de "Santo Lula". Aguardaremos.

domingo, 14 de março de 2010

Sabático

Sou um cara meio antiquado. Careta, talvez. Um homem de trinta anos que dorme de pijama, curte João Gilberto, chama milkybar de "lolo" e nunca tomou energético. Os tons grisalhos se estendem também a meus livros e autores preferidos, irremediavelmente imersos em uma fina camada de poeira (como eu).


Embora recorra com certa frequência a best-sellers contemporâneos - e minha biblioteca esteja cheia de anjos, demônios e caçadores de pipas - não há labradores nem vampiros capazes de superar, na minha retrógrada predileção, os desajustados de Rosa, os funcionários públicos de Machado e as deliciosas amantes de Jorge Amado.
Sou um conservador apaixonado por livros, daqueles que têm "o olho maior que a barriga", adquirem mais do que conseguirão consumir pelo resto da vida e têm enorme dificuldade em se desfazer deles. Minha casa, aliás, está cada vez menor por conta disso. Gosto, também, de vasculhar o íntimo desses livros e autores, entender o contexto em que as obras foram escritas, verificar o que a crítica publicou na época da primeira edição, saber quem era casado, quem era homossexual, quem flertava com os russos, quem mantinha relações espúrias com a ditadura de Getúlio. Escritores são, direta ou indiretamente, cronistas por excelência de seu tempo. Há os jornalistas, é claro. Mas nenhum de nós tem o hábito de folhear, numa manhã qualquer de quinta-feira, um exemplar da Folha da Manhã ou da Província de São Paulo prensado em 1914, embora qualquer um possa esticar o braço e alcançar, na prateleira, um exemplar de Quincas Borba, lançado de 1891.
Antiquado que sou, tenho alguma reserva ao pensar em livros digitais. Nem o nome desses aparelhinhos eu guardo. Foi a Amazon que lançou, recentemente, como chama mesmo? A Apple respondeu em seguida com uma plataforma semelhante, deus do céu, qual o nome? Você, leitor, deve saber melhor do que eu. O fato é que ainda não peguei nenhum deles na mão. Curiosidade não me falta. Uma curiosidade descrente, é claro, como quem admira um quadro que jamais colocaria na própria sala. Posso estar errado. Normalmente estou. Mas, por enquanto, acho divertidíssima a ideia de levar ao banheiro uma tela dessas - para, quem sabe, ler ali um texto escrito há mais de cem anos. Ou mil.


O Estadão deste sábado trouxe um novo caderno de literatura. Na primeira edição do Sabático, o mesmo assunto foi abordado em uma entrevista com Umberto Eco, autor de um livro sobre o fim do livro. Para ele, essa fixação é conversa-mole, papo-furado de jornalista. ""O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais", disse o autor de Nome da Rosa. Da mesma forma que a serra elétrica não acabou com o machado e a televisão não liquidou o cinema, as novas tecnologias não substituirão o livro convencional na concepção de Eco. Gosto de pensar assim, com a mesma intensidade que gosto de dobrar a pontinha da folha, de grifar uma frase que me chama atenção, de ouvir João Gilberto e dormir de pijama.
O Sabático dialoga muito bem com esse público ultrapassado do qual faço parte. Gostei especialmente de uma seção publicada na página 3, que trouxe fragmentos de uma resenha publicada no mesmo Estadão em 1956. Assinada pelo mestre Antonio Candido, discorre sobre a primeira edição de Grande Sertão: Veredas, o romance corajoso e insuperável de Guimarães Rosa. "Estupenda visão do mundo e a inquietude interior elaboradas ao longo do seu fluxo de aloquencia e poesia", assinala o crítico. "(No livro) o aproveitamento literário do material observado na vida sertaneja se dá 'de dentro pra fora', no espírito, mais que na forma", acrescenta. Tomara que essa seção, "Do Suplemento Literário", seja preservada nas próximas semanas.
O escorregão do caderno, penso eu, foi manter quase inalteradas a sisudez e o marasmo do Cultura. A seção "Estante", com dicas de lançamentos, continua presa ao academicismo (e ao pedantismo) de publicações pouco palatáveis ao brasileiro comum. As duas matérias principais da edição são dedicadas a Umberto Eco, 78 anos, e ao poeta Manoel de Barros, 93, ambos entrevistados pelos jornalistas da publicação. Entre as resenhas, a maior delas é dedicada ao relançamento de um romance de Liev Tolstói concluído em 1905, quando o russo tinha 82 anos.
O que eu questiono aqui não é, evidentemente, o valor desses livros e autores, mas a opção do jornal em valorizar demasiadamente autores octagenários, já tão conhecidos, num país que carece de incentivos à nova geração. Será que só Umberto Eco, Manoel de Barros, Guimarães Rosa e Tolstói fazem boa literatura? Será que há um limite mínimo de idade para ingressar no puído mundo do novo caderno? O que eu gostaria mesmo era de saber dos bons autores que estão pintando por aí, da molecada que manda bem, e que o jornal tivesse a ousadia de dedicar espaço também a eles. Se não, quando eu comprar meu kindle - lembrei o nome! - não terei nada além de Machado e Tolstói para baixar.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Prenderam o Lula

Foi em 1980, no dia 19 de abril, quando o presidente da República ainda era apenas um presidente de sindicato. Trinta anos antes de se tornar "o cara" e ter sua biografia registrada no panfleto hagiográfico de Fábio Barreto, Lula comandou a maior greve de trabalhadores do ABC Paulista, então considerado a "locomotiva" econômica do País. Historiadores e cronistas afirmam que ele soube, naquele momento, aproveitar a visibilidade conquistada para fundar um partido e dar início à ascensão política que, mais tarde, o alçaria à posição de líder mundial incontestável. Para isso, foi preciso pagar um preço: o preço de passar 31 dias detidos em uma cela do Dops.


Naquela época, fazer greve era ilegal - e quem insuflasse a desordem poderia ser taxado de subversivo e enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Foi o que aconteceu com Lula, que dividiu uma jaula de 25 metros quadrados - e um único vaso sanitário - com outros dirigentes do sindicato (eram treze na maior parte do tempo). Ao longo de 31 dias, ele trapaceou no baralho, discutiu política, virou amigo do Tuma e deixou o xadrez, escoltado por dois delegados, para assistir ao enterro de Dona Lindu, sua mãe.
Os bastidores da greve de 1980 e da prisão do Lula são os temas da minha mais recente matéria, publicada na Revista Época São Paulo de janeiro (nas bancas até esta sexta-feira). São dez páginas ilustradas com fotos históricas e documentos colhidos por mim junto ao acervo do Dops no Arquivo Público do Estado de São Paulo, entre eles a foto do prontuário (reproduzida acima), as digitais do presidente, a capa do inquérito policial e o alvará de soltura. Quem não puder adquirir um exemplar pode ler a versão online da reportagem clicando aqui.


Para fazer a matéria, tive a oportunidade de entrevistar o presidente, numa visita ao gabinete paulistano da Presidência da República (localizado no terceiro andar do prédio do Banco do Brasil da Avenida Paulista). Aproveitei os melhores trechos da entrevista para criar um vídeo, disponível no Youtube, que traz também alguns dos documentos que compõem o prontuário de Lula no Dops e imagens da greve "emprestadas" do documentário Linha de Montagem (1982), gentilmente cedidas por seu diretor, Renato Tapajós.
Olhar essa história pelo retrovisor, observar as conquistas da "classe trabalhadora" e verificar o quanto a democracia brasileira evoluiu de 1980 para cá - possibilitando o fim da ditadura, da inflação e de outros demônios - provoca uma réstia salutar de ufanismo que, mesmo que de maneira tímida, sublinha cada parágrafo da matéria. Trata-se de um período da nossa história que, como tantos outros momentos, precisam ser lembrados para jamais serem repetidos.