segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Tem Perua na Avenida


Sensação do programa Mulheres ricas, da Band, Val Marchiori se prepara para estrear no Carnaval como destaque da Vila Maria

*publicado na edição de fevereiro da Revista Época SÃO PAULO 




No primeiro dia de ensaio, ela chegou de helicóptero. Desceu no campo de futebol vizinho à quadra – com todo cuidado para não sujar os saltos – e brindou com champanhe Veuve Clicquot ao ser apresentada como embaixatriz da escola de samba. “Hello!!! Amei chegar à Vila Maria em alto estilo!!!”, tuitou, teclando exclamação como quem toca um tamborim. Val Marchiori, a mais deslumbrada integrante do programa Mulheres ricas, da Band, nasceu para ser princesa. Mas a monarquia anda em baixa no Carnaval – e Val jamais está em baixa (hello!). Embalada pelo repique dos pandeiros, a “embaixatriz” irrompeu gloriosa pelo barracão da Zona Norte e até ensaiou uma dancinha. Àquela altura, meados de 2011, seus passos estavam longe de garantir nota 10 em evolução. Agora, a menos de um mês do desfile, a emergente loira de 37 anos promete turbinar o rebolado em três aulas de dança semanais para não passar vergonha em sua estreia na avenida. “Ela chegará ao Sambódromo dançando melhor do que a Luiza Brunet”, afirma a professora Paulinha Marjori. “Minha tarefa não é transformá-la numa mulata, mas trabalhar a expressão e o gestual para que fique bem diante das câmeras.” Val será destaque num dos carros alegóricos.

O convite para desfilar partiu da assessoria de imprensa da escola. A agremiação entendeu que ganharia espaço na mídia com o auxílio de uma pessoa glamourosa e bem relacionada (hello!) como Val. A Vila Maria mantém uma série de ações sociais voltadas à comunidade, como clínicas odontológicas e cursos profissionalizantes, e a socialite ajudaria a divulgá-las. Ela tem 14 mil seguidores no Twitter. Também contou pontos a favor da loira seu passado humilde. Val nasceu Valdirene, filha de agricultores, num sítio no Paraná. Muito antes de dirigir um Porsche Cayenne e morar num apartamento de 850 metros quadrados nos Jardins (que ela diz valer R$ 14 milhões), foi revendedora da Avon e participou de concursos regionais de beleza. Hoje, é dona de uma transportadora. Ela ainda recebe uma pensão alimentícia para cuidar dos gêmeos Victor e Eike, de 6 anos, filhos de um relacionamento extraconjugal de Evaldo Ulinski,dono do frigorífico Big Frango (ele é casado há 40 anos com Nylcéia Ulinski). Enfim, uma mulher capaz de transmitir
à nova geração de passistas uma perspectiva de futuro melhor. 


Não por acaso, seu carro, o terceiro do corso, simboliza “a mão do futuro”, conceito criado pelo carnavalesco Chico Spinosa. “A alegoria representa a modernidade, e Val é apenas um elemento ali”, afirma ele. O tema da Vila Maria neste ano é a mão como instrumento de criação. Segundo o carnavalesco, haverá um painel de led, de 4 metros por 6, logo atrás da socialite, no qual tudo o que ela tuitar será exibido em tempo real. Além de conectada, Val atravessará o Sambódromo do jeito que mais gosta: vestindo dourado e bebendo champanhe (hello!). O carro trará ainda outras 26 mulheres e uma performance com 18 dançarinos. A socialite será o destaque, mas Spinosa espera que ela não ofusque o restante da alegoria. “Sou dos que ainda acreditam que a força do desfile está na comunidade.” Mais do que isso, o carnavalesco não revela. Nem Val, que, até o fechamento desta edição, não se dispôs a interromper sua atarefada rotina para atender à reportagem. Hello!

sábado, 22 de outubro de 2011

Quando ele me chamar de pai

Vou virar a noite
Preparar seu leite
Quando ele me chamar de pai
Vigiar seu sono
Espantar seus medos
Quando ele me chamar de pai


Vou sair de bike
Vou gostar de Mickey
Quando ele me chamar de pai
Acordar bem cedo
Levantar sorrindo
Quando ele me chamar de pai


Quando ele me chamar de pai
Serei refém da sua voz
Meus braços terão seus cheiros
Meus versos dirão por nós
Histórias de cavaleiros
Piratas e samurais
Amigos pra toda a vida
Quando ele disser "papai"


Vou comprar chicletes
Vou tomar sorvetes
Quando ele me chamar de pai
Vou buscar na escola
Carregar no colo
Quando ele me chamar de pai


Caminhar na praia
Ajustar as boias
Quando ele me chamar de pai
Imitar os bichos
Espalhar meus beijos.
Quando ele me chamar de pai


Quando ele me chamar de pai
Serei refém da sua voz
Meus braço terão seu cheiro
Meus versos dirão por nós
Histórias de cavaleiros
Piratas e Samurais
Amigos pra toda a vida
Quando ele disser "papai".



domingo, 9 de outubro de 2011

Tempo de espanar as prateleiras

Esse é o nome do show a que assisti ontem, na Casa de Francisca.
É também um verso de uma das canções incluídas no repertório, composta com o parceiro Vicente Falek e cantada por Ilana Volcov.

"(...) Tempo de espanar as prateleiras
Tempo de trocar as fechaduras
Tempo de podar as trepadeiras
Tempo de dobrar as partituras (...)" 

Letrista bissexto, tive pela primeira vez a deliciosa sensação de ouvir minhas próprias composições interpretadas num palco. E não em qualquer palco, mas no charmoso (embora apertado) palco da Casa de Francisca, um dos melhores endereços de música ao vivo de São Paulo.

"Tempo de espanar as prateleiras", na Casa de Francisca

Foram 12 canções, em pouco mais de uma hora. Doze canções compostas nos últimos três anos com o amigo Vicente. Foi em abril de 2008 que nos reencontramos, após mais de dez anos, num improvável karaokê na Liberdade. Um grupo de amigos seguira para lá após a festa de lançamento da revista em que trabalho - e Vicente sentou à mesa ao lado. Treze anos antes, em 1995, tocávamos juntos em uma banda chamada Raiz Forte. Chico, Karina, Vicente e eu, tínhamos todos entre 15 e 17 anos de idade na ocasião, e fizemos não mais do que três ou quatro apresentações, em locais como o extinto Vou Vivendo, na Avenida Pedroso de Morais, e a Cultura Inglesa de Pinheiros, onde foi (mal) feita a foto abaixo, um dos raros registros que tenho daqueles tempos. Vicente é o cara com o baixo, junto ao microfone. Eu estou escondido na bateria.

Chico, Karina, Vicente e eu em show na Cultura Inglesa (1995)

Nossa primeira composição foi feita naquela época, com os outros dois membros da banda, e versos um tanto constrangedores:

"(...) Em cada esquina 
uma menina 
vendendo a flor da juventude 
vendendo o corpo sem saúde (...)". 

De lá para cá, graças ao bom Deus, minhas letras melhoraram um pouquinho. E a música do Vicente também. Nós também nos tornamos pessoas melhores, acredito. E, esteticamente, uma mudança fundamental aconteceu: as barbas cresceram e os cabelos encolheram.

Vicente em 1995 

Eu em 1995

Quando nos encontramos, em 2008, no tal karaokê, Vicente me contou que havia se profissionalizado. Agora, fazia trilhas e arranjos instrumentais, trabalhava como produtor, e, multinstrumentista, tocava piano, acordeão e baixo em grupos de jazz (e tango!) ou como frila, em gravações de álbuns de diferentes estilos. Também dava aula de piano e musicalização. E tinha interesse em começar a experimentar um repertório de canções. Alguns meses depois, lhe enviei por e-mail uma letra. Semanas depois, chegou um e-mail dele com um arquivo em mp3. "Delicadeza" estava quase pronta, já arranjada, faltando apenas os versos para preencher o refrão que ele havia criado:

"(...) De que é feito o amor?
De onde vem, e quando?
Como nasce? Quem o faz vingar?
Pra que serve? Onde vai parar?
Vem do gesto de quem ama.
Vem, o amor, do afã de quem se dá.
Desarruma nossa cama,
Põe a vida de pernas pro ar (...)"

Inaugurávamos, assim, a segunda fase da nossa parceria.

Para o show de ontem, Vicente montou a banda meio às pressas, daí a presença inevitável de partituras pelo palco. Tarefa difícil é decorar tanta música em menos de um mês. "Ela roi as unhas", "Pas de deux", "Ausência", "Quando ele me chamar de pai", "Pode entrar"... A mim, sabidamente uma pessoa ranzinza e metódica, caxias em quase tudo que faço, o resultado foi além do esperado. É claro que saí com ideias para um e outro reparos: ajustar a letra de "Nas mãos da malabarista", sugerir modificações no arranjo de "32". Fora isso, meu maior desejo é de que Vicente convença os músicos a registrar esse repertório em estúdio.

A Fábio Barros, Igor Pimenta, Ilana Volcov e Sonia Goussinski, meu mais profundo agradecimento. E, precisando de uma letra, estamos aí!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Mestre Pedro

Hoje tem missa de sétimo dia em homenagem a Pedro Bilatto, meu professor de literatura do terceiro ano. O que se segue é um pequeno texto que escrevi ao saber de sua morte. Fica como um rápido registro da minha admiração e do meu agradecimento.

     Quando o conheci, logo reparei que havia um curativo branco, um esparadrapo infalível a espiar por entre os últimos botões da camisa. Em si, aquele último resquício de infarto significava muito pouco – mas ganhava outra dimensão a cada cigarro acendido, entre uma aula e outra. Para mim, um moleque de 16 anos, o gesto de ainda fumar assumia menos o caráter displicente de quem desobedece o médico e mais a opção pelo prazer comezinho, pela liberdade cotidiana, pela sabedoria imensa de quem descobre o direito de não precisar dar o exemplo sempre – nem ser referência em tudo. Pedro era assim nas aulas, nas conversas de corredor, no trajeto de ônibus de volta para casa. Respostas lacônicas para perguntas insolentes. Ironia e sagacidade. Habilidade ímpar na arte de mostrar aos alunos que, seja qual for o perrengue da vez, há coisas mais importantes na vida com as quais se preocupar.

     Lembro que Pedro havia voltado à universidade e se formado em Direito pouco antes, naquele início dos anos 1990. Em vão: ensinar literatura era mais forte do que qualquer pretensão de advogar. Literatura, quando agarra na gente, é crime que não prescreve. E foi assim, nessa fase pós-Direito e pós-infarto, que tive a oportunidade de conhecê-lo. A mim, ensinou-me a gostar de Machado – o Bruxo do Cosme Velho, como gostava de repetir, adotando o apelido consagrado por Drummond. A mesma ironia, o mesmo ar lacônico e o mesmo olhar de cronista empunhados pelo autor de Dom Casmurro, pronto a esculhambar ritos e convenções, eu encontrava na prosa encantada (e encantadora) do mestre. Provavelmente pela semelhança de estilos, era Machado seu autor preferido, quando o meu continuava a ser Guimarães Rosa.

     Ensinou-me, também, que uma aula dedicada à troca de reminiscências e impressões, à conversa descompromissada, ao papo fugidio, pode ser muito mais educativa do que uma aula repleta de conteúdo, daquela espécie exigida nos vestibulares e prevista nos parâmetros curriculares cimentados em Brasília. Agradeço por ter aprendido isso no momento certo. Pedro, à sua maneira, contribuiu para que eu me tornasse um aluno – e, mais tarde, um jornalista – menos chato. Sem a experiência de ouvi-lo, e de aprender com ele, eu provavelmente não teria, hoje, o mesmo prazer pela escrita e pela leitura. Outros usufruíram da mesma herança. Órfão de filhos, como Brás Cubas, foi a muitos que Pedro transmitiu seu legado – o que só faz aumentar seu saldo ao chegar, sem a celebridade de nenhum emplastro, a “este outro lado do mistério”.

domingo, 14 de agosto de 2011

Dia dos pais, o primeiro de muitos

Hoje ele me acordou logo cedo. Ainda não foi dessa vez que ele pulou na minha cama trazendo um desenho nem se pendurou no meu braço dizendo "pai, acorda... levanta, paiê...". Mas ele estava lá, serelepe, dando cambalhotas no barrigão da Aline. Eram 7h30 - e eu saquei, imediatamente, que era a mim que ele queria. Através da pele, através do carinho que temos um pelo outro, pai e filho, trocamos um longo abraço. E nos beijamos, pai e filho, meio por vocação, meio por telepatia. Coisas que o amor explica melhor do que as palavras.


A atual edição da revista Crescer traz um texto meu, intitulado "Pai em Construção". Nele, transito entre as fantasias e as tensões, as delícias e as descobertas dessa fase gostosa e (inevitavelmente) apreensiva que estamos vivendo aqui em casa. Aline, Daniel e eu fomos fotografados pelo Rodrigo Schmidt. A imagem acima é uma das fotos que ilustram a matéria. A íntegra já está na internet. Para ler, basta clicar aqui. Ou dar um pulo na banca até o final de agosto. Reproduzo um trechinho:

Coisa boba é pai. Leva um chute e fica todo pimpão, esperando um replay. “Chuta o papai, chuta.” Papai. Engraçado, isso. Mudar de nome de uma hora para outra, aos 31 anos. Em casa, na escola ou no trabalho, já fui chamado por diferentes apelidos. Também respondo quando me chamam de Filho – embora apenas duas pessoas tenham o hábito de me chamar assim. Dá uma sensação boa, de conforto e segurança, ser chamado de Filho. Mas pai? Pai dá um baita medo. Enche a gente de orgulho – “Fui eu que fiz” – mas, ao mesmo tempo, traz um monte de preocupações. Será uma criança saudável? O dinheiro será suficiente? Vou saber educar? É verdade que muito pouco se diz sobre os pais. Raramente alguém se interessa em saber como é a gestação do NOSSO ponto de vista. Todo mundo só quer saber da mãe: como ela está? Depois do parto, o centro das atenções será o bebê: tudo bem com ele? Chegam mesmo a dizer que o papel do homem termina no momento da concepção. Bobagem. A melhor gravidez é aquela que se vive a dois. A três, para ser exato. A quatro (se forem gêmeos), e assim por diante.