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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Fragmentos de um discurso eleitoral


1- Aos 23 anos de idade, Francisco Buarque de Holanda foi chamado de velho. Seguia gravando sambas enquanto outros jovens de sua idade se uniam ao redor de um projeto que ganharia o nome de tropicalismo, repleto de arroubos sonoros e estéticos. A argumentação do grupo de Caetano, Gil, Tom Zé e Capinam era de que aquele rapaz tímido de olhos azuis preferia reproduzir o que havia de mais tradicional na música popular brasileira em canções como “Ela desatinou”, “Januária”, “Sabiá” ou “Quem te viu, quem te vê”, quando a modernidade proposta por eles indicava o caminho correto da novidade. No meio da polêmica, Tom Zé disse o seguinte: “Respeito muito o Chico, afinal ele é nosso avô”. O bonitão de olhos azuis saiu-se com essa: “Nem toda loucura é genial, como nem toda lucidez é velha”.

2- Em São Paulo, essa foi a eleição do novo. Novo pra lá, novo pra cá. Primeiro, uma novidade chamada Celso Russomanno ocupou a primeira colocação nas pesquisas ao longo de mais de uma dezena de semanas. Depois veio Haddad, inventado por Lula, que consolidou a vitória. São Paulo já apostou outras vezes no novo. Escolheu uma nordestina pobre, formada nas ligas camponesas, no pleito de 1988, quando todas as pesquisas indicavam o desejo do paulistano em manter o velho. Mais tarde, escolheu o primeiro prefeito negro da capital paulista em 1996, novamente sob a égide do novo, com a diferença de que, naquela ocasião, o novo era o candidato apoiado pelo velho, favorecido por uma conjuntura de pujança econômica que lhe permitiu fazer o sucessor. Grosso modo, Kassab também era o novo ao vencer as eleições de 2008. Embora governasse a cidade havia dois anos, o prefeito era desconhecido pela maior parte da população. Muitos foram descobrir seu rosto e sua voz nos programas eleitorais daquele ano. Curiosamente, três novidades se encontraram em 2012: Russomanno, Chalita e Haddad. Uma delas foi eleita. E tem gente que ainda diz que os paulistanos são conservadores.

(foto: Paulo Pinto)

3- Se Haddad é cria do Lula, um político que está no circuito desde 1980, quando fundou o PT (ou desde 1982, quando disputou sua primeira eleição, para o governo do Estado), o mais lógico é chamá-lo de novo ou de velho? Sendo assim, como considerar a vitória de ACM Neto sobre Nelson Pelegrino em Salvador? É o velho carlismo que retorna, como o velho lulismo a São Paulo, ou o neto de Toninho Malvadeza deve ser listado no rol dos novos líderes do amanhã? Na extremidade oposta, seu oponente derrotado, tendo sido endossado pelo ex-sindicalista Jacques Wagner, quadro antigo do PT, pode reivindicar a imagem do novo? O que justifica, em 2012, a vitória de um neto de ACM, na “cidade da Bahia”, se não um desejo de retomada de valores perdidos ou o saudosismo perante um jeito de lidar com a res publica que os tais homens novos, carentes de pedigree, não conseguem ofertar? E a eleição de Arthur Virgílio, em Manaus, como explicá-la sem relativizar a iminência do novo? “São Paulo é como o mundo todo”, cantou Caetano. Mas o mundo não é São Paulo. Nem o Brasil.

4- O adversário de Haddad nessa eleição era um político de 70 anos que disputou mais eleições do que nenhum outro candidato na última década. O rosto de José Serra estava nas urnas eletrônicas em 2002, quando perdeu a presidência para Lula. Voltou aos palanques dali a dois anos, em 2004, para conquistar a prefeitura paulistana. Incansável, abandonou o cargo um ano e três meses depois da pose a fim de disputar o governo do estado, em 2006. Venceu. Dali a quatro anos, quando poderia ter tentado se reeleger ao Palácio dos Bandeirantes e apoiar a candidatura de Aécio à presidência, o desejo de ser presidente falou mais alto e, diante da ausência de um nome forte do PT à sucessão de Lula, entrou em campanha certo de que passaria a despachar no Palácio do Planalto. Perdeu para Dilma, taxada de “poste de Lula” pelos adversários. No mesmo pronunciamento em que reconheceu a derrota, anunciou: “eu voltarei”. Ontem, foi derrotado pela segunda vez para um poste de Lula.

5- Serra não perdeu para Haddad. Ele perdeu para si mesmo. Perdeu por uma sequência de erros (ou idiossincrasias) que, repudiados pela população, culminaram no fracasso de seu projeto político. Começou a perder no dia em que abandonou a prefeitura para disputar o governo do estado, no começo de 2006, mesmo tendo assinado um termo de compromisso comprometendo-se a permanecer no cargo por quatro anos. Perdeu novamente ao afirmar, repetidas vezes, que não seria candidato novamente à prefeitura de São Paulo. Nessas ocasiões, justificava dizendo que sua cabeça estava mais voltada para um projeto nacional. Perdeu mais alguns tentos ao voltar atrás, mudar de ideia, rever sua posição e, finalmente, declarar-se candidato, num momento em que seu partido não só havia marcado a data das prévias, como quatro pré-candidatos já haviam se lançado em campanha, realizando inclusive audiências regionais para discutir programas e projetos com seu potencial eleitorado. No início da campanha, liderava as pesquisas de intenção de votos – mas também era líder em rejeição. Deixou para apresentar seu plano de governo apenas no segundo turno, a 12 dias da votação; usou o “kit gay” para atacar Haddad; investiu sua artilharia para atacar o PT dos mensaleiros enquanto a maioria dos eleitores tinha olhos para o PT do Bolsa Família, do Pro-Uni e do Minha Casa Minha Vida; defendeu a gestão Kassab, avaliada negativamente por metade da cidade; foi incapaz de montar uma agenda positiva ou mesmo um discurso de oposição que, em vez de episódios da década passada, atacasse erros atuais do governo do PT, como a sucessão de apagões; desmereceu a ideia de “novidade” propalada pela campanha adversária. Saiu da eleição pior do que entrou: com menos capital político, pouca chance de se lançar em qualquer disputa daqui a dois anos, brigado com setores do partido (em especial com alguns dos pré-candidatos que se viram desrespeitados no começo do ano) e identificado com uma maneira de fazer política baseada no ranço, na raiva, na agressividade e na prepotência.

(foto: Fernando Donasci)

6- “O partido como um todo vai precisar mesmo de renovação”, afirmou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, após a apuração. Citado por José Serra como seu “melhor amigo”, FHC exerce no PSDB a influência irrefutável que apenas os mestres bem sucedidos são capazes de exercer. Há poucos meses, decretou: o candidato tucano a presidente em 2014 deve ser Aécio Neves. Agora, retoma um tom semelhante ao fazer, sobre a derrota do amigo, a mais coerente das análises. A prioridade, segundo ele, deve ser “empurrar os novos para irem para a frente”. Curiosamente, a lição é exatamente a que o PT colocou em prática, em alguns lugares mais do que em outros, já a partir de 2005, quando estourou o escândalo do mensalão. A sangria de alguns nomes históricos do partido, como os de José Dirceu e José Genoino, seguida da ruína de outros quadros considerados promissores para uma possível candidatura ao governo paulista, como Antonio Palocci e João Paulo Cunha, catalisou a abertura de espaços para que novos nomes fossem viabilizados. Lula foi o primeiro a ter a agilidade de perceber o quanto isso exigia rapidez, e sabia que, se não assumisse uma postura mais incisiva nesse sentido, alguns dos velhos nomes petistas, por mais que agonizassem em praça pública, tentariam ainda resistir, pediriam apoio, clamariam por uma última oportunidade, recorreriam às bases, à voz rouca das ruas ou às prévias internas. Marta Suplicy quase tomou o lugar de Haddad nessa campanha. Não levou. De forma semelhante, José Serra reivindicou seu quinhão quando Bruno Covas, Andrea Matarazzo, José Aníbal e Ricardo Tripoli estavam com as prévias agendadas. Levou. Matarazzo se tornou o segundo vereador mais votado de São Paulo. Tripoli e Aníbal são deputados federais. Covas é deputado estadual, licenciado para ocupar a secretaria estadual de Meio Ambiente. Todos eles estarão em 2013 exercendo um mandato para o qual foram eleitos – e todos com um futuro mais promissor do que o de Serra.

7- Lula foi um vencedor, mas contabilizou derrotas importantes. Depois de São Paulo, talvez a cidade que mais tenha recebido sua atenção nessa jornada tenha sido Salvador, exatamente pela intenção de evitar a ressurreição do carlismo e a vitória de uma liderança do DEM com a envergadura e a disposição de ACM Neto. Ele, o baiano, sai fortalecido dessa eleição, como um dos líderes da oposição – e a vantagem de ter apenas 33 anos de idade e combustível para mais 40 anos de vida pública. Lula perdeu também em Fortaleza, capital que deixará de ser governada pelo PT a partir de janeiro. Perdeu também em Diadema, reduto governado pelo PT há 12 anos, onde o prefeito Mário Reali tentou a reeleição por imposição de Lula (o nome preferido de outros petistas influentes era o de José di Filippi, ex-prefeito do município) e foi preterido em favor do “novo” representado pelo jovem Lauro Michels (PV), de apenas 30 anos de idade. Outra aposta mal sucedida de Lula foi na candidatura do economista Márcio Pochmann, em Campinas. Neófito nas urnas, Pochmann é professor da Unicamp e foi escolhido por Lula para presidir o Ipea. Neste ano, Lula o indicou como candidato em moldes muito parecidos com os da escolha de Haddad em São Paulo. Pode ser que ele ainda se torne um nome viável, mas ainda não foi dessa vez. Outro ex-ministro de Lula derrotado foi Patrus Ananias, em Belo Horizonte, a despeito da dedicação pessoal da presidente Dilma em apoiá-lo, de modo que nem tudo que Lula toca vira ouro, assim como nem todo projeto novo é vencedor. Chico Buarque é quem tem razão.  

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Em Brasília, uma outra perspectiva


Estive em Brasília no feriado. Na agenda do fim de semana, incluí uma deliciosa visita ao Centro Cultural Banco do Brasil, onde está em cartaz uma exposição do artista holandês M. C. Escher (no caso, MC não é "mestre de cerimônia" como se tornou mandatório com o advento do hip hop, mas Maurits Cornelis apenas, embora tenha sido com o sobrenome que o mestre da ilusão de ótica e das construções impossíveis tenha ficado conhecido). Desconfio que muitos da minha geração tiveram a mesma oportunidade de conhecer algumas de suas xilogravuras e litografias, talvez em uma aula de geometria ou mesmo em jovens tardes lisérgicas entre coqueiros ou ipês. A queda d'água que culmina em um impossível caminho ascendente é uma de suas obras mais lembradas.
Parece que a exposição não está prevista para vir a São Paulo, o que é uma pena. Ver de perto cada uma de suas criações é um grande barato. Deu vontade de ter conhecido e mesmo convivido com esse senhor de cavanhaque. O que haveria dentro de sua mente? O que ele se permitiria deixar transparecer?
Antes de deixar o CCBB, assistimos, Aline e eu, a um vídeo em 3D que busca desconstruir seu processo criativo e apresentar cada uma de suas construções da maneira como ela de fato seria se pudéssemos circundá-la de helicóptero. E, evidentemente, não pude deixar de tirar uma foto gaiata, imitando o famoso auto-retrato do mestre holandês. Porque Escher é assim: ele nos inspira gaiatices e irreverências. Nada melhor para voltar ao trabalho renovado.
Na mesma noite daquele domingo, os jornais confirmaram o que eu já imaginava ouvir: Dilma Rousseff foi eleita a primeira presidente do Brasil, a primeira mulher a comandar o país desde que uma princesa de nome Isabel rendeu o pai no governo do império e entrou para a História como a libertadora dos escravos ao assinar a Lei Áurea. A eleição da ex-guerrilheira que jamais havia disputado um cargo eletivo, mas que dedicou uma vida a cargos técnicos da administração pública diz muito do que se espera dos próximos quatro anos. Menos bravatas e menos teatro, na comparação com o eterno protagonista Luiz Inácio Lula da Silva, e mais resultados.
A eleição de Dilma vem recheada de simbologias. É a primeira mulher, como destacado em todos os jornais, mas uma mulher mais durona do que muitos homens e menos afeita a vaidades femininas do que o usual. É também a primeira representante da geração da resistência, que flertou com o marxismo e pegou em armas para combater a cassação das liberdades individuais promovidas por um regime militar sanguinário a partir do final dos anos 1960. É, no retrovisor, uma pessoa com mais estudo e mais habilidade em tomar decisões do que seu antecessor no cargo, o que pode ser um alívio para aqueles que, como eu, costumam se irritar quando o jogo de cena supera a ação e a "encheção de linguiça" vira expediente estrutural na condução de políticas públicas e na investigação de corrupção. Sem o carisma de Lula nem o partido nas mãos, Dilma Russeff terá inevitavelmente de assumir uma postura mais diplomática e humilde, muito embora tenha a seu favor um sentido de soberania que parece trazer desde o berço e, ainda mais relevante, uma inédita maioria no Congresso, que não deverá ser desperdiçada.
O que tudo isso tem a ver com Escher? Eu diria, correndo o risco de forçar a amizade, que ele nos ensina a olhar o mundo com outros olhos, a questionar o tempo todo o que aparece à nossa frente, a duvidar do que se pinta no papel e de todos os elementos empregados pelas instituições clássicas para nos acondicionar a uma única visão das coisas. Também a eleição de Dilma me parece um lampejo de nova perspectiva. E eu torço por ela.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O aborto e o retrocesso

Eu sou a favor da descriminalização do aborto. Também sou favorável à adoção de crianças por casais homoafetivos, ao uso de preservativos e ao sexo antes do casamento, embora nada disso venha ao caso. Conheço algumas mulheres que abortaram e posso afirmar que nenhuma delas tem orgulho do que fez. A opção pelo aborto não é coisa à toa, como escolher um restaurante ou um DVD na locadora. Na totalidade dos casos, é beco sem saída, decisão extremada, eleição do "mal menor" diante de um cenário sem perspectiva. Sou a favor da descriminalização do aborto e, também, a favor da vida. As duas coisas não são excludentes como insistem os inquisidores de batina e as campanhas eleitorais. Sou a favor de uma vida mais digna para a mãe solteira que se descobre grávida do quinto filho quando a comida não chega para os quatro primeiros. E, principalmente, sou a favor de um atendimento ambulatorial decente a quem, sem o amparo da lei, continuará recorrendo a agulhas de crochê em latrinas coletivas e banheiros de rodoviária.
No Brasil, aborto é coisa corriqueira. Os ricos encontram amparo em clínicas bem aparelhadas e consultórios ginecológicos na Vila Madalena ou na Avenida Brasil. Se acontece com a filha adolescente, logo as mães se telefonam, pedindo indicação às amigas, porque há sempre uma sobrinha que passou por isso no ano passado, ou a nora. É preciso agir rápido para que o feto não chegue à décima segunda semana. E discretamente, para que ninguém fique sabendo. Bastam dois comprimidos de cytotec, um via oral e outro introduzido na vagina. Alguns médicos recomendam dobrar a dose: dois por cima, dois por baixo. Pronto. Quem não tem cytitec caça com agulha. E tome sermão religioso para causar ainda mais dor e arrependimento. Muitas vezes, não dá nem tempo de esperar o sermão e conviver com os fantasmas de um Deus severo e vingativo: a morte chega antes, travestida em hemorragia interna. Quem é mesmo a favor da vida?

Não sou a favor do aborto, mas a favor da descriminalização dele. Nenhum estudo consistente conseguiu provar, até agora, que a legalização da prática faria intensificar sua ocorrência. O que se sabe é que centenas de meninas deixariam de sangrar até a morte, sem assistência, nos grotões dos morros e dos sertões. Aborto é questão de saúde pública, não pode ser tratado como dogma cristão ou trampolim eleitoral. Muito me espanta o uso que tem sido feito do assunto na campanha deste ano. Em primeiro lugar, porque aborto é questão legislativa, impossível de ser alterada por decisão do executivo e totalmente fora da pauta. O PT está há oito anos no governo e jamais colocou o assunto na agenda; por que o faria agora? Em segundo lugar, porque esse debate, da forma como tem sido conduzido, tem causado um retrocesso enorme do ponto de vista cultural e político, patrocinado pelos mesmos setores da elite que se dizem progressistas no que tange os princípios da sustentabilidade e do liberalismo econômico. Tudo isso é muito triste. Faz encolher as liberdades individuais e amplia a tutela de um Estado cada vez mais refém da religião, do atraso e do falso moralismo. Se um segundo turno é sempre benéfico para o processo democrático, corremos o risco de desperdiçá-lo em nome de picuinhas babacas, conservadoras e totalmente fora de propósito.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Espontânea

Gilberto Gil cantou, na música "REP", o seguinte refrão:
O povo sabe o que quer
mas o povo também quer o que não sabe.
Nunca antes na história deste país a frase fez tanto sentido.
Basta observar com alguma atenção o resultado da mais recente pesquisa de intenção de voto feita pelo Datafolha e publicada no sábado, dia 17.

Se oriente, rapaz - alertou o mesmo ex-ministro em outra canção.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Um poste no caminho

Pesquisa CNI/Ibope divulgada hoje coloca Serra com 35% dos votos e Dilma com 30%. Finalmente, a disputa eleitoral começa a esquentar, prometendo boas derrapagens e alguns acidentes no meio do caminho. Faz lembrar os melhores momentos de Senna e Prost - embora não dê para saber quem é o Senna e quem é o Prost na corrida que ora se apresenta. Os carros ainda estão longe da reta de chegada, mas já dá para sentir a catimba e as armadilhas que um reserva para o outro.

Intenção de voto estimulada para Presidente (CNI/Ibope)
Sabe quando um carro de corrida aproveita o vácuo para pegar embalo na cola do adversário? Numa pesquisa eleitoral, o mesmo princípio ganha o nome de empate técnico. Cinco pontos percentuais atrás de Serra, a candidata do presidente Lula ainda não pode se considerar empatada com o líder da oposição (a pesquisa tem margem de erro de dois pontos para baixo e para cima). Mas ninguém duvida que o empate deve pintar em breve. Por enquanto, os números do Ibope ratificam o resultado divulgado recentemente pelo CNT/Sensus, cuja pesquisa dava seis pontos de vantagem para o governador paulista. E ratificam, também, o caráter plebiscitário, com jeitão de referendo, esperado para a eleição deste ano. Os índices do voto espontâneo, etapa da pesquisa em que o entrevistado revela seu candidato sem ver a lista de nomes, são ainda mais surpreendentes no que se refere ao desempenho da ministra da Casa Civil. Pela primeira vez, ela foi mais lembrada do que o concorrente mais próximo:

Intenção de voto espontânea para Presidente (CNI/Ibope)
Mais uma vez, Luiz Inácio Lula da Silva aparece no topo - um detalhe que não diz muito diante do histórico brasileiro de transmissão de votos, mas que indica os píncaros a que Dilma pode chegar, dependendo de sua autonomia de voo. Autonomia, no caso, está longe de ser a qualidade mais forte da candidata. Pelo menos é assim que a imprensa e o próprio Partido dos Trabalhadores têm buscado caracterizá-la, talvez de maneira proposital, induzida, como estratégia para fazer colar a imagem de continuadora mecânica: uma espécie de Lula de saias que celebrará a missa conforme a cartilha de seu mestre. "Com Dilma, pelo caminho que Lula nos ensinou", dizia um painel gigantesco fixado ao fundo da tribuna que confirmou a candidatura da ministra no mais recente congresso nacional do PT. Episódios como esse ajudam a disseminar a ideia de uma candidata sem sal, sem visão e sem projetos. Uma sombra fadada ao fracasso como foram Luiz Antonio Fleury Filho (sucessor de Orestes Quércia no governo do Estado que acabou marcado pelo massacre de 111 detentos na penitenciária do Carandiru) e Celso Pitta (prefeito de São Paulo conhecido pelo escândalo dos precatórios e outras denúncias de corrupção). Até outubro, tudo indica que muito falatório será gasto para dirimir essa dúvida: a situação tentando mostrar que Dilma tem estofo e história; a oposição tentando tachá-la de poste - como bem abordou reportagem de capa da revista Época. Do alto de seus 83% de aprovação, Lula acompanha a briga com ar confiante, certo de que a (sua) esperança vencerá o medo (de Serra).

Aprovação do Presidente Lula (CNI/Ibope)
Até agora, o candidato do PSDB não deslanchou. Nem assumiu a candidatura, apesar de reafirmar nos bastidores seu compromisso com a tarefa. A essa altura do championship, trocar a disputa federal pela reeleição estadual seria uma espécie de suicídio político, coisa que ele não fará. O noticiário tem batido na tecla de que ele só espera o lançamento do novo PAC para se lançar, uma estratégia para que seu anúncio não seja ofuscado pela oponente mais forte. Agora, se Lula vencer o desafio de colar sua imagem na de Dilma, como já parece ocorrer, será preciso um golpe de sorte para que nada ofusque seu esperado anúncio. Especialista em emplacar axiomas nas manchetes dos jornais, ao defender o regime castrista ou apresentar ao planeta um inédito "vírus da Paz" (que ele teria contraído no útero materno), só mesmo um acordo de cavalheiros firmado com a cúpula do PSDB poderá conter, por um dia ou dois, a incontinência verbal de "Santo Lula". Aguardaremos.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

É só teimar (ou de como a pré-estreia do filme do Lula virou palanque)

O Presidente da República assistiu pela primeira vez, no sábado (28 de novembro), à versão definitiva do filme Lula, o filho do Brasil, que entra em cartaz a partir de 1º de janeiro. Acompanhado pela primeira-dama Marisa Letícia (ao braço direito) e pela pré-candidata à presidência Dilma Rousseff (ao braço esquerdo), Luiz Inácio Lula da Silva foi a São Bernardo do Campo prestigiar a exibição, organizada pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC com apoio da prefeitura e de empresas como a rede de cursos profissionalizantes Microlins e a marca de cosméticos Embelleze. Posou para fotos, acenou para uma plateia de quase duas mil pessoas – metade dela formada por sindicalistas e ex-sindicalistas – e, numa rara inversão de papéis, cumpriu ele mesmo o beija-mãos oficial da noite, cumprimentando, um por um, os atores e produtores do longa-metragem.


Emoldurado por um séquito de ministros e parlamentares da base aliada, Lula emocionou-se diante das cenas que retratam a morte e o enterro de sua mãe, Eurídice Ferreira de Mello (a Dona Lindu), evitou a imprensa e, prestando-se à insólita função de anfitrião-em-exercício do evento, jogou por terra as tentativas pregressas, algo quixotescas, de se disfarçar o uso político da fita. Pelo menos ali, no Pavilhão Vera Cruz – um complexo, implementado nos galpões da antiga Companhia Cinematográfica Vera Cruz, que reunirá cursos de profissionalização em audiovisual e incubadora de empresas ligadas ao setor –, funcionários do Palácio do Planalto e integrantes do PT ditaram as regras e assumiram a tarefa de transformar em palanque o que deveria ter sido apenas uma pré-estreia.

O primeiro estranhamento surgiu na semana anterior, quando se verificou que o credenciamento de jornalistas para a cobertura da noite estava sendo feito exclusivamente pelo setor responsável do Palácio do Planalto. O filme, afinal, é uma iniciativa da produtora LC Barreto ou do Governo Federal? Como justificar o fato de funcionários lotados no Executivo Federal (e pagos pelo contribuinte) dedicarem parte de seu expediente às tarefas de receber pedidos de credenciamento, conferir dados, formatar planilhas e encaminhar crachás com a rubrica verde-amarela a um evento em São Bernardo do Campo promovido, oficialmente, por uma entidade de classe autônoma sob patrocínio da iniciativa privada? É praxe, no entanto, submeter à equipe do protocolo oficial a tarefa de controlar, por motivo de segurança, o fluxo e os nomes das pessoas presentes a todas as solenidades públicas contempladas com a visita de Lula, mesmo quando não é o Planalto que as promove. Estranho costume em uma democracia.

O segundo estranhamento, que apenas amplificou os efeitos do primeiro, foi notar que todos os convidados recebiam de uma hostess, à entrada do Pavilhão Vera Cruz, um pequeno broche amarelo, ilustrado com um perímetro estilizado do mapa do Brasil e as iniciais PR, de Presidência da República, em letras maiúsculas. Seu uso era obrigatório no interior do galpão. “Coloque essa identificação e fique à vontade”, ela disse, indicando a esteira de raio-X e a equipe responsável por revistar as bolsas e pastas dos espectadores. “Deve ser PR de 'pé rapado'”, brincou um sindicalista, fazendo troça da própria insignificância numa noite em que os holofotes estariam direcionados, como de hábito, ao filho do Brasil.


O terceiro estranhamento surgiu ao dar-se início aos discursos, pouco antes das 21h, mais de uma hora após o horário marcado para o início do filme. Quando se imaginou que os realizadores do longa agradeceriam a presença e desejariam a todos bom divertimento, foi o prefeito Luiz Marinho, petista e ex-ministro de Lula, quem subiu ao palco. É verdade que a prefeitura aparece nos banners como apoiadora do evento. Mas franquear a ele o microfone e a prerrogativa de abrir os trabalhos, horas depois de ter inaugurado um espaço municipal dedicado à promoção dos direitos das crianças – batizado estranhamente com o nome da mãe do presidente, Eurídice Ferreira de Mello – pode ser interpretada como uma opção de caráter duvidoso. Fiel aliado, Marinho agradeceu a presença do cinebiografado e, na mesma frase, prontificou-se a cumprimentar a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, no que foi acompanhado por uma salva de palmas. Com a nítida sensação de missão cumprida, discorreu sobre os feitos da administração petista no campo da cultura, explicou o projeto que está sendo implementado no Pavilhão Vera Cruz e passou a palavra a Sérgio Nobre, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos.

Responsável pelo quarto estranhamento, Nobre forçou a amizade ao comparar o filme de Fábio Barreto a duas produções internacionais, as cinebiografias de Gandhi e Mandela, sugerindo a semelhança entre os líderes da Índia e da África do Sul com a do “menino de Garanhuns”. “O presidente já trouxe a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 para o Brasil; quem sabe não traz um Oscar também”, completou a exaltação, provocando uma risada afetada e milimetricamente calculada no diretor do filme.

Foi ele, Fábio Barreto, o autor do quinto estranhamento. Em seu discurso, breve e preciso, dedicou o filme a Dona Lindu, mãe do presidente, e se prontificou a soluçar no momento exato, levando as mãos aos olhos e incorporando uma pausa providencial em sua fala, motivada pela súbita emoção que sentiu ao se lembrar de uma senhora do Nordeste que ele sequer conheceu. Por fim, o que não é de se estranhar, o produtor Luiz Carlos Barreto leu ao microfone um texto que teria preparado para ocasião, no qual afirma: “Esse não é um filme político. É a história da família Silva (...), sua coragem e superação”. Será?

Em tempo: O filme não é grande coisa em matéria de cinema e deve provocar, tanto nos admiradores quanto nos detratores de Lula, uma sensação de desperdício, de que ainda está para surgir um filme à altura do personagem. Sua estética é demasiadamente fragmentada, tornando-se muitas vezes uma sucessão mal ajambrada de episódios, costurada num ritmo acelerado que sofre com a ausência de clímax e com a melodia quase ininterrupta (e maçante) de violinos e violoncelos. Há equívocos históricos, como a cena que mostra os diretores do sindicato dormindo no chão na cela do Dops em 1980 (eles dormiam em camas de concreto com colchonetes) e passagens mal conduzidas (como a da transformação do Lula alienado no Lula engajado). “Gostei do filme, mas algumas coisas estão mal contadas ali”, disse Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos na virada dos anos 1980 para os anos 1990 e atual deputado federal pelo PT. “O momento em que o Lula chora ao colocar o cargo à disposição não aconteceu na igreja logo após a greve de 1979, mas em uma assembleia no sindicato, depois de Lula passar quase um ano sendo chamado de traidor”, afirma ele, jovem metalúrgico na ocasião, citando uma cena do filme.