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terça-feira, 5 de junho de 2012

Para o seu governo

Ando escrevendo muito sobre trabalho, eu sei. Vai ver que é porque tenho trabalhado muito. Ou porque tenho estado bastante satisfeito com nossas edições mais recentes. Ou todas as anteriores. A boa notícia é que entrei de férias e farei o possível para virar o disco (como a gente dizia no tempo dos bolachões). Mas enquanto isso não acontece, faço questão de compartilhar uma das edições de Época SÃO PAULO que mais me deixou satisfeito, e que está nas bancas nesta semana.


Antes de qualquer coisa, devo contar que há um esboço de metalinguagem camuflado nessa chamada de capa: trata-se da edição número 50 da revista (a quinquagésima de que participei), o que dá uma dinâmica algo brincalhona aos algarismos garrafais ali presentes. Para marcar a data e, ao mesmo tempo, dar a largada na nossa cobertura eleitoral da maneira que buscamos fazer em todas as matérias – embalando as reportagens numa pegada editorial que procura ser sempre útil, instigante e envolvente – perfilamos todos os 13 pré-candidatos anunciados até o momento e recorremos a paulistanos de diferentes áreas, idades e profissões para reunir um dossiê com 50 sugestões para o próximo mandatário. Gente como o arquiteto Ruy Ohtake, a urbanista Raquel Rolnik, os jornalistas Eugênio Bucci e Juca Kfouri, os escritores Walcyr Carrasco e Ignácio de Loyola Brandão, as ongueiras Viviane Senna e Maria Alice Setúbal, o apresentador Serginho Groisman, o padre Julio Lancelotti, os empresários Pedro Herz e Facundo Guerra, o chef Rodrigo Oliveira e muitos outros paulistanos comprometidos, como nós, com o desenvolvimento e o sucesso dessa cidade, apresentaram suas propostas à equipe, liderada pelo editor Daniel Salles e pela repórter Fernanda Nascimento.

Um dos desenhos de Marcelo Cipis que ilustram a reportagem 

Apareceu de tudo. Enterrar os fios elétricos, transformar o minhocão em parque, criar um bulevar na Rua Augusta, instalar pedágio urbano nas vias de tráfego pesado, equipar os pátios das escolas públicas com sistema de som para tocar música clássica e MPB, criar salas para consumo seguro de crack, transformar a Virada Cultural num evento semanal e itinerante (cada vez num distrito), mudar o sambódromo de lugar para ampliar o Anhembi, criar parques lineares nas margens de todos os rios e córregos, e até converter os cemitérios em parques, transferindo os túmulos para outros locais. O pai de cada ideia? Não conto. Também não revelo as outras 40 que apareceram. Estão todas na revista – e também na versão para iPad, que pode ser baixada gratuitamente clicando aqui.

Na última sexta-feira, um dia antes de a revista chegar às bancas, almocei com um dos colaboradores da pauta, o Eugênio Bucci, e tive a oportunidade de mostrar a ele, em primeira mão, um boneco da matéria. Ele demonstrou grande entusiasmo, dizendo não se lembrar de ter visto uma matéria desse tipo antes e vaticinando boa repercussão. "Vocês montaram um verdadeiro plano de governo", ele disse. "Se um dos candidatos se comprometesse a adotá-lo, tenho certeza de que faria um excelente governo." Horas antes, eu notara uma recepção semelhante ao dar uma breve entrevista sobre o assunto para o programa CBN São Paulo, apresentado pela Fabíola Cidral na rádio CBN. Propostas como essa, na revista ou no rádio, costumam ter o maravilhoso condão de trazer os leitores e os ouvintes (eleitores de modo geral) para perto do debate, e convidá-los a também apresentar propostas, sugestões, ideias, pedidos. Seja por mais ciclovias ou por menos buracos nas calçadas. Por mais policiamento nas ruas ou menos cargos comissionados na administração municipal. A cidade é nossa. E cabe a nós a conduzirmos, muito mais do que sermos conduzidos (como bem conclama o lema gravado, em latim, no escudo do município). Isso depois de descobrir qual é o candidato que adora música eletrônica, qual já foi centro-avante do Botafogo e qual não dorme sem jogar uma partidinha de paciência no iPhone. Tá tudo lá. Boa leitura.

domingo, 3 de abril de 2011

E ainda dizem que é coisa do passado

Dá só uma olhada na foto abaixo. A moça do retrato se chama Graziella Schmitt. Tem 29 anos, é atriz, começou a carreira como paquita, atuou em Malhação e, na próxima terça-feira, fará sua estreia - de faixa no cabelo e blusa estampada - como a protagonista de "Amor e Revolução", nova novela do SBT.


No folhetim, a bela viverá a guerrilheira Maria Paixão, militante de uma organização revolucionária disposta a pegar em armas para derrubar a ditadura. Depois de servir de argumento para a minissérie "Anos Rebeldes", de 1992, o governo militar volta às telas, justamente na emissora de Sílvio Santos, o ex-camelô que sempre se esquivou de temas políticos e, por décadas, preferiu importar novelas mexicanas a investir em uma teledramaturgia nacional. Em entrevista publicada hoje no Estadão, Graziella diz "amar" o tema escolhido pelo autor Tiago Santiago, que além de dramaturgo é cientista social com mestrado em sociologia. Afirma ter feito, ainda, treinamento com armas de fogo para melhor se preparar para o papel. Antes das gravações, o elenco também participou de oficinas com a presença de ex-guerrilheiros, presos e torturados nos anos de chumbo, como Rose Nogueira e Maria Amélia de Almeida Telles, que perderam parentes na luta.

Por ser uma novela do SBT, é impossível saber de antemão se as boas intenções da atriz, do autor e do diretor serão revertidas em um produto televisivo de qualidade ou se terminarão, como muitas vezes ocorre, por ofender a inteligência dos espectadores. O que se pode afirmar, desde já, é que o assunto, ao contrário do que se diz por aí, continua presente na mente dos brasileiros, na curiosidade do público e no dia a dia das instituições. O galã da novela "Araguaia", só para citar outro folhetim em cartaz, descende, segundo a sinopse, de um guerrilheiro que atuou nos focos rurais formados no Bico do Papagaio no início dos anos 1970 pelas frentes do PCdoB.

Na semana que passou, tivemos o aniversário de 47 anos do Golpe, também chamado de Revolução de 1964 ou simplesmente de "gloriosa" pelos signatários do regime de exceção. Pouco se falou sobre o assunto na TV, o que deve, sim, ser encarado como sinal de vitória da democracia. Poucos anos atrás, havia marcha militar, salva de tiros e loas aos borbotões. Mas houve quem celebrasse a data. "31 de março de 1964: PARABÉNS FORÇAS ARMADAS, PELO ANIVERSÁRIO DO REGIME MILITAR DEMOCRÁTICO BRASILEIRO", twittou, em letras graúdas, o vereador Carlos Bolsonaro, filho do personagem mais polêmico da semana, o deputado Jair Bolsonaro - militar que entrou para a vida pública nos anos 1980 e, desde então, tem se dedicado a esculhambar negros e homossexuais. Na última segunda-feira, o programa "CQC" exibiu entrevista com Bolsonaro, na qual o deputado afirmou, entre outras coisas, que seu filho não seria "promíscuo" para se casar com uma negra. "Meus filhos foram muito bem educados", explicou (confira vídeo abaixo). Em seguida, tentou consertar e acabou se enrolando ainda mais. "A resposta dada deve-se a errado entendimento da pergunta - percebida, equivocadamente, como questionamento a eventual namoro de meu filho com um gay", justificou, em nota. As negras não são promíscuas, mas os homossexuais, sim. Triste o país que tem parlamentares como este.


Lembro que, anos atrás, foram divulgadas fotografias da porta do gabinete do deputado, na qual havia um cartaz afixado, com um desenho de um cão e a seguinte mensagem sobre a busca de ossadas no Araguaia: quem procura osso é cachorro. É esta a personalidade de Bolsonaro. Será que ele assistirá à próxima novela do SBT?


O que me dá algum alento, nessa história toda, é perceber o quanto o tema continua firme. Acabo de ler a primeira edição da revista GQ Brasil, lançada agora mesmo em abril pela recém-criada joint venture Edições Globo Condé Nast, e tive uma grata surpresa ao me deparar com a reportagem do Lucas Figueiredo sobre o Araguaia. Lucas Figueiredo é um jornalista da peste, autor de um ótimo livro chamado "Olho por Olho", no qual desvenda os meandros da produção de dois petardos editoriais compilados nos anos 1980 sobre a ditadura, um pela resistência democrática, o "Brasil: Nunca Mais", o outro pelos militares, o "Orvil". Na primeira edição da GQ Brasil, ele dirige seu olhar para o foco da guerrilha rural e revela de que maneira os coronéis cooptaram índios da região para que caçassem (e degolassem) os "paulistas", como eram chamados os comunistas aquartelados na área. Coisa boa, fruto de apuração da melhor espécie, e logo em uma publicação com chancela americana, dedicada ao público AA, entre páginas de luxo, estilo e comportamento.


Não bastasse, está em cartaz em São Paulo, no Memorial da Resistência, uma exposição sobre os 40 anos do "desaparecimento" do deputado Rubens Paiva, mais conhecido das novas gerações como "o pai do Marcelo Rubens Paiva". O parlamentar sumiu do mapa após ser preso e torturado pelas forças da repressão. Até o dia 10 de julho, a mostra perpassa sua atividade legislativa, seus últimos dias de vida, e reúne fotografias, algumas inéditas, capazes de reconstruir o legado deixado por mais uma vítima da ditadura, da qual ainda não se encontraram os ossos.  


Na GQ, nos jornais, na TV e nas redes sociais, é nítido o quanto ainda se buscam respostas para as dúvidas que ainda pairam sobre os anos de chumbo, sobre os tempos da ditadura. E ainda tem gente que diz que é coisa do passado, que não há motivos para se tocar no assunto.

terça-feira, 29 de março de 2011

Lula lá - a alegria de se abraçar


O cara já deixou a presidência faz tempo e continua causando. Lendo o post de hoje do blog do Ricardo Kotscho, fiquei sabendo que a discussão do momento é sobre a autoria do slogan "Lula lá", transformado em lema da primeira campanha de Luiz Inácio ao Planalto e adotado no jingle de Hilton Acioli que acabou virando hino de uma geração. Quem tem mais de 30 anos certamente se lembra de versos como "é a gente junto / valeu a espera / meu primeiro voto pra fazer / brilhar nossa estrela", ou ao menos do hit "sem medo de ser / sem medo de ser / sem medo de ser feliz".


Tudo porque a Folha de S. Paulo atribuiu o "Lula lá" ao marketeiro Paulo de Tarso Santos em matéria recente. E jamais publicou o desmentido de Maurício Maia, filho do gênio Carlito Maia, verdadeiro autor da marca. Foi Paulo de Tarso quem levou a frase a Hilton Acioli, o compositor responsável por criar o jingle. Ao que parece, neste episódio, Paulo de Tarso agiu como um intermediário, uma espécie de motoboy responsável por levar o mote ao glosador.


Conheci Carlito Maia, já velhinho, em uma festa do PT no início dos anos 1990. Publicitário, ele foi dos grandes criadores do partido, autor de sacadas surpreendentes como o logo "oPTei", estampado até hoje em camisetas, bonés, canetas, broches e adesivos, e o inspirador "solidaried'AIDS", disseminado em parachoques e vidros de carros ao longo dos anos 1990. Também a expressão "PT saudações", usada pelos militantes de primeira hora para assinar cartas e bilhetes, foi lançada por ele, em uma coluna que assinava na Gazeta de Pinheiros na década de 1980. A propósito, para quem nunca viu um telegrama de perto, vale explicar que pt representava ponto, da mesma maneira que vg representava vírgula, na redação truncada e sem pontuação dos velhos telegramas - de modo que "pt saudações" era assinatura corriqueira nesse tipo de correspondência.


"Lula lá", o jingle, marcou época na voz dos cantores Gilberto Gil, Djavan e Chico Buarque (vídeo acima) e também ao reunir, no programa eleitoral, dezenas de atores globais, como José Mayer, Malu Mader, Marieta Severo, Aracy Balabanian e Hugo Carvana (mais ao alto), todos em apoio à candidatura do torneiro mecânico.


Carlito, meu caro, quem viu de perto todo aquele movimento acontecer, e torceu por ele com ânimo renovado e a esperança de ver um Brasil diferente, não está nem aí para as sandices da imprensa. Certas coisas são História, permanecem para sempre nos arquivos e nas lembranças - mesmo quando um jornal erra, no afã histriônico de tentar reescrever os fatos.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O aborto e o retrocesso

Eu sou a favor da descriminalização do aborto. Também sou favorável à adoção de crianças por casais homoafetivos, ao uso de preservativos e ao sexo antes do casamento, embora nada disso venha ao caso. Conheço algumas mulheres que abortaram e posso afirmar que nenhuma delas tem orgulho do que fez. A opção pelo aborto não é coisa à toa, como escolher um restaurante ou um DVD na locadora. Na totalidade dos casos, é beco sem saída, decisão extremada, eleição do "mal menor" diante de um cenário sem perspectiva. Sou a favor da descriminalização do aborto e, também, a favor da vida. As duas coisas não são excludentes como insistem os inquisidores de batina e as campanhas eleitorais. Sou a favor de uma vida mais digna para a mãe solteira que se descobre grávida do quinto filho quando a comida não chega para os quatro primeiros. E, principalmente, sou a favor de um atendimento ambulatorial decente a quem, sem o amparo da lei, continuará recorrendo a agulhas de crochê em latrinas coletivas e banheiros de rodoviária.
No Brasil, aborto é coisa corriqueira. Os ricos encontram amparo em clínicas bem aparelhadas e consultórios ginecológicos na Vila Madalena ou na Avenida Brasil. Se acontece com a filha adolescente, logo as mães se telefonam, pedindo indicação às amigas, porque há sempre uma sobrinha que passou por isso no ano passado, ou a nora. É preciso agir rápido para que o feto não chegue à décima segunda semana. E discretamente, para que ninguém fique sabendo. Bastam dois comprimidos de cytotec, um via oral e outro introduzido na vagina. Alguns médicos recomendam dobrar a dose: dois por cima, dois por baixo. Pronto. Quem não tem cytitec caça com agulha. E tome sermão religioso para causar ainda mais dor e arrependimento. Muitas vezes, não dá nem tempo de esperar o sermão e conviver com os fantasmas de um Deus severo e vingativo: a morte chega antes, travestida em hemorragia interna. Quem é mesmo a favor da vida?

Não sou a favor do aborto, mas a favor da descriminalização dele. Nenhum estudo consistente conseguiu provar, até agora, que a legalização da prática faria intensificar sua ocorrência. O que se sabe é que centenas de meninas deixariam de sangrar até a morte, sem assistência, nos grotões dos morros e dos sertões. Aborto é questão de saúde pública, não pode ser tratado como dogma cristão ou trampolim eleitoral. Muito me espanta o uso que tem sido feito do assunto na campanha deste ano. Em primeiro lugar, porque aborto é questão legislativa, impossível de ser alterada por decisão do executivo e totalmente fora da pauta. O PT está há oito anos no governo e jamais colocou o assunto na agenda; por que o faria agora? Em segundo lugar, porque esse debate, da forma como tem sido conduzido, tem causado um retrocesso enorme do ponto de vista cultural e político, patrocinado pelos mesmos setores da elite que se dizem progressistas no que tange os princípios da sustentabilidade e do liberalismo econômico. Tudo isso é muito triste. Faz encolher as liberdades individuais e amplia a tutela de um Estado cada vez mais refém da religião, do atraso e do falso moralismo. Se um segundo turno é sempre benéfico para o processo democrático, corremos o risco de desperdiçá-lo em nome de picuinhas babacas, conservadoras e totalmente fora de propósito.

domingo, 3 de outubro de 2010

Onda verde


Muito bem. Com 56% das urnas apuradas, parece que a tal "onda verde" funcionou, contribuindo para levar a eleição para o segundo turno. Ótimo para a democracia e, principalmente, para desfazer o caráter plebiscitário do pleito deste ano. Particularmente, considero a Marina uma candidata fraca, apoiada em um partido fraco, com agenda monotemática e posições atrasadíssimas em relação a temas como o aborto, embora de extrema relevância no poder legislativo. Sua participação, no entanto, foi fantástica para o processo eleitoral e trouxe uma contribuição legítima e muito bem-vinda, com temas essenciais que não serão desprezados em um eventual governo Serra nem em um eventual governo Dilma. Espero que seus eleitores escolham a melhor posição no segundo turno. Minha maior implicância com o PV foi descobrir, em frente a meu colégio eleitoral, que, a despeito do ambientalismo praticado por seus candidatos, toneladas de santinhos foram espalhados por eles nas calçadas: o mesmo expediente idiota, sujo e nada ecológico empregado pelos adversários de pior pedigree.

Foto tirada por mim às 14h de hoje em frente à PUC de Perdizes, em São Paulo

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O editorial do Estadão

Melhor assim. Em editorial publicado neste domingo, com o título "O mal a evitar", o jornal O Estado de S. Paulo declara apoio a José Serra. "Com todo o peso da responsabilidade à qual nunca se subtraiu em 135 anos de lutas, o Estado apoia a candidatura de José Serra à Presidência da República", diz o texto, "e não apenas pelos méritos do candidato, por seu currículo exemplar de homem público e pelo que ele pode representar para a condução do País ao desenvolvimento econômico e social pautado porvalores éticos. O apoio deve-se também à convicção de que o candidato Serra é o que tem melhor possibilidade de evitar um grande mal para o País."
Durante a semana anterior, em entrevista ao portal Terra, Lula havia alfinetado o posicionamento ideológico dos diários brasileiros, de maneira generalizadora, em mais um discurso recebido como sinal de destempero e autoritarismo pelas empresas de comunicação. "A imprensa brasileira deveria assumir categoricamente que ela tem um candidato e tem um partido", alardeou o presidente. "Seria mais simples, seria mais fácil. O que não dá é para as pessoas ficarem vendendo uma neutralidade disfarçada." Em resumo: Somos todos governados por um ditador que não tolera o contraditório, acusam a revista mais vendida do Brasil e seus principais jornalões. Golpista é a mídia, retribui o chefe de Estado.
Declarar apoio é prática habitual em veículos de comunicação dos Estados Unidos. Aqui, as mesmas "nove ou dez famílias" que controlam a imprensa, nas contas de Luiz Inácio, se apegam ao (frágil) conceito de imparcialidade como se dele tirassem seu sustento e dele dependesse seu faturamento anual. Bobagem. A opção é sempre evidente. Sem adentrar no âmbito dos motivos e das intenções, sabemos perceber quando a Carta Capita e a IstoÉ se inclinam em favor de Dilma e quando Serra é incensado por Veja e Época, para além dos jornalões. Suzana Singer, ombudsman da Folha, tem razão quando reclama, na edição deste domingo, que Dilma e Serra perderam espaço na cobertura jornalística em favor de uma batalha travada entre o presidente e a imprensa. "Quem perde com esse debate turvo é o eleitor não militante, que gostaria de saber um pouco mais sobre o que pensam os candidatos e o que pretendem fazer", diz o texto. A mesma ombudsman concorda que "os críticos à Folha têm razão quando afirmam que o noticiário está mais negativo a Dilma do que a Serra" e que "no afã de esmiuçar a biografia da candidata do governo, fatos sem importância ganharam destaque indevido". São os ônus de liderar as pesquisas e representar o governo em exercício. Imprensa, no Brasil, é quase sempre oposição - e isso valia para Fernando Henrique Cardoso, Itamar Franco e Fernando Collor. O chato, o ruim, o triste, é vislumbrar uma oposição irresponsável e rancorosa, como muitas vezes foi a atitude do mesmo presidente Lula em tempos de oposição - e que a história mostrou equivocada e contraproducente.
O Estadão fez bem em declarar quem é, afinal, seu candidato. Agora só falta o resto da imprensa "imparcial" fazer o mesmo.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O direito à comunicação


Ontem fui ao lançamento do livro "Indicadores do Direito à Comunicação", escrito por meus amigos do Intervozes, um coletivo formado por jornalistas e radialistas preocupados com os conglomerados de mídia e sua resistência, velada ou aberta, à democratização dos meios de comunicação.
Voltei para casa interessado no tema e no título. A despeito de todos os vícios de linguagem ali reunidos - um compilado de expressões disseminadas em universidades e obras acadêmicas como "fomentar", "fortalecer o diálogo" e "desafios e opções metodológicas" -, gostei muito do que li. A justificativa do estudo, logo na página 15, serve como ponto de partida explícito da relevância da abordagem. "A defesa do direito à comunicação esbarra cotidianamente na ausência de referências objetivas", diz o texto. "Ao mesmo tempo em que se ampliam os atores envolvidos nessa luta e o entendimento de sua centralidade para a luta pelos direitos humanos, faltam elementos de referência sobre seu atual estágio de desenvolvimento e apropriação pela população". Mais além, ainda na mesma página, os autores traçam com humildade e singeleza a linha-mestra da empreitada: "A intenção desta pesquisa foi dar início ao desenvolvimento de indicadores que permitam à sociedade quantificar e qualificar os elementos fundamentais que indicam a efetivação do direito à comunicação, estabelecendo referências normativas para isso. Esta questão se torna ainda mais relevante quando se entende a comunicação como elemento chave para a democracia."
Direito à comunicação é um conceito ainda relativamente novo, que chega ao centro do debate para ser devidamente explorado e, à medida do possível, exaurido. Ele se soma ao já bastante conhecido tema da liberdade de expressão. Trata-se, se me permitem uma analogia com a campanha eleitoral deste ano, do "pós-Lula" da democratização da mídia. Vamos a mais um trecho do livro, copiado da página 23: "A liberdade de expressão é um direito humano fundamental. Entretanto, a ideia por trás do direito à comunicação sustenta que esta liberdade só pode ser alcançada de forma plena se for assegurado um conjunto mais amplo de direitos ao seu redor, como o acesso aos meios de comunicação de massa. Na prática, o direito à comunicação requer que sejam criadas, de fato, as condições necessárias para um ciclo positivo de comunicação, que envolve um processo não apenas de busca, recepção e transmissão de informações, mas também de escuta, compreensão, aprendizagem, criação e resposta - o que passa por medidas que assegurem a diversidade da propriedade e dos conteúdos dos meios de comunicação, indo além da liberdade de expressão como direito individual."
Mais provocações? Vamos lá: "De acordo com a lei, uma pessoa pobre que busca dar visibilidade à injustiça que sofre tem a mesma proteção de seu direito à liberdade de expressão, de expressar seus pontos de vista, do que um poderoso magnata dos meios de comunicação. Porém, na prática, ela carece de recursos de toda ordem - econômica, política, técnica, cultural e social - para fazer ouvir sua voz, enquanto o dono de um veículo possui os meios para garantir que sua mensagem seja amplamente ouvida. A liberdade de expressão pode ser na prática, então, uma liberdade para poucos, muito poucos. De fato, quão real é a liberdade de receber e transmitir informação quando não se pode ler ou escrever? Ou a liberdade de buscar e receber informação em lugares onde os governos e empresas não têm obrigação de fornecê-la? Ou quando o acesso a meios de comunicação como a telefonia ou a internet não são garantidos?"
Funcionário há dois anos e meio de um desses grandes grupos de mídia, dos que gozam da mais completa diversidade de recursos e instrumentos para exercer a liberdade de expressão na forma mais ampla, conforme a analogia mencionada pelos colegas do Intervozes, sinto-me de alguma forma devedor dessa frente, dessa ordem, dessa aliança. Com o novo livro em mãos, já em casa, passei um bom tempo tentando entender por que diabos ainda não procurei o pessoal do Intervozes para me associar, pedir minha "filiação" ou seja lá o que baste para que eu possa também integrar essa aguerrida militância. Um sorriso meio maroto me surpreendeu, sozinho, quando pousei novamente os olhos nas carinhosas dedicatórias rabiscadas na folha de rosto: "Ao Camilo, ator importante nesse cenário desértico, carente de boas palavras e vozes inspiradoras", começava a mensagem do João, que conheci pelo apelido de Auí quando ainda éramos garotos. "Camilo, seguimos juntos em busca de nossa utopia democrática", emendava o amigo Diogo. Deus os ouça, meus caros, Deus os ouça.

Em tempo: O livro dispõe de uma licença Creative Commons e também pode ser baixado, em pdf, clicando-se aqui.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Espontânea

Gilberto Gil cantou, na música "REP", o seguinte refrão:
O povo sabe o que quer
mas o povo também quer o que não sabe.
Nunca antes na história deste país a frase fez tanto sentido.
Basta observar com alguma atenção o resultado da mais recente pesquisa de intenção de voto feita pelo Datafolha e publicada no sábado, dia 17.

Se oriente, rapaz - alertou o mesmo ex-ministro em outra canção.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Um poste no caminho

Pesquisa CNI/Ibope divulgada hoje coloca Serra com 35% dos votos e Dilma com 30%. Finalmente, a disputa eleitoral começa a esquentar, prometendo boas derrapagens e alguns acidentes no meio do caminho. Faz lembrar os melhores momentos de Senna e Prost - embora não dê para saber quem é o Senna e quem é o Prost na corrida que ora se apresenta. Os carros ainda estão longe da reta de chegada, mas já dá para sentir a catimba e as armadilhas que um reserva para o outro.

Intenção de voto estimulada para Presidente (CNI/Ibope)
Sabe quando um carro de corrida aproveita o vácuo para pegar embalo na cola do adversário? Numa pesquisa eleitoral, o mesmo princípio ganha o nome de empate técnico. Cinco pontos percentuais atrás de Serra, a candidata do presidente Lula ainda não pode se considerar empatada com o líder da oposição (a pesquisa tem margem de erro de dois pontos para baixo e para cima). Mas ninguém duvida que o empate deve pintar em breve. Por enquanto, os números do Ibope ratificam o resultado divulgado recentemente pelo CNT/Sensus, cuja pesquisa dava seis pontos de vantagem para o governador paulista. E ratificam, também, o caráter plebiscitário, com jeitão de referendo, esperado para a eleição deste ano. Os índices do voto espontâneo, etapa da pesquisa em que o entrevistado revela seu candidato sem ver a lista de nomes, são ainda mais surpreendentes no que se refere ao desempenho da ministra da Casa Civil. Pela primeira vez, ela foi mais lembrada do que o concorrente mais próximo:

Intenção de voto espontânea para Presidente (CNI/Ibope)
Mais uma vez, Luiz Inácio Lula da Silva aparece no topo - um detalhe que não diz muito diante do histórico brasileiro de transmissão de votos, mas que indica os píncaros a que Dilma pode chegar, dependendo de sua autonomia de voo. Autonomia, no caso, está longe de ser a qualidade mais forte da candidata. Pelo menos é assim que a imprensa e o próprio Partido dos Trabalhadores têm buscado caracterizá-la, talvez de maneira proposital, induzida, como estratégia para fazer colar a imagem de continuadora mecânica: uma espécie de Lula de saias que celebrará a missa conforme a cartilha de seu mestre. "Com Dilma, pelo caminho que Lula nos ensinou", dizia um painel gigantesco fixado ao fundo da tribuna que confirmou a candidatura da ministra no mais recente congresso nacional do PT. Episódios como esse ajudam a disseminar a ideia de uma candidata sem sal, sem visão e sem projetos. Uma sombra fadada ao fracasso como foram Luiz Antonio Fleury Filho (sucessor de Orestes Quércia no governo do Estado que acabou marcado pelo massacre de 111 detentos na penitenciária do Carandiru) e Celso Pitta (prefeito de São Paulo conhecido pelo escândalo dos precatórios e outras denúncias de corrupção). Até outubro, tudo indica que muito falatório será gasto para dirimir essa dúvida: a situação tentando mostrar que Dilma tem estofo e história; a oposição tentando tachá-la de poste - como bem abordou reportagem de capa da revista Época. Do alto de seus 83% de aprovação, Lula acompanha a briga com ar confiante, certo de que a (sua) esperança vencerá o medo (de Serra).

Aprovação do Presidente Lula (CNI/Ibope)
Até agora, o candidato do PSDB não deslanchou. Nem assumiu a candidatura, apesar de reafirmar nos bastidores seu compromisso com a tarefa. A essa altura do championship, trocar a disputa federal pela reeleição estadual seria uma espécie de suicídio político, coisa que ele não fará. O noticiário tem batido na tecla de que ele só espera o lançamento do novo PAC para se lançar, uma estratégia para que seu anúncio não seja ofuscado pela oponente mais forte. Agora, se Lula vencer o desafio de colar sua imagem na de Dilma, como já parece ocorrer, será preciso um golpe de sorte para que nada ofusque seu esperado anúncio. Especialista em emplacar axiomas nas manchetes dos jornais, ao defender o regime castrista ou apresentar ao planeta um inédito "vírus da Paz" (que ele teria contraído no útero materno), só mesmo um acordo de cavalheiros firmado com a cúpula do PSDB poderá conter, por um dia ou dois, a incontinência verbal de "Santo Lula". Aguardaremos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Devagar e sempre

Parece que o país está melhorando. Timidamente, é verdade, e a despeito das catástrofes que a gente é obrigado a engolir todos os dias na hora do noticiário. Mas dá só uma espiada nos números apresentados pela pesquisa CNT/Sensus divulgada nesta semana. Duas mil pessoas foram entrevistadas entre 25 e 29 de janeiro, em 136 municípios de 24 unidades da federação, sobre sua percepção em relação a cinco grandes temas: emprego, renda, saúde, educação e segurança pública. Tinham de responder, para cada assunto, se achavam que, nos últimos seis meses, as coisas haviam melhorado, piorado ou continuado na mesma. Em seguida, foram convidadas a dizer o que imaginam que deve acontecer no próximo semestre. O resultado foi que, cruzando-se as respostas dadas em relação às cinco variáveis, 55% das pessoas disseram acreditar que, no geral, a coisa está melhor do que antes (a média mais positiva alcançada pela enquete desde abril de 2007). Já a expectativa de que tudo vai melhorar ainda mais nos próximos seis meses congregou 74% dos entrevistados.
Emprego e educação foram os dois setores com o melhor desempenho. A situação do emprego melhorou na percepção de 53,6% das pessoas e piorou para 17,6%. Já a educação foi aprovada por 47,1% da população e reprovada por 23,3%. Saúde e segurança pública, no outro extremo, continuam sendo nossos calcanhares de aquiles (o direito e o esquerdo). Em ambas, a sensação de piora supera a sensação de melhora.
O que não chega a ser novidade é a (altíssima) popularidade do presidente. Ainda segundo a CNT/Sensus, seu governo é avaliado positivamente por 71,4% da população e negativamente por 5,8% (os demais o consideram regular ou não opinaram). Já o desempenho de Lula à frente do cargo é aprovado por 81,7% e desaprovado por 13,9%.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Prenderam o Lula

Foi em 1980, no dia 19 de abril, quando o presidente da República ainda era apenas um presidente de sindicato. Trinta anos antes de se tornar "o cara" e ter sua biografia registrada no panfleto hagiográfico de Fábio Barreto, Lula comandou a maior greve de trabalhadores do ABC Paulista, então considerado a "locomotiva" econômica do País. Historiadores e cronistas afirmam que ele soube, naquele momento, aproveitar a visibilidade conquistada para fundar um partido e dar início à ascensão política que, mais tarde, o alçaria à posição de líder mundial incontestável. Para isso, foi preciso pagar um preço: o preço de passar 31 dias detidos em uma cela do Dops.


Naquela época, fazer greve era ilegal - e quem insuflasse a desordem poderia ser taxado de subversivo e enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Foi o que aconteceu com Lula, que dividiu uma jaula de 25 metros quadrados - e um único vaso sanitário - com outros dirigentes do sindicato (eram treze na maior parte do tempo). Ao longo de 31 dias, ele trapaceou no baralho, discutiu política, virou amigo do Tuma e deixou o xadrez, escoltado por dois delegados, para assistir ao enterro de Dona Lindu, sua mãe.
Os bastidores da greve de 1980 e da prisão do Lula são os temas da minha mais recente matéria, publicada na Revista Época São Paulo de janeiro (nas bancas até esta sexta-feira). São dez páginas ilustradas com fotos históricas e documentos colhidos por mim junto ao acervo do Dops no Arquivo Público do Estado de São Paulo, entre eles a foto do prontuário (reproduzida acima), as digitais do presidente, a capa do inquérito policial e o alvará de soltura. Quem não puder adquirir um exemplar pode ler a versão online da reportagem clicando aqui.


Para fazer a matéria, tive a oportunidade de entrevistar o presidente, numa visita ao gabinete paulistano da Presidência da República (localizado no terceiro andar do prédio do Banco do Brasil da Avenida Paulista). Aproveitei os melhores trechos da entrevista para criar um vídeo, disponível no Youtube, que traz também alguns dos documentos que compõem o prontuário de Lula no Dops e imagens da greve "emprestadas" do documentário Linha de Montagem (1982), gentilmente cedidas por seu diretor, Renato Tapajós.
Olhar essa história pelo retrovisor, observar as conquistas da "classe trabalhadora" e verificar o quanto a democracia brasileira evoluiu de 1980 para cá - possibilitando o fim da ditadura, da inflação e de outros demônios - provoca uma réstia salutar de ufanismo que, mesmo que de maneira tímida, sublinha cada parágrafo da matéria. Trata-se de um período da nossa história que, como tantos outros momentos, precisam ser lembrados para jamais serem repetidos.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

É só teimar (ou de como a pré-estreia do filme do Lula virou palanque)

O Presidente da República assistiu pela primeira vez, no sábado (28 de novembro), à versão definitiva do filme Lula, o filho do Brasil, que entra em cartaz a partir de 1º de janeiro. Acompanhado pela primeira-dama Marisa Letícia (ao braço direito) e pela pré-candidata à presidência Dilma Rousseff (ao braço esquerdo), Luiz Inácio Lula da Silva foi a São Bernardo do Campo prestigiar a exibição, organizada pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC com apoio da prefeitura e de empresas como a rede de cursos profissionalizantes Microlins e a marca de cosméticos Embelleze. Posou para fotos, acenou para uma plateia de quase duas mil pessoas – metade dela formada por sindicalistas e ex-sindicalistas – e, numa rara inversão de papéis, cumpriu ele mesmo o beija-mãos oficial da noite, cumprimentando, um por um, os atores e produtores do longa-metragem.


Emoldurado por um séquito de ministros e parlamentares da base aliada, Lula emocionou-se diante das cenas que retratam a morte e o enterro de sua mãe, Eurídice Ferreira de Mello (a Dona Lindu), evitou a imprensa e, prestando-se à insólita função de anfitrião-em-exercício do evento, jogou por terra as tentativas pregressas, algo quixotescas, de se disfarçar o uso político da fita. Pelo menos ali, no Pavilhão Vera Cruz – um complexo, implementado nos galpões da antiga Companhia Cinematográfica Vera Cruz, que reunirá cursos de profissionalização em audiovisual e incubadora de empresas ligadas ao setor –, funcionários do Palácio do Planalto e integrantes do PT ditaram as regras e assumiram a tarefa de transformar em palanque o que deveria ter sido apenas uma pré-estreia.

O primeiro estranhamento surgiu na semana anterior, quando se verificou que o credenciamento de jornalistas para a cobertura da noite estava sendo feito exclusivamente pelo setor responsável do Palácio do Planalto. O filme, afinal, é uma iniciativa da produtora LC Barreto ou do Governo Federal? Como justificar o fato de funcionários lotados no Executivo Federal (e pagos pelo contribuinte) dedicarem parte de seu expediente às tarefas de receber pedidos de credenciamento, conferir dados, formatar planilhas e encaminhar crachás com a rubrica verde-amarela a um evento em São Bernardo do Campo promovido, oficialmente, por uma entidade de classe autônoma sob patrocínio da iniciativa privada? É praxe, no entanto, submeter à equipe do protocolo oficial a tarefa de controlar, por motivo de segurança, o fluxo e os nomes das pessoas presentes a todas as solenidades públicas contempladas com a visita de Lula, mesmo quando não é o Planalto que as promove. Estranho costume em uma democracia.

O segundo estranhamento, que apenas amplificou os efeitos do primeiro, foi notar que todos os convidados recebiam de uma hostess, à entrada do Pavilhão Vera Cruz, um pequeno broche amarelo, ilustrado com um perímetro estilizado do mapa do Brasil e as iniciais PR, de Presidência da República, em letras maiúsculas. Seu uso era obrigatório no interior do galpão. “Coloque essa identificação e fique à vontade”, ela disse, indicando a esteira de raio-X e a equipe responsável por revistar as bolsas e pastas dos espectadores. “Deve ser PR de 'pé rapado'”, brincou um sindicalista, fazendo troça da própria insignificância numa noite em que os holofotes estariam direcionados, como de hábito, ao filho do Brasil.


O terceiro estranhamento surgiu ao dar-se início aos discursos, pouco antes das 21h, mais de uma hora após o horário marcado para o início do filme. Quando se imaginou que os realizadores do longa agradeceriam a presença e desejariam a todos bom divertimento, foi o prefeito Luiz Marinho, petista e ex-ministro de Lula, quem subiu ao palco. É verdade que a prefeitura aparece nos banners como apoiadora do evento. Mas franquear a ele o microfone e a prerrogativa de abrir os trabalhos, horas depois de ter inaugurado um espaço municipal dedicado à promoção dos direitos das crianças – batizado estranhamente com o nome da mãe do presidente, Eurídice Ferreira de Mello – pode ser interpretada como uma opção de caráter duvidoso. Fiel aliado, Marinho agradeceu a presença do cinebiografado e, na mesma frase, prontificou-se a cumprimentar a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, no que foi acompanhado por uma salva de palmas. Com a nítida sensação de missão cumprida, discorreu sobre os feitos da administração petista no campo da cultura, explicou o projeto que está sendo implementado no Pavilhão Vera Cruz e passou a palavra a Sérgio Nobre, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos.

Responsável pelo quarto estranhamento, Nobre forçou a amizade ao comparar o filme de Fábio Barreto a duas produções internacionais, as cinebiografias de Gandhi e Mandela, sugerindo a semelhança entre os líderes da Índia e da África do Sul com a do “menino de Garanhuns”. “O presidente já trouxe a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 para o Brasil; quem sabe não traz um Oscar também”, completou a exaltação, provocando uma risada afetada e milimetricamente calculada no diretor do filme.

Foi ele, Fábio Barreto, o autor do quinto estranhamento. Em seu discurso, breve e preciso, dedicou o filme a Dona Lindu, mãe do presidente, e se prontificou a soluçar no momento exato, levando as mãos aos olhos e incorporando uma pausa providencial em sua fala, motivada pela súbita emoção que sentiu ao se lembrar de uma senhora do Nordeste que ele sequer conheceu. Por fim, o que não é de se estranhar, o produtor Luiz Carlos Barreto leu ao microfone um texto que teria preparado para ocasião, no qual afirma: “Esse não é um filme político. É a história da família Silva (...), sua coragem e superação”. Será?

Em tempo: O filme não é grande coisa em matéria de cinema e deve provocar, tanto nos admiradores quanto nos detratores de Lula, uma sensação de desperdício, de que ainda está para surgir um filme à altura do personagem. Sua estética é demasiadamente fragmentada, tornando-se muitas vezes uma sucessão mal ajambrada de episódios, costurada num ritmo acelerado que sofre com a ausência de clímax e com a melodia quase ininterrupta (e maçante) de violinos e violoncelos. Há equívocos históricos, como a cena que mostra os diretores do sindicato dormindo no chão na cela do Dops em 1980 (eles dormiam em camas de concreto com colchonetes) e passagens mal conduzidas (como a da transformação do Lula alienado no Lula engajado). “Gostei do filme, mas algumas coisas estão mal contadas ali”, disse Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos na virada dos anos 1980 para os anos 1990 e atual deputado federal pelo PT. “O momento em que o Lula chora ao colocar o cargo à disposição não aconteceu na igreja logo após a greve de 1979, mas em uma assembleia no sindicato, depois de Lula passar quase um ano sendo chamado de traidor”, afirma ele, jovem metalúrgico na ocasião, citando uma cena do filme.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um porreta

Fui ao Dops. Ou melhor, ao Memorial da Resistência, belo pavilhão de exposições inaugurado há alguns anos no mesmo prédio onde funcionou o Departamento de Ordem Política e Social, na Praça General Osório, até meados dos anos 1980. Fui ao Dops para conferir a mostra em homenagem a Carlos Marighella, assassinado pela repressão política em 4 de novembro de 1969, 40 anos atrás.


Negro, baiano, filho de um imigrante italiano com uma descendente de escravos, Marighella nasceu em 1911 e aproximou-se do comunismo ainda na juventude, quando deixou a faculdade de engenharia civil para se dedicar à militância em tempos de colunas e revoluções. Importante quadro do PCB, foi preso e torturado pelo Estado Novo, detido na ilha-presídio de Fernando de Noronha e eleito deputado pela Bahia. Nos anos rebeldes, rompeu com o Partidão e optou pela clandestinidade para se tornar o maior nome da guerrilha urbana no Brasil, o inimigo-público número 1 da ditadura.


Desempenhando o papel de líder máximo da Ação Libertadora Nacional, a ALN, Marighella foi perseguido durante meses e executado naquela noite de 4 de novembro, enquanto cobria um “ponto” (um encontro clandestino com aliados), na altura do número 800 da Alameda Casa Branca, no Jardim Paulista. Na tocaia montada pela polícia, Marighella foi alvejado por tiros à queima-roupa. Na farsa montada pela polícia, Marighella teria resistido à voz de prisão e revidado ao cerco. No circo montado pela polícia, seu corpo foi encontrado numa posição impossível, oposta à versão oficial, estendido no banco traseiro de um fusca e com os pés para fora.



Sem Marighella, a ALN manteve seu projeto. Continuou denunciando a violência do regime e promovendo atos que contribuíssem para jogar alguma luz sobre a escuridão do cárcere (e a escuridão daquele período). Atuou no sequestro do embaixador americano Charles Elbrick a fim de libertar companheiros que haviam sido presos e torturados (alguns correndo risco de morte), o que despertou os instintos mais perversos de Sérgio Paranhos Fleury e sua gangue. Pouco a pouco, a ALN – e a guerrilha, em geral – foi perdendo seus quadros (cada vez mais jovens e inexperientes) para o exílio, para o silêncio forçado, para a masmorra, o pau-de-arara, a cadeira-do-dragão, o suicídio e o desaparecimento. Com o governo Médici, os anos rebeldes viraram anos de chumbo e, em 1973, qualquer possibilidade de resistência armada estava praticamente encerrada.


Passados 40 anos de sua morte, Marighella recebe homenagens de mártir e é aclamado como herói por intelectuais, como Antonio Candido, e “analfabetos”, como o presidente Luiz Inácio da Silva (só para empregar, com a conotação irônica e bufa que a expressão exige, o termo grosseiro adotado na mesma semana por outro baiano, que jamais será lembrado como exemplo de coerência). Compreendido como baluarte da liberdade e da soberania popular, Marighella recebeu, na noite do último dia 4, na Câmara dos Vereadores, o título de cidadão paulistano (projeto de lei de Ítalo Cardoso aprovado na Casa). No Rio, manifestantes pediram que o nome da Praça Marechal Floriano, conhecida como Cinelândia, fosse trocado para Praça Carlos Marighella. Sua biografia, já celebrada em Batismo de Sangue, de Frei Betto, vai virar novo livro, pelas mãos de Mário Magalhães, e filme, pelas mãos de Isa Grinspun. Sinais dos tempos. Feliz o país que sabe reparar seus erros e devolver a vida a filhos que enterrou precocemente. Mesmo que o faça 40 anos depois.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Troca de gentilezas

"Ele é viado e fuma maconha". O dono da frase poderia ser um carola de igreja, desses que papam mingau de hóstia no café da manhã. Também poderia ser um desses policiais rudes que fazem bico de leão de chácara em porta de boate e, durante o dia, malham até as orelhas em uma academia de fundo de quintal, doidos para descer o cacete em um larápio qualquer. Mas não: foi proferida por um governador de estado, chefe do executivo sul-mato-grossense, representante do poder Executivo eleito pelo povo e diplomado em solenidade pública perante o Legislativo. O alvo? O ministro do meio ambiente.


André Puccinelli parece ter perdido a razão. Ou, talvez, nunca tenha tido. Reagiu com as gentilezas acima ao ser questionado por líderes do comércio e da indústria local a respeito da recente decisão, conduzida pelo ministro Carlos Minc, de vetar o plantio de cana de açúcar em certas áreas do estado próximas ao Rio Paraguai. Ruralista e defensor dos latifúndios canavieiros - daqueles que acham que o ideal do Brasil é mesmo se tornar um "imenso canavial" - Puccinelli não poupou escatologia ao disparar seus petardos contra o ambientalista. Em seguida, por mais incoerente que possa parecer, ameaçou abusar sexualmente do mesmo ministro: "Se ele viesse (a Campo Grande), eu correria atrás dele e o estupraria em praça pública", afirmou.


Quem tem 30 anos ou mais provavelmente se lembra de uma frase famosa, dita em 1989 por um político com ideias semelhantes às exibidas por Puccinelli, que instruía bandidos a, havendo a necessidade íntima de cometer violência sexual, o fizesse sem colocar em risco a vida da vítima. "Tá com vontade sexual, estupra, mas não mata", eram os termos exatos. Já quem tem menos de 30 anos está cansado de saber que toda manifestação depreciativa em razão de orientação sexual, cor ou credo, entre outros aspectos, é passível de punição penal. Pelo menos na teoria.
Em vez de continuar à frente do governo, fazendo retumbar suas bravatas de menino-macho, talvez fosse hora de o homem da cana entrar em cana, devidamente emparedado pelo Ministério Público e lacrado pelo Supremo Tribunal de Justiça. Triste o país que não leva adiante sua indignação com as habituais afrontas feitas aos direitos humanos, comuns inclusive entre seus dirigentes. Algumas afrontas, a história mostra, estupram e matam.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O funcionário mais antigo

O metrô de São Paulo completou 35 anos de operação comercial no dia 14 de setembro. Fui à estação Paraíso conferir o palanque armado pelo Governo do Estado para comemorar a data. O povo do palácio dos Bandeirantes está em polvorosa com o assunto. Até o ano que vem, afinal, o metrô promete inaugurar nove estações: Sacomã, Vila Prudente e Tamanduateí, na linha verde, e Luz, República, Paulista, Faria Lima, Pinheiros e Butantã, na esperadíssima linha amarela.


De olho nas eleições de 2010, uma penca de deputados, estaduais e federais, perfilou-se ao lado de Serra e Kassab para aparecer nas fotos oficiais. Dali, todos puderam ouvir quando o mestre de cerimônias chamou ao tablado o funcionário mais antigo ainda em atividade na Companhia do Metropolitano de São Paulo para receber uma homenagem das mãos do governador.
Fiquei entusiasmado com a possibilidade de entrevistá-lo. Em qual setor ele trabalharia? Qual seria o número de matrícula e a data de admissão daquele simpático senhor? Que histórias guardaria do tempo em que o bilhete custava Cr$ 1,50 e toda a malha viária da cidade se resumia aos 7 quilômetros que separam as estações Jabaquara e Vila Mariana, as primeiras a serem inauguradas?
Atravessei a claque para me aproximar do personagem, que já descia pela extremidade oposta à que eu estava. Meio esmagado no meio do público, gesticulava para chamar a assessora de imprensa e solicitar uma entrevista com o cara quando ouvi um diretor do metrô reclamar com uma das responsáveis pelo cerimonial:
- Pô, sacanearam o Tizzle. Ele podia ter falado "um dos funcionários mais antigos", e não "o funcionário mais antigo".
Cheguei mais perto para assuntar. De bloquinho na mão, a moça fez que não entendeu e pediu explicações.
- Ora, o funcionário mais antigo em atividade é o Ernesto Tizzle, você sabe. Ele é do meu departamento. Mas não pôde vir porque está de férias em Natal. Chegou a ser convidado para esse evento, mas já havia comprado as passagens.
Me apresentei ao diretor e perguntei se ele podia me ajudar a entrar em contato com o tal Ernesto, mesmo que por telefone, durante as férias. Mas logo a assessoria de imprensa se acercou da gente e, pelos olhares, notei que havia baixado a censura.
- Não sei, fica difícil, ele está de férias, não tenho o celular...
Voltei para a redação pensando nesse homem. E também no colega que, a pedido da direção ou da gerência da empresa, obriga-se ao papel de se fingir de "mais antigo" a fim de garantir à macacada o benefício dos confetes. Provavelmente, o cara é o segundo ou o terceiro na linha sucessória, membro honorário do conselho dos anciãos. Não precisava ser obrigado a isso...
Um homem é rapidamente esquecido, veja você. Basta sair de férias. O outro vira ícone, é entrevistado, posa para fotos e sai nos jornais. A notícia em primeiro lugar! Ou a campanha eleitoral, dependendo do ponto de vista.

domingo, 26 de julho de 2009

Liberdade - essa palavra

Acabei de ler Diário de Fernando, livro mais recente de Frei Betto, lançado há um mês pela Rocco. Às vésperas do aniversário de 30 anos da lei da anistia, assinada em 28 de agosto de 1979, a obra desponta como mais um testemunho pungente do cotidiano de torturas e privações a que foi submetida grande parte dos que ousaram combater, com palavras ou armas, o chumbo grosso da ditadura militar. E o faz ao trazer a público, com acabamento literário, as anotações improvisadas no cárcere por Fernando de Brito, preso político entre 1969 e 1973.


Fernando é frade dominicano, a mesma congregação religiosa de Betto, e esteve preso com ele, quase sempre na mesma cela - no Deops, no presídio Tiradentes, no Carandiru e na penitenciária de Presidente Venceslau. Com tino de historiador, teve a coragem de registrar o cotidiano da prisão em letras miúdas sobre papel de seda e, correndo o risco de ser descoberto pelos carcereiros, garantiu a sobrevivência de seus relato escondendo cada página, devidamente enrolada, no tubo opaco de uma caneta Bic. A cada semana, aproveitava a visita de algum colega do convento para trocar a caneta subversiva por uma novinha, vazia, sedenta de informações e histórias. Quase quarenta anos depois da prisão, Frei Betto reuniu seu legado e transcreveu as anotações, dando forma de livro ao diário de Fernando. Uma das páginas originais pode ser vista na bela foto abaixo, de Marcelo Sant'Anna, publicada em matéria do jornal Estado de Minas.


Frei Fernando tem 72 anos e mora há 13 anos em Conde, na Bahia, onde mantém atividades missionárias junto à população mais pobre. Por muito tempo, foi obrigado a conviver com a dor de ter, com todos os atenuantes da confissão sob tortura, revelado informações que podem ter contribuído para o cerco policial que resultou no assassinato de Carlos Marighella, líder máximo da luta armada paulistana, em novembro de 1969. O episódio está narrado em Batismo de Sangue, o livro de Frei Betto que virou filme de Helvécio Ratton. Fernando foi preso no dia primeiro daquele mês, um domingo, juntamente com o também dominicano Frei Ivo Lesbaupin, ao descer de um ônibus no Rio de Janeiro. Haviam chegado naquela manhã. Ivo pretendia visitar sua família e Fernando, editor na Livraria Duas Cidades, teria uma reunião com o editor da Vozes. "Por que estão nos prendendo?", quis saber. "Uma senhora foi assaltada no ônibus e apontou vocês como ladrões", foi a resposta.

Não era nada disso. E eles sabiam. Fernando e Ivo, bem como Frei Betto e outros dominicanos, compunham uma rede de apoio responsável por esconder guerrilheiros e ajudá-los a sair do país quando a coisa ficava feia demais pro lado da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização liderada por Marighella. Conduzidos até o Cenimar, os frades foram interrogados por Sérgio Paranhos Fleury. Pau-de-arara, pancadaria, intimidação. "Vocês são base fixa do Marighella. Como é que o Marighella entra em contato com vocês?", o algoz de olhos vítricos e cara inchada quis saber. Com a corrente elétrica a enrijecer-lhe os músculos, Fernando contou que era Marighella quem ligava para ele, no telefone da livraria em que trabalhava. Trazidos de volta a São Paulo no dia seguinte, os frades foram obrigados a esperar o próximo contato e confirmar o próximo encontro, como se nada houvesse. Não deu outra: o contato foi feito e o ponto, marcado para a terça-feira, dia 4, na Alameda Casa Branca. Carlos Marighella foi executado a tiros. Anos mais tarde, Frei Tito, outro dominicano preso na ocasião, exilado em Paris, cometeria suicídio por não aguentar os fantasmas da tortura e da prisão.

Em Diário de Fernando, o que se lê é a crônica diária (ou semanal) daquilo que de mais importante aconteceu com ele e com seus pares nos tempos de prisão: a porrada, os sonhos, as visitas dos familiares e dos advogados, o apoio incondicional de D. Paulo Evaristo Arns, os trinta e poucos dias de greve de fome, o exercício da fé e do caráter, a chegada de novos presos, a saída de outros (alguns para nunca mais...). Nele, os autores (podemos dizer que são dois) também discorrem sobre a situação dos presos comuns, as brigas de faca, os crimes passionais cometidos entre bandidos amasiados na carência amorosa de quem passa cinco ou quinze anos sem ver mulher. Compõem, ainda, um retrato vivo e urgente de esperança e ode à liberdade. A mesma liberdade à qual Marighella, guerrilheiro-poeta, havia dedicado um soneto quando preso sob a ditadura de Vargas, em 1939, do qual destaco o último terceto:

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome.


A mesma liberdade que nos parece parca, mesmo quando ampla. A mesma liberdade pela qual ansiamos, mesmo quando livres. A mesma liberdade que desponta dos versos tão conhecidos de Cecília Meireles, dos quais roubei o título deste post:

Liberdade - essa palavra
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Cada país tem o Duque que merece

Dia desses ouvi alguém comentar sobre o desgaste da fórmula de humor praticada há tanto tempo pelo Casseta & Planeta. Anos atrás, diversos amigos jornalistas faziam questão de assistir ao programa toda semana. E chegavam à redação no dia seguinte comentando as melhores piadas da noite, as mais lapidares ironias. Esse fascínio acabou, não apenas em razão da incapacidade do grupo de se reciclar, mas também em decorrência de certo sucateamento a que o programa parece ter sido condenado após sucessivas reformulações propostas pela emissora e, é claro, a perda de seu líder mais conhecido. Outro motivo, no entanto, parece-me especialmente razoável para justificar a derrocada da sátira política como espetáculo humorístico.
Refiro-me ao fato de o próprio universo político ter se transformado em freak show, enquanto as instituições públicas convertem-se, paulatinamente, em um picadeiro muito mais fértil do que poderiam imaginar os mais criativos saltimbancos.
Não é à toa que o Congresso seja chamado frequentemente de "circo", inclusive pelos micos amestrados que perambulam por ali. E, a fim de promover a renovação sistemática do público e evitar-se a mesmice, a cada temporada surge um novo astro: um exímio atirados de facas, um destemido comedor de espadas, uma incauta mulher barbada recém-saída da Bulgária.
Houve a temporada do trem da alegria, a marcha dos anões, a hora da dancinha... Teve parlamentar de olho roxo, senador-crooner cantando folk em plenária, morte e vida severina na presidência da Câmara... Agora é a vez de um duque chamar para si os holofotes. Um duque recém-chegado sabe-se lá de onde para presidir o Conselho de Ética do Senado, uma espécie de clube do bolinha responsável por escolher os ingredientes, sovar a massa, abrir a redonda e servir a fumegante pizza do Sarney.


Paulo Duque (PMDB-RJ) chegou à Casa como segundo suplente do hoje governador fluminense Sérgio Cabral. Não recebeu votos, não fez promessas de campanha, age como se não tivesse contas a prestar com o eleitorado (até por não ter um). Assumiu o cargo indicado por Renan Calheiros, mais um cacique do mesmo partido de Duque e, é claro, Sarney. Já em suas primeiras declarações públicas, desacreditou as denúncias feitas contra o correligionário, disse que os atos secretos eram uma bobagem e esculhambou a opinião pública. "A opinião pública é muito volúvel", ele disse. "Não temo ser cobrado por nada. Quem faz a opinião pública são os jornais, tanto que eles estão acabando". Sobre a contratação de parentes, foi igualmente blasé: "Nomeações políticas sempre existiram, desde que o Brasil é República".
Tudo indica, pelo programa vendido na porta do teatro, que o final da peça é aquela que todos imaginam. Quando um servidor assume um cargo no qual deveria atuar com isonomia, como um juíz, e desanda a emitir opiniões pessoais logo de saída, acontece o que na Fórmula 1 convencionou-se chamar de "queimar a largada". É pena que, debaixo da tenda e acima da serragem, malabaristas e equilibristas prefiram fingir que nada veem. Pior para a nação, melhor para a farsa. Deixa o duque atuar à sua maneira!