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domingo, 10 de abril de 2011

Cabeças dançantes

Puta que o pariu. E saber que lá se vão 35 anos... Acabo de voltar do Sesc Belenzinho, um lugar fantástico, onde tive a sorte de assistir a um show ainda mais fantástico. Por mais de uma hora, Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos, juntos, tocaram todo o repertório do disco Dança das Cabeças, um álbum antológico (e ontológico) gravado em 1976.


Enquanto a dupla exibia seu talento e sua irreverência para uma platéia de 400 privilegiados, uma fatia considerável de São Paulo preferia confluir para o estádio do Morumbi, na ânsia de rever o messias Bono Vox e seus correligionários. Fiz melhor negócio, acredito. Apesar do aspecto de messias, com o indefectível lenço na cabeça, Egberto é mago sem pompa, menestrel de prosaica sabedoria, com mais de 60 álbuns lançados e um repertório repleto de belas mensagens, sempre transmitidas por meio das teclas do piano e de seus incríveis violões de dez ou 12 cordas. Hoje, pela primeira vez, o vi tocar flauta também.


Naná é bruxo das selvas, mistura de saci e curupira que habita dentro da gente, trançando as crinas dos nossos pensamentos com assovios e batuques. Se você ainda não viu Naná dentro de você, pode ficar de tocaia e pôr reparo: mais cedo ou mais tarde ele há de aparecer.


Juntos, com a alegria e a experiência que 35 anos oferecem a quem sabe aproveitar os benefícios da idade, esses bravos guerreiros fizeram minha alma voltar para casa mais leve, mais doce, mais confiante na beleza do mundo. Porque, no fundo, é isso o que os bons músicos são: semeadores de beleza.


Se alguém aí tiver esse disco, Dança das Cabeças, por favor entre em contato. Tô a fim de garantir o meu. Por ora, o jeito é fuçar por aí para ver se encontro alguns recuerdos dessa linda epopeia sonora. Por enquanto, tudo o que encontrei foi um registro de 1996, quando os dois tocaram juntos no Parque do Ibirapuera. O vídeo é da faixa que dá título ao LP. Pena que a sensação não é nem de longe a fantástica alegria de vê-los ao vivo.


Tomara que eles voltem a tocar juntos por aí. Os fãs já estão à espera.